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Sebastião Geraldo Breguez

O processo de ocupação humano no Brasil - a partir do seu descobrimento - fez com que se formassem no País regiões caracteristicamente culturais. As populações se estenderam por toda a faixa litorânea, ocupando os mais diversos pontos do território, em condições de adaptação ao meio cultural. Entre 1535, quando começa a ocupação no Brasil, a partir do Nordeste agrário, até a ocupação da Amazônia e do Extremo Sul, foram gastos mais de 100 anos.

A partir daí foram-se criando ali e acolá inúmeros povoamentos que deram origem a várias regiões culturais como ensina Manoel Diegues Júnior: o Nordeste agrário do litoral, o mediterrâneo pastoril, a Amazônia, a mineração do Planalto, o Centro-Oeste, o Extremo Sul pastoril, a de colonização estrangeira, a do café, a faixa urbano-industrial. De todas estas , a que mais importância teve, na primeira fase de nossa História, é a região do Nordeste agrário.

Foi ali que se iniciou a ocupação do nosso território e que teve importância fundamental nos primeiros ciclos econômicos: a economia açucareira, instalada, primeiramente, com engenho de açúcar e hoje com a usina. Foi ali que se formaram as primeiras linhas aristocráticas (de origem patriarcal, evidentemente), mas que por outro lado, foram caracterizadas pela maior mestiçagem entre brancos e negros. Foi ali que floresceu a Casa-Grande concorrida pelas senzalas e onde se instalaram os primeiros conflitos sociais no Brasil, quando os negros, cansados do cativeiro revoltaram-se contra os senhores brancos dominadores.

É esse Nordeste que hoje - e também em outras épocas - desperta a atenção de nossos estudiosos, dados as suas peculiares condições sociais, políticas, econômicas. Terra de povo sofrido, oprimido pelas condições ecológicas desfavoráveis, e onde, apesar de tudo, a criatividade se manifesta com vigor, transformando-o num dos maiores manancíais de manifestações genuinamente populares.

E para falar do Nordeste não há ninguém melhor que o professor Mário Souto Maior, Diretor do Centro de Estudos Folclóricos do Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais. Souto Maior faz parte da primeira fileira de pesquisadores da cultura popular brasileira, "uma vocação de dedicar-se à terra regional naquilo que ela tem ou tenha de mais expressivo", como afirma o antropólogo.

É de sua autoria o volume "Nordeste: A Inventiva Popular", lançado recentemente pela Editora Cátedra, do Rio, em convênio com o MEC.

Neste estudo, Souto Maior - que também é autor do "Dicionário do Palavrão e Termos Afins" - analisa inúmeros assuntos ligados ao folclore nordestino: o Diabo na cultura popular, a Cachaça, Origem do carnaval, Receitas populares da cana e do açúcar, Roteiro místico da Semana Santa ou, ainda a Visão etnográfica do fumo.

Dividido em nove capítulos, o livro apresenta os principais traços característicos do povo nordestino, e sua expressão cultural , e isto o torna de extremo valor para o perfeito reconhecimento de uma região marcada pelo sofrimento e pela a riqueza de suas manifestações artísticas genuinamente populares.

O primeiro capítulo é dedicado ao tema Cantadores e Vaqueiros e o autor analisa as ligações entre a cantoria sertaneja nordestina e o ciclo do gado. "Isto porque a pecuária sempre foi uma das principais atividades do nordestino, principalmente, no sertão e em boa parte do agreste (...) O sertanejo vive mais do criatório, porque a chuva é mais escassa e o gado criado solto, em constante migração por onde haja vegetação e água" (pp 19). O segundo capítulo é dedicado à análise do carnaval. Souto Maior revela, ao estudar o assunto o seu profundo conhecimento de história, pois penetra nos primórdios de nossa sociedade, no culto do deus Dionísio, quando as danças, cantos, orgias, abuso do vinho, e explosões de oprimidos contra denominadores marcaram época. No terceiro capítulo, estuda o processo de comunicação no qual a boca é o principal veículo: a emissão de sons, transformados em códigos através da linguagem, é o mais eficiente e antigo meio de comunicação usado pelo homem. Neste capítulo, o autor relaciona um sem-número de expressões populares em torno da boca. No capítulo seguinte, enumera uma série de gostosuras populares da cana e do açúcar e fala de suas origens. Souto Maior estuda, ainda, nos outros capítulos, a presença do alfenim no Nordeste, assenta um roteiro místico da Semana Santa, mostra as relações entre o trem, Nordeste e folclore, enumera três estórias de Deus, quando fez o Mundo, além de uma pesquisa sobre o fumo do ponto de vista etnográfico.

Nesta obra, Mário Souto Maior se apresenta como um grande retratista de sua terra, mostrando que, antes de tudo, existe uma cultura regional, tipicamente brasileira, imune, ainda à influência do "mass-média" e com vigor e criatividade sem fim. As páginas desse livro avivam a nossa consciência, a nossa memória, informando-nos que o povo - o povo sofrido do Nordeste - está vivo e que sua cultura é um marco importante para o redescobrimento de nossas raízes culturais.

BREGUEZ, Sebastião Geraldo. A inventiva popular do Nordeste. Estado de Minas, Belo Horizonte, 8/9/1979.

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Sebastião Vila Nova

Não é a primeira vez que venho a público para louvar as virtudes intelectuais do escritor Mário Souto Maior.

Tenho chamado a atenção para a importância etnográfica do trabalho do incansável pesquisador da cultura popular do nosso povo que ele é.

Mais conhecido como o ousado inventariante dos nomes ditos feios, empregados pelo povo brasileiro para denominar sobretudo as partes ditas pudendas do corpo humano. Mário Souto Maior é, no entanto, bem mais do que o lexicógrafo-mor da pornografia brasileira. Além de ocupar-se, por exemplo, da culinária nordestina, Souto Maior ocupou-se também da nossa medicina em Remédios Populares do Nordeste (Recife: Massangana, 1986), assim como do fenômeno do cangaço (ver Como nasce um cabra da peste. São Paulo: Arquimedes,1969, e Antônio Silvino, capitão de trabuco. Rio de Janeiro: Arquimedes,1971), do sexo no imaginário popular (Folclorerotismo. Recife: Pirata, 1980), da cachaça - esta cachaça sem a qual, como acertadamente pensava Rubem Braga, a Nação não teria sido construída (ver Dicionário folclórico da cachaça. Recife: IJNPS, 1973).

Em colaboração com o antropólogo Waldemar Valente, organizou duas antologias de consulta já obrigatória aos pesquisadores das matérias de que tratam, respectivamente: Antologia do Folclore Pernambucano (Recife: Massangana, 1988) e Antologia do Carnaval do Recife (Recife: Massangana, 1989). Com o pesquisador Leonardo Dantas Silva, organizou Antologia do Carnaval do Recife (Recife: Massangana,1991), fonte de consulta imprescindível ao estudioso do grande folguedo do nosso povo.

Tendo estreado como escritor em 1938, quando não era mais do que um garotão nos seus dezoito anos de idade, Mário Souto Maior passa dezesseis anos hibernando, entregue à atividade pedagógica, criando os filhos, que são muitos. Retorna em 1954, publicando, em parceria com o irmão, Moacyr Souto Maior, Roteiro de Bom Jardim .

Nova hibernação, desta vez de quinze anos. Em 1969, já funcionário do então Instituto Joaquim Nabuco, reaparece através do ensaio Como nasce um cabra da peste, contribuição original à compreensão do fenômeno do banditismo rural no Nordeste brasileiro. Aí não pára mais. Desembesta. Para que se tenha uma idéia da obstinada dedicação com que, a partir daí, se volta para a pesquisa etnográfica e a atividade literária, em um espaço de 23 anos chega a publicar 26 livros, o que significa mais de um título por ano, além dos inúmeros artigos que produziu em torno da cultura do nosso povo.

É um escritor incansável, um modelo de pesquisador, um dos maiores estudiosos vivos da cultura popular brasileira, principalmente a do Nordeste. Indicador inquestionável da importância da sua produção intelectual são várias edições que muitos dos seus livros têm alcançado.

E vem mais por aí. Além de tudo que publicou, já anuncia seis títulos, seis livros a sair: um sobre cantigas de ninar, o 2º volume da Antologia pernambucana do folclore (com Waldemar Valente), uma bibliografia sobre o folclore do nosso Estado, e uma bibliografia da nossa literatura popular em versos (dita "de cordel").

É escritor que ainda está por receber, dos pernambucanos, homenagem à altura da contribuição que deu à compreensão do que somos os nordestinos, através dos seus livros.

VILA NOVA, Sebastião. Um escritor pernambucano. Diario de Pernambuco,
Recife, 30/12/1992.

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Sílvio Júlio

Mário Talentosíssimo Souto Maior, digno de ser, como é e rutilante expoente maior de Pernambuco, o berço da boa brasilidade sem ufanismos acariocados ou mentirosos.

Já você sabe que o aplaudo, admiro e recomendo a discípulos e amigos por sua honradez de pesquisador metódico, de hábil e cauteloso da fenomenologia étnica tão resvalante e proteimórfica, de escritor pelo raciocínio e forma.

Você sintetiza o modo nordestino de tudo revelar com espontaneidade e singeleza, não a retorcimento do pescoço lingüístico-literário, - o que está nas cacaborradas modernistas dos populacheiros e pornográficos medíocres que nada trazem de novo, pois cada estudo que lança é claro, de fato, seu. Recifense nasci, e você eleva Bom Jardim, contudo fraternalmente, fugindo à vulgaridade dos prosaicos e sujos deturpadores do idioma, já que os dois carregamos toneladas de responsabilidades, decoro, altivez e autonomia dos nossos antepassados de 1817 e 1824. Salto de satisfação orgulhosa ao comprovar que pernambucano continua sendo sinônimo de emancipado e autêntico, jamais de macacóide pretensioso e papel-carbono.

Você, em NORDESTE: A INVENTIVA POPULAR, obra coesa, densa, magistral, resume informação bem colhida a exame ponderado, que difere dos pueris avanços e tremendas quedas da gentalha do improviso. Que abismo, da sua probidosa investigação, às adivinhações de folcloristeiros encarapitados em postos públicos, de onde se propagam, egoístas, apregoando-se mestres!!! ...

Minhas atitudes singulares e desassombradas condizem com as suas, embora você calma e proficuamente, e eu, forçado, a tacape e a golpe de cimitarra. Isto não pratico por vício, e assim lhe apoio aproveito a lição de, como aproveito e apoio a de Sílvio Romero, Pereira da Costa, João Ribeiro, Basílio de Magalhães, Gustavo Barroso, Luís da Câmara Cascudo e quiçá cinco ainda que não necessito aqui destacar. Um Augusto Mayer, do Rio Grande do Sul, por exemplo.

Você empresta à Etnografia das perviovências, ou folclore, aprumo, severidade, direção, nunca molecagem de apressado e batalhador que tropeça nas próprias patas. Não me afastarei do propósito de traçar-lhe o retrato cultural, e então elogiarei, ao sol, os diamantes que escolhi da joalharia NORDESTE: A INVENTIVA POPULAR.

Aperto-lhe as mãos, lealmente entusiasmado por este vôo de condor.

Sílvio Júlio
JÚLIO, Sílvio. Carta: Petrópolis (RJ, 28/11/1979).

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Veríssimo de Melo

COMES E BEBES DO NORDESTE – Mário Souto Maior publica mais um valioso livro de interesse sociológico e antropológico: Comes e Bebes do Nordeste. Edição da Fundação Joaquim Nabuco, Recife, 1984. Em forma de verbetes o autor reúne a sabedoria folclórica nordestina em torno de comidas e bebidas tradicionais. Desde as receitas dos nossos pratos mais caraterísticos, - a feijoada, a dobradinha, a galinha de cabidela, etc..., até as crendices e ditados a respeito de doces, bolos, bebidas regionais. Trata-se de pesquisa sobre a alimentação nordestina, seus hábitos e costumes tradicionais, com base no que melhor já se escreveu e fixou sobre a temática dos comes e bebes.

Esse trabalho de pesquisa do folclorista pernambucano é dos melhores roteiros que já se traçaram sobre o assunto, envolvendo uma verdadeira riqueza de dados e informações afins. Eis um livro para consultas que não pode faltar na estante do folclorista, sociólogo, do antropólogo nordestino e brasileiro em geral.

MELO, Veríssimo de. Comes e Bebes do Nordeste. A República, Natal

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Vicente Salles

O jovem pesquisador pernambucano, que já nos deu Cachaça, A Medicina Empírica da Cachaça, Presença do Alfenim no Nordeste Brasileiro, trabalhos divulgados pela revista do Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais e pela Revista de Etnografia, do Porto, lança agora seu primeiro livro pelas Edições Arquimedes, de São Paulo. E nesse livro mostra como Nasce um cabra da peste, abordando um tema importante do nosso folclore, relacionado com a gravidez e o parto. O tema se desenvolve através dos seguintes capítulos: Rapadura batida e outras complicações; Sexo e enxoval; crendices, Cachimbo, risada e careta, Canja de Galinha arrepiada; O parto, seus vexames e suas dores; Na alegria, o cheiro de alfazema. No final, um glossário de termos regionais.

Apresentando seu primeiro livro, Mário Souto Maior dá ao leitor o seu próprio depoimento, diz quem é e como realizou sua formação intelectual, revela finalmente como chegou ao folclore.

Mauro Mota salienta a contribuição leve e sem ranço cientifico do jovem pesquisador, destacando dois aspectos: direto, para o estudo da cultura popular num aspecto ainda não pesquisado assim com tantas minúcias pitorescas; e o outro, indireto, porque trata das práticas tradicionais ainda prevalecentes, e que tanto contribuem para os elevados índices da mortalidade infantil na zona rural do Nordeste.

Mário Souto Maior apresenta, neste livro, como contribuição folclórica e para deleite dos leitores, a história da vida, paixão e morte daquele tipo sertanejo nordestino que tanto pode ser o vaqueiro como o cachaceiro e desabusado; o trabalhador de eito como o desordeiro da zona rural; o calunga (ajudante) de caminhão quanto o cabra safado que faz qualquer um comer da banda podre; pode ser ainda o retirante infeliz e honesto como o assassino da mais próxima cadeia. É o portador daquele chapéu heróico - seu retrato e sua alma -, chapéu de couro cheio de comendas do cabra-da-peste, cabra-de-peia ou cabra-de-rêde-rasgada, o tipo que nasce, cresce e morre no sertão, quer tenha vida anônima e tranqüila, que se exalte nas bravuras, façanhas e arrelias e um dia terá a vida narrada pelos violeiros cantadores, ou será ele próprio, um dia, o cantador das alegrias, tragédias, vicissitudes, de sua terra, da sua gente.

SALLES, Vicente. Como nasce um cabra da peste. Revista Brasileira do Folclore, Rio de Janeiro, nº 25, set./dez., 1969.

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Waldemar Valente

O recente livro de Mário Souto Maior reflete o assunto principal de suas preocupações de escritor: o Folclore. Quase todos, senão todos os seus ensaios e estudos se inspiram na rica temática do saber popular. Neste saber vai ele buscar, à maneira de garimpeiro, as pedras preciosas, ainda em sua forma grosseira, para aproveitá-las, retirando a ganga imprestável das interferências eruditas, e devolvendo-as ao povo como verdadeiras gemas, bonitas e cintilantes. Assim aconteceu com o livro Como Nasce um Cabra da Peste, no qual focalizava, com riqueza de documentário, o folclore da obstetrícia, na opinião de Orlando Parahym. Também com Antônio Silvino – Capitão de Trabuco, que apresenta a vida heróica do famoso cangaceiro nas suas cores mais reais, numa gesta que reúne as mais célebres proezas e façanhas do bandido que antecedeu ao outro também famoso bandoleiro que foi Lampião, lembrando que fenômeno idêntico ocorre na temática dos cancioneiros de outros povos.

Para Mário Souto Maior, pesquisador folclórico sério e de beneditina paciência, Antônio Silvino e Lampião valem tanto para o cancioneiro heróico nordestino quanto Robin Hood ou Sigfried, autênticos cangaceiros, marcados de contraditórios gestos e atos de fidalguia e dignidade, como inspiradores de gestas na poesia popular européia. Ainda, tratando de Folclore é Em Torno de uma Possível Etnografia do Pão a que se refere Sylvio Rabello com simpatia, dizendo "que se trata de trabalho, que se pode dizer de etnógrafo dos melhores que o Nordeste nos tem dado". Muitos outros ensaios e estudos versando motivos folclóricos da autoria de Souto Maior poderiam ser citados. Entre eles: A Medicina Empírica e a Cachaça, Cachaça e Presença do Alfenim no Nordeste Brasileiro.

O novo livro do etnógrafo-folclorista Mário Souto Maior, à maneira dos outros, escrito com simplicidade, na fala que o povo entende, caracterizado pela pesquisa paciente, sem os atropelos prejudiciais da pressa, colhendo aos poucos o material que iria servi-lhe de base para o estudo, mostra-se fiel à especialidade científica a que se vem dedicando com saber e particular carinho. Especialidade – o Folclore – que se coloca ao lado das Ciências Sociais, ocupando lugar de merecido destaque, nos países que sabem valorizar a ciência, a arte e a filosofia que estão espontaneamente ligadas à vida e às atividades do povo.

A Morte na Boca do Povo, o mais recente ensaio de Mário Souto Maior, traz o sinete dos anteriores: gira em torno de tema folclórico dos mais sugestivos porque dicionariza e analisa locuções populares relacionadas com o episódio inevitável da morte, que consiste, sem dúvida, uma das maiores preocupações do espírito humano.

No trabalho de Mário Souto Maior o folclore da Morte é estudado através da linguagem que o povo usa, na autenticidade, no seu modo de falar espontâneo, envolvendo toda uma filosofia natural, sem livros e sem aprendizado, a um tempo tradicional e dinâmica, no saber que transmite oralmente. Exatamente A Morte na Boca do Povo, isto é, as várias e inúmeras maneiras que o saber popular criou para designar o fenômeno da morte.

Este trabalho bem que poderá, pelo próprio autor, ser ampliado, estendendo a pesquisa de modo a incluir, tanto quanto possível, outros aspectos do saber popular relacionados com a morte. Ou interpretar tabus, fazendo analogias com o que ocorre com outros povos. Tal cotejo seria interessante para mostrar como o Folclore, embora na forma expressional – isto é, no caso do folclore oral – apresente diferenças, no seu conteúdo ideológico, filosófico, artístico e sentimental ou emocional, mostra-se semelhante. O folclore sendo regional, no seu aspecto formal, é universal no saber espontâneo, no modo de sentir, de pensar e de agir que revela. Uma particularidade importante, vale salientar, neste ensaio de Mário Souto Maior: muitas das expressões que na boca do povo indicam a morte estão abandonadas por escritores e dicionaristas. Sobretudo, pelos escritores de ficção que, em seus romances, utilizam a linguagem falada pelo povo. Linguagem que às vezes pode ser gramaticamente errada, mas certa na significação exata que exprime: "Língua errada do povo, língua certa do povo", como no poema de Manoel Bandeira.

O livro tem o mesmo estilo dos outros: linguagem ágil e simples, sem pedantismo, e correta, sem gramatiquices. Não tem a preocupação intencional de ser científico, embora faça ciência. É livro que não cansa o leitor. É bem orientado e bem escrito.

 VALENTE, Waldemar. Prefácio de A morte na boca do povo. Rio de Janeiro: Livraria São José, 1974

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Xico Sá

Depois de três pequenas edições – sem distribuição nacional e com mais sucesso no Exterior que no Brasil – o Dicionário do Palavrão e Termos Afins, do pesquisador pernambucano Mário Souto Maior, agora tem a chance de rodar o país e agitar conversas de botequins e academias. Único na língua portuguesa e agora ampliado para mais de três mil termos, o dicionário ganha a sua edição pela Record, graças a uma carta enviada pelo autor oferecendo a obra, pois temia que caísse no esquecimento.

A idéia do Dicionário do Palavrão foi de Gilberto Freyre: "em 1976 ele chegou espantado para mim e deu a dica: Mário, saiu agora na Alemanha um dicionário do palavrão. Por que você, que é muito paciente, não faz o da língua portuguesa?"

Empolgado, Souto Maior topou a idéia e Gilberto Freyre tratou de espalhar a notícia ainda me garantiu o prefácio – conta o pesquisador. Mas o livro só saiu em 1980, em edição modesta da Guararapes do Recife, que vendeu cinco mil exemplares em 27 dias mesmo sem contar com distribuição nacional.

Foi muito trabalho para aprontar o dicionário. Soltei quatro mil questionários pelos correios, entre amigos, estudiosos e nomes coletados nas listas telefônicas de todo o Brasil. O resultado foi chegando de maneira empolgante. Era palavrão de toda

natureza e de todos os lugares – relata o autor, que tinha nas mãos verbetes que iam de Abacate (termo que designa força afrodisíaca) a Zebesque (mais uma variação para ânus, no vocabulário nordestino.)

E Gilberto Freyre acompanhava tudo em Apipucos, feliz com inflação de palavrões o que mais tarde motivaria um prefácio apaixonado, destacando a importância para a caracterização do ethos da sociedade. O palavrão, na escrita de Oscar Wilde, Genet, D. H. Lawrence, dentre outros, também foi mencionado pelo autor de Casa-Grande & Senzala, que não esqueceu a força do palavrão na sua própria prosa coloquial e antiacadêmica.

Mas o entusiasmo de Souto Maior e Gilberto Freyre foi brecado pela censura. Bastou uma entrevista de Gilberto falando sobre a preparação do livro, para que a censura mandasse buscar os originais, que ainda nem estavam prontos – conta o pesquisador. E nada de poder ser publicado durante o governo Geisel, o que só aconteceu em 80, com João Figueiredo.

A liberação sem cortes fez até com que Souto Maior rendesse uma homenagem ao general-presidente: autocensurou o verbete figueiredo, que na linguagem nordestina é mais designação de ânus. Não poderia deixar esta palavra, livrei-me dos mal-entendidos posteriores.

Mário Souto Maior, 68 anos, folclorista vitorioso com o Prêmio Sílvio Romero, autor de vinte livros, garante que o seu Dicionário do Palavrão nunca vai ser finalizado. Ainda hoje recebe cartas com novos termos descobertos em todo o Brasil e também está atento para as novidades da mídia eletrônica responsável pela consagração de algumas expressões.

Disposto a fazer quantas ampliações forem necessárias, ele conta que agora espera uma boa repercussão no País pois nas edições anteriores as universidades e a imprensa estrangeiras fizeram mais barulho. Claro que a apreciação de figuras como Jorge Amado, Drummond e Gilberto Freyre me deram alegria sem tamanho, mas ficarei mais feliz com circulação maior do dicionário – destaca.

No Exterior não faltaram elogios e registros da publicação de Souto Maior. A revista Maledicta (EUA), que trata exclusivamente do assunto palavrão, abriu suas páginas para o livro pernambucano. O mesmo aconteceu em Portugal, França, Inglaterra e resto do mundo.

Mas mesmo cercado de tantos palavrões – quando o entrevistamos acabara de receber mais um (bilaia – prostituta, interior do Nordeste) -, o coletor de nomes feios, como se denomina não é homem para dizer sequer um palavrão. A não ser quando a topada é muito grande – brinca. Sou também autor do Dicionário Folclórico da Cachaça e nunca tomo uma, escrevi Comes & Bebes do Nordeste e só sei fazer café solúvel – mostra a contradição.

Souto Maior chama a atenção para a função social do palavrão no atual sufoco econômico. É desabafo. É ironia para se segurar vivo. Recebo cartas de colaboradores que inclusive inserem entre palavrões impublicáveis expressões como cruzado, moratória, dívida externa, funaro, sunab, etc.

E nessa luta com palavras, palavrinhas e palavrões, o pesquisador, que trabalha na Fundação Joaquim Nabuco do Recife, anuncia para breve mais um lançamento A Língua na Boca do Povo, em que mostra quatro mil expressões interessantes com explicação minuciosa de origens e usos populares. O mais gratificante para Souto Maior e os leitores: 205 destas expressões não foram captadas pelo Aurélio, o sinônimo dos dicionários.

SÁ, Xico. Dicionário – Cumprindo uma função social? Jornal da Tarde. São Paulo, 18/6/1988.

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