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Nilo Pereira

Leio dois livros ao mesmo tempo - Território da Danação, O Diabo na Cultura Popular do Nordeste, de Mário Souto Maior, e o Pecado de Nossa Época, Karl Menninger, tradução de Clarice Lispector. Gostaria de aproveitar um livro do outro, embora sejam diferentes - o de Souto Maior trata dum diabo folclórico, quase diria familiar; o de Menninger, do diabo na Teologia. Nem Mário é teólogo, apesar das aulas Catecismo do padre Renato, nem Menninger é folclorista e etnógrafo. Em conjunto, cada qual, a seu modo, trata do diabo, que é a mentira, o embuste, a transgressão da lei de Deus, o pecado, a perdição.

Mário Souto Maior estuda o diabo nos diversos meios de entendimento popular. O idôneo pesquisador já provado e comprovado, nos traz o Capiroto sob as mais variadas formas e os mais coloridos estilos. São milhares as maneiras com que ele se apresenta. Chamou-o, ele aparece. Na literatura de cordel - um dos capítulos do livro - lá está ele fazendo diabruras de toda espécie. Na imaginação popular, ele ferve e referve, cheira a enxofre, tem chifres, espalha brasas, deita fogo pelas narinas, é rabudo e peludo, dança e pula, tenta e lança a pobre criatura nas profundas do Inferno. Nunca vi, em livro nenhum, tantos e tão completos, sinônimos do diabo, como nesse de Souto Maior: - uma terminologia, infinda e sinistra nos dá os nomes pelos quais é conhecido o Tinhoso. A tradição, valorizada por essa sinonímia interminável, faz do Bicho um demônio familiar: - sabemos todos os nomes pelos quais ele acode e fustiga e tenta e condena. As estórias que Mário Souto Maior conta - procuradas no sertão através duma busca interessante que caracteriza o pesquisador que ele é - apresentam o Fute com os seus mil trejeitos, pronto a enganar e seduzir cornudo e sebento rei do fogo eterno, que queima e não consome. Livro que vai a todas as raízes da concepção demoníaca do povo, é simplesmente admirável como interpretação ao sentimento das massas, dos conceitos estabelecidos. Mas, cá por mim, tenho certo medo que Mário Souto Maior possa ser mal interpretado, isto é, que os novos "teólogos" digam: - Eis o que é o Diabo: uma crendice, uma assombração, um duende, um lobisomen, um fantasma de noite escura. E, em consequência disso, pensando-se que o livro de Souto Maior é a própria exegese do Diabo, se conclua: - ele não existe; é apenas um gênio mau das florestas; uma coisa da Igreja antiga; vive enquanto viver o atraso do povo...

Já Karl Manninger o teólogo, no seu livro, adverte seriamente que o Diabo existe, e que existe o pecado. Vivemos numa sociedade - assinala o Autor - em que não se fala mais em pecado. A humanidade liberta do pecado promovido quando muito a crime, devia estar voltando a uma fase de inocência, de ternura, de solidariedade, de compreensão humana, de fraternidade, de edênica convivência. E, no entanto, enquanto acabam com o pecado e com o sr. Diabo tudo piora: - aí estão o terrorismo, a insegurança, a violência, a desumanidade, os crimes, os atentados de toda espécie à pessoa humana. Ou será que tudo isso se faz porque nada disso é mais pecado?...

Vou a um terceiro livro – O Diabo - de Papini. Para o escritor o diabo existe. É um anjo decaído. Construir o seu reino de trevas, onde toda esperança é perdida, como no terrível verso dantesco. No juízo Final, diz Papini, o Diabo será recuperado. Voltará ao céu. Acaba-se o Inferno. A Igreja, é claro, condenou o seu livro. Vejo diante de mim - que horror! - os três diabos: o de Mário Souto Maior, o de Menninger e o de Papini. Mário me leva ao povo; Menninger à Teologia; Papini ao erro. Conclusão: - o Diabo existe. E Souto Maior não escreveu para provar o contrário ... A maior vitória do Diabo é pensarem que ele não existe. Isso é que ele quer...

PEREIRA, Nilo. O Diabo e o pecado. Jornal do Commercio, Recie,21/9/1975

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Orlando Parahym

Folclore é emanação da cultura popular em toda a variedade dessa forma de criação humana. Compreende no seu sentido mais amplo a alimentação, os divertimentos, a terapêutica naturalista, a medicina rústica, os folguedos, os cantos, as danças e os ditos populares, as estórias sem autoria definida e divulgadas pela voz do povo, passando de geração a geração. As superstições incluem-se no folclore. Ditos populares, também.

Nesse campo imenso e atrativo, mergulhou fundo a inteligência de Mário Souto Maior que é, hoje, no Nordeste, um dos mais categorizados mestres na matéria desse ramo da legítima cultura popular. Sua contribuição ao conhecimento do folclore é tão vasta quanto valiosa. E isso pode ser confirmado pela simples enumeração de alguns dos muitos livros por ele publicados, como, por exemplo, os seguintes: Alimentação e Folclore, Remédios Populares do Nordeste, Comes e Bebes do Nordeste, Sogras, prós e contras, Galalaus e batorés, Território da Danação, Folclore quase sempre. Além disso, dezenas de artigos em jornais, boletins e avulsos.

Vê-se por aí, a paixão de Mário Souto Maior pelo folclore e seu devotamento à pesquisa em tal seara da cultura.

Como o saudoso Luís da Câmara Cascudo e também Waldemar Valente, Souto Maior inclui-se entre os nossos mais eruditos etnógrafos.

Não vai exagero em afirmar que nada do nosso mundo cultural escapa à visão folclórica. Literatura de cordel, reizados, cheganças, maracatus, frevos, passos carnavalescos, garrafadas sertanejas, buscadas, roda de São Gonçalo de Amarante e milhares de outras coisas que vêm dos usos, costumes e tradições regionais formam a essência do folclore. Também os benditos e as excelências ("incelencas"). Sem dúvida, tal estudo nos desvenda, sem rebuços, a alma pura do povo naquilo que ele possui de mais autêntico e expansivo, que são cantos fúnebres dos matutos.

A palavra "folclore" foi criada em 1846 (22 de agosto, data que se consagrou universalmente) pelo inglês William John Thoms. Depois, o conceito da palavra alargou-se muito, como se sabe. O Nordeste possui um folclore riquíssimo.

O folclore não tem autor nem objeto definido. Deriva-se de tudo aquilo que é objeto de ação nas formas naturais do convívio humano, partindo das mais primitivas e mantendo-se por via das tradições. O fenômeno folclórico é universal; todos os povos possuem o seu campo folclórico, transportam crenças, folguedos, ritos e músicas quando mudam de terra, como aconteceu com os africanos escravizados e trazidos para o Brasil com os seus maracatus, batuques, xangôs, pratos típicos, rituais, etc. etc.

Os caboclinhos com seu vestuário de penas, suas danças características, sua música tipicamente rudimentar mostram a contribuição indígena para o nosso carnaval.

Na alimentação do povo, mandioca (pão do Brasil, como diz Pinto de Aguiar) representa a grande herança do nosso índio e sempre presente nos cardápios autenticamente brasileiros. A mandioca não é somente amido, ela encerra vitaminas do complexo B, conforme experimentos laboratoriais de Moura Campos (São Paulo).

Vastíssima se denota a influência africana e indígena no vocabulário em geral e na toponímia do Brasil. Riquíssima a sua contribuição ao folclore.

Mário Souto Maior impõe-se, graças aos seus estudos especializados e interessantíssimos como uma das maiores autoridades em Folclore e Etnografia em todo o Brasil. Autoridade nacional, incontestavelmente.

PARAHYM, Orlando. Um mestre do folclore. Orelhas de O Puxa-saco, aqui, ali & acolá. Recife, 1993

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Paulo Gustavo

Certa feita, Câmara Cascudo, ao comentar sobre a volumosa História da Imprensa de Pernambuco, de Luiz do Nascimento, teria dito que se tratava de "uma obra de abelha", numa alusão à brava e obsessiva tenacidade do jornalista pernambucano. No caso de Mário Souto Maior, que em julho próximo completa 80 anos, temos a honra e o prazer de contar com outra grande abelha de nossa cultura, cujo mel, filtrado da alma do povo, retorna a cada dia mais doce para este mesmo povo.

Quem, desejoso de conhecer e estudar nossas tradições e costumes, não se deparará obrigatoriamente com o folclorista maior de nossa gente? Sem essa grande abelha, a colméia de nossa cultura seria menor e precária. Com efeito, sem seus livros, muito de nossa memória já estaria sepulta no esquecimento ou, senão isso, dispersa numa oralidade a cada dia mais frágil e fragmentada.

Quem diz Souto Maior diz folclore, diz cultura popular. Com sua habitual humildade, o mestre se vale de outro inseto para repetir que suas pesquisas são um "trabalho de formiguinha". De abelha ou de formiga, a verdade é que seu trabalho, longe de apenas contentar as prateleiras da etnografia e dos estudiosos, tem caído no gosto do povo, tem falado a linguagem do povo. Eis um autor que conhece o sabor de ser apreciado, lido e procurado.

Formiga ou abelha, o mestre trabalha como um Hércules. Inventa, cutuca, revira, bisbilhota, faz amigos por todo o Brasil, marketeia, vale-se de sua imensa rede de admiradores, dribla os obstáculos, passando ao largo das lamúrias tão comuns à sua categoria - a dos servidores públicos. Delicia-se e nos delicia com a curiosa variedade dos temas que abraça: o palavrão, a culinária, a religiosidade, o humor, as histórias infantis.

Quem o visita na sua sala da Fundação Joaquim Nabuco encontra um espírito jovem, cheio de projetos. Nada que lembre rabugens da idade ou melancolias de quem apenas enxerga fracassos. Aos oitenta em flor, que completa em julho, é uma abelha bem-humorada e dinâmica, uma formiga que nunca deu ferroada em ninguém mas que trabalhou e trabalha para vencer os invernos e chegar com energia renovada ao dia de amanhã e à posteridade, que, aliás, não tenho dúvida, lhe será, talvez mais do que nós, contemporâneos, profundamente grata.

Parabéns, Mestre!

GUSTAVO, Paulo. Escritor recifense.

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Potiguar Matos

Jalapa, ipecacuanha, mastruço, erva-cidreira, jucá, sabugueiro, erva-doce, juá, sena ... como poderia o homem imaginar que um dia esses nomes de ervas se fizessem proustianos e o arrebatassem, indisfarçadamente, comovido para o espaço cinzento do passado? Ouço vozes na casa perdida, vozes para sempre silenciadas, mãos diligentes e ternas que preparam mezinhas, as porções mais que terapêuticas, pequenos milagres de carinho acontecendo sobre a dor e o medo. O homem sente gosto e cheiros verdes, todo o continente submerso alumia resgatado sob um sol, ai! Dele, já morto, faz tanto tempo...

Agradeço a Mário Souto Maior, meu guru de folclore, a beleza desse estudo Remédios Populares do Nordeste (Fundação Joaquim Nabuco, Editora Massangana, 1986). É um pequeno grande livro. Ressuscita a sabedoria milenar do povo, gerada ninguém sabe onde e se comunicando ninguém sabe como, marcada por relações vitais homem/natureza, um tempo inaugural, a inteligência começando a posse do mundo, ainda, tocada de encantamentos e magia. Souto Maior possui uma obra muito rica em títulos e densidade. Seu novo livro se faz nela um marco de significação inconfundível. Situa-se além da simples informação. Nasce, possivelmente, numa vertente de desencanto do homem com as grandezas, bruxarias e misérias da aventura científica contemporânea. Lembra uma outra sabedoria e dimensão. Tem a força de nos tornar mais humildes. Leiam e confiram. A apresentação de Roberto Mota, um ensaio de cinqüenta e poucas linhas, lúcida e seminal, é uma das coisas melhores que já li dele.

MATOS, Potiguar. Crônica de Remédios e Voto. Diario de Pernambuco. Recife, 20/9/1986

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Renato Phaelante

Vem aí, uma adaptação para o teatro do livro do escritor e folclorista Mário Souto Maior, Como Nasce um Cabra da Peste, feita por Altimar Pimentel.

Ninguém, até hoje, nesta terrinha, pesquisou tanto e reuniu tantas informações sobre o folclore brasileiro, com detalhes tão minuciosos e sabedoria popular inclusive, como o mestre Mário Souto Maior.

Possuindo cerca de quarenta livros publicados tratando dos mais variados temas do folclore, além de outras incursões literárias tais como poesias, contos e histórias sobre o cangaço.

Mário Souto Maior, como bom nordestino tem seu colorido próprio, incomum na maneira de resgatar, de expor, na precisão de dizer, na clareza e na naturalidade para se fazer entendido. Em Mário, o assunto já é curioso, divertido, torna-se de fácil assimilação. Adquire sabor e cheiro característico o que ele diz e escreve.

Tarefa difícil a do veterano e bastante premiado teatrólogo Altimar Pimentel, também nordestino, de transpor para o palco o livro Como nasce um cabra da peste, de Mário Souto Maior.

Experiente, sensível, inteligente, profundamente ligado e grande conhecedor das raízes nordestinas, Altimar saiu-se magnificamente dessa missão impossível.

Vários autores de teatro se utilizaram dessa fonte rica e permanente do nosso folclore, pincelando seus temas e personagens. Entre eles destacam-se Ariano Suassuna, Luiz Marinho, Jairo Lima, José Carlos Cavalcanti Borges, Isaac Gondim Filho e até alguns mais recentemente como Vanda Phaelante com a sua Inácia da Silva, Jaci Bezerra no seu Auto da Renovação, Reinaldo de Oliveira com Ave Maria!... Goooool !, só para citar alguns.

Altimar Pimentel não apenas deu algumas pinceladas no folclore. Ele determinou a pintura de um quadro inteiro de características folclóricas. Não somente realizou uma adaptação, mas também conseguiu, através de um quiproquó, uma conchambrança em um ato, dividido em seis cenas, trazer para o palco os segredos, mistérios, crendices, superstições, costumes e tradições da região durante a expectativa de um parto num recanto qualquer desse Nordeste. Pedaço de chão no qual nascem, diariamente, milhares de "Brasileiros: Profissão Esperança", na definição do poeta Antônio Maria.

A trama insinuante, o diálogo fluente e característico, a sutileza teatral em comunicar o elemento folclórico que se revela em cada um dos seus quadros da peça, tornam esse trabalho de Altimar Pimentel, adaptado da obra de Mário Souto Maior, antológica na concepção, um legítimo clássico da literatura folclórica/teatral.

Os futuros leitores e espectadores que o digam !

De parabéns os dois cabras da peste !

PHAELANTE, Renato. Souto Maior no teatro. Jornal do Commercio, Recife, 5/6/1997

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Ricardo Noblat

Uma coleção que compreende 645 marcas diferentes e o farto material recolhido numa pesquisa no Nordeste fizeram de Mário Souto Maior o maior estudioso e o que mais conhecimentos possui sobre a cachaça. Catalogou rótulos, aprofundou-se em sua origem (antes era bebida apenas de negros e escravos), seus efeitos terapêuticos e misturas perigosas segundo a crença popular.

Em tempo: Mário Souto Maior não bebe.

Depende dos olhos. Os de observadores apressados notarão, apenas, que se trata de uma grande coleção de garrafas de cachaça, a maior do Norte e Nordeste do Brasil. Olhos mais atentos distinguirão alguns rótulos – Ressaca, Queridinha, Sedução do Sorriso, Apolo 11 - e poderão perceber sua importância como meio de comunicação social. Os olhos do dono da coleção, o sociólogo pernambucano Mário Souto Maior, 54 anos, entretanto, vêem mais coisas. Identificam a correlação entre a cachaça e os adágios populares - mulher, briga e cachaça estão sempre na praça. Descobrem sua utilização como remédio - mangeroba com aguardente é muito bom para maleita, segundo a crença do nordestino. Reconhecem as situações onde ela pode fazer mal – com leite mata dizem os mais velhos. Determinam, enfim, a importância que a cachaça tem na vida diária de milhões de brasileiros.

A CACHAÇA NA VIDA DE MÁRIO

Na vida de Mário Souto Maior, dedicado pesquisador de hábitos e costumes do povo, a cachaça começou a ter importância a partir de 1969, quando ele deu início à sua coleção. Não havia o desejo simples de reunir o maior número possível de garrafas. Havia, por detrás disso, sim, a pretensão de escrever um livro. As primeiras garrafas distribuídas pelas prateleiras de sua apertada biblioteca numa casa de Olinda, vieram de Vitória de Santo Antão, interior de Pernambuco, uma espécie de meca da cachaça, onde, se fabricam mais de 30 marcas diferentes. Depois, vieram representantes de vários estados brasileiros. Hoje são 645 e poderiam ser muito mais se o objetivo de Mário não fosse possuir uma coleção selecionada. A maioria é de Pernambuco. Mas, predominam, também as do Paraná, São Paulo e Minas Gerais. Há três raríssimas: Botija, fabricada até mais ou menos, 1945; Recordações de 1940 e Uísque do Norte.

O estado que mais produz cachaça no Brasil é o de Minas Gerais, que possui 3.226 destilarias. Em seguida, São Paulo, que tem 2.963 e o Rio Grande do Sul, com 1.407. Mas foi no Nordeste, que seu consumo enriqueceu-se de novas fórmulas de acordo com as necessidades do homem. Ela o acompanha em todos os momentos, desde quando ele nasce e as pessoas se reúnem para comemorar, até sua morte, quando é ela que anima os que velam seu corpo. Foi no Nordeste que Mário Souto Maior pesquisou um farto material para seu livro Cachaça.

Possivelmente o registro mais antigo sobre a fabricação da aguardente no Brasil está na prestação de contas da safra de 1651-52 do Engenho Ceregype, dos jesuítas, no Recôncavo Baiano. Lá, consta a despesa de 15 v 360 que paguei por hum ano a hum aguardentro que fazia aguardente a 1280hs pz mez e de comer. Na época da colonização era bebida reservada só aos escravos. Por ela, eles eram trocados nas costas africanas. Mas a cachaça serviu, também, aos ímpetos de um povo em formação. Tanto que ela foi o símbolo de protesto contra a dominação quando estourou a crise de 1817 em Pernambuco. Ao invés do vinho do Porto, o padre João Ribeiro só levantava brindes de cachaça.

Antes bebida de negros escravos, a cachaça democratizou-se. Das senzalas, conquistou as mercearias, os botequins, os bares e invadiu os restaurantes e lugares mais elegantes do país. Está na boca do povo em ditos e adágios que Mário Souto Maior selecionou: Acontece desgraça porque não acaba cachaça; Jogo sem cachaça é como batuque sem viola; Pinga de mais, tombo na poeira; Não há festa sem graça, nem poeta sem cachaça. É cantada em verso e prosa pelos poetas da literatura de cordel do Nordeste. Provem essa bebida/ - que nos dá sensação nova/ de uma vida bem vivida./ Quem a cachaça não prova/ é como moça bonita/ que vai virgem para a cova.

A BEBIDA NA CRENÇA DO POVO

Não são poucos os que rezam: Creio na cachaça boa/ que é pura, imaculada/ um alimento gostoso/ que engorda o camarada/ e a qual foi concebida/ no alambique e vendida/ na bodega, engarrafada. Mário Souto Maior divide o tira-gosto, indispensável no acompanhamento da cachaça, em duas categorias distintas: o erudito, compreendendo a batata frita, o salgadinho à base de farinha de trigo, o amendoim e a castanha de caju já industrializados, o camarão e a agulha frita, e o popular, que vai da carne-de-sol até a tripa de porco. Ele registra o fato de, no interior cearense, à falta de um bom tira-gosto, um bebedor profissional contentou-se em chupar um pedaço de barbante.

Em muitas regiões do Brasil o tira-gosto preferido é o caju deixado uma noite no sereno, depois de injetado de cachaça. No Recife continua muito em moda o caldinho de feijão fervendo.

Pelo menos desde o século XVIII, quando viveu no Brasil Luís Gomes Ferreira, aplicado médico português, tem-se conhecimento do uso da cachaça para curar doenças. Uma receita muito antiga para combater a maleita é esta: Flor de Macela, 12 cabecinhas; água fervendo, 8 colheres de sopa. Infunda, côe e ajunte: aguardente de 16°, uma colher de sopa, azeite-doce. Tomar tudo de uma só vez por ocasião do calafrio. Resguardo de oito dias e repetir a dose. Quem viaja debaixo de chuva no Nordeste bebe cachaça para não ter constipação. Na zona, canavieira de Alagoas uma gota de aguardente é bom para olho doente. Em casos de sarampo ou bexiga doida, em muitos lugares do Brasil mistura-se jasmim-de-cachorro. Em várias regiões do Sul, para mordedura de cobra, receita-se duas colheres de copaíba e quatro, ditas de aguardente. Segundo a crença popular, é um excelente purgativo.

O folclorista Alceu Maynard Araújo, citado no livro de Mário, diz que a cachaça com raiz de pau-de-bugi cura sífilis e misturada a outras raízes cura infeções diferentes. A cachaça pode ser usada até contra ela mesma: para alguém deixar de bebê-la é só juntá-la à raspa de unha da mão esquerda e servi-la de manhã, em jejum.

A MISTURA QUE CAUSA MEDO

Se é recomendada como remédio em muitos casos, acompanhada de determinadas outras bebidas ou de alguns alimentos, ou ainda se tomada em ocasiões impróprias, a cachaça pode fazer mal e até mesmo matar, como acredita o povo. Depois de uma manga ela pode ser fatal segundo crença dos sertanejos de Pernambuco. Em São Paulo, numa vasta área, não é recomendada com uma melancia. Em muitos lugares do Nordeste é proibida se o indivíduo comeu uma banana-anã. No Sul, depois de um pepino, pode matar.

Mário Souto Maior destaca os rótulos das garrafas de cachaça como importantíssima fonte de documentação histórica e como um eficiente meio de comunicação, responsável também, por transformação de costumes. As mulheres foram lembradas em muitas marca, como Chica Boa, Mineirinha, Rainha Pernambucana, Ana Maria, Eva, Mulata. Sucessos de antigos carnavais da mesma forma: Tem Nego Bebo Aí, Tomara Que Chova, Tá Pra Você. Os habitantes do interior brasileiro incorporaram ao seu vocabulário muitos termos novos por causa de cachaças como: É Uma Brasa, Mora, Barra Limpa e Legal. Episódios históricos ficaram registrados em rótulos como o Aliada, Monte Castelo, Invasão e Vitória. Quando Hiroshima e Nagasaki foram destruídas, foi lançada no mercado brasileiro a cachaça Bomba Atômica. A política não foi esquecida e houve uma aguardente que se chamou Forças Ocultas. O espírito malicioso e irreverente do povo brasileiro foi cultivado por cachaças como Gostosa, Só pra Homem, POP, Deixa Comigo e Amansa Sogra.

Assim como houve e ainda há uma diversidade incrível de marcas no Brasil, a cachaça e os termos relacionados com ela também são milhares, variando de acordo com a região. São sinônimos de cachaça, dentre outros: a que matou o guarda, capote de pobre, iaiá me sacode, maria meu bem e penicilina. Beber quer dizer também olhar na janelinha branca, salgar o galo, baixar o santo e empinar a coruja. Estar embriagado por ser: a meio pau, beber água com garfo, chamando cachorro de meu tio, andar cercando frango e estar com a cachorra cheia.

NOBLAT, Ricardo. A cachaça de um sociólogo. Fatos e Fotos, Brasília, 6/5/1974

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Roberto Benjamin

"No leite de coco até pedra fica gostosa..." me dizia uma velha quituteira de Tamandaré, durante a pesquisa que realizávamos para o Projeto Universidade/UFRPE, em 1978.

Agora lendo os originais me lembrei dela, para parafraseá-la; sendo de Mário Souto Maior, qualquer tema fica gostoso. Imagine se for de coco...

Depois de documentar a vida e a morte, a sogra e o diabo, os galalaus e os batorés, o açúcar e a cachaça na vida do povo do Nordeste, Mário Souto Maior nos traz novo trabalho, resultado de sua pertinácia e perseverança no exercício continuado da pesquisa folclórica.

Prosseguindo na recolha de aspectos peculiares de nosso folclore, Mário Souto Maior nos oferece agora Riqueza, Alimentação e Folclore do Coco.

Associa a árvore, a fruta e a dança, incluindo a peia, a quenga e a baba-de-moça em um único ensaio integrando no Folclore os vários ramos do conhecimento: faz História, Economia, Botânica, Lingüística, Medicina e Alimentação. Tudo escrito no seu estilo de sempre. Leve e agradável. Gostoso que nem doce de coco!

BENJAMIN, Roberto. Orelhas de Riquesa, alimentação e folclore do coco. Recife : 20-20 Comunicação Editora, 1994

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Roberto Mota

Remédios Populares do Nordeste vem de um dos mais ilustres folcloristas não apenas do Nordeste, mas do Brasil, diretor de um centro de estudos que tornou conhecido até internacionalmente, o Centro de Estudos Folclóricos do Departamento de Antropologia do Instituto de Pesquisas Sociais da Fundação Joaquim Nabuco.

Trata-se de trabalho mais-do-que-folclórico. É antropológico, é sociológico. O primeiro interesse metafolclórico se associa à etnografia das origens. O que é negro, o que é índio, o que é ibérico nos remédios populares? O que é originariamente popular e o que é que vem de fontes eruditas e isso em processo que continua no presente? O pesquisador Mário Souto Maior nos oferece mais do que remédios; seu livro é mina de ouro para outros pesquisadores e dele poderão sair muitas teses e monografias. A Medicina Popular, a seu modo, representa verdadeiro espelho da formação social, da história racial e cultural, das

relações entre classes e países. E é assim que a etno-história se transforma numa espécie de arqueologia. A medicina do povo se compõe de muitos níveis, cada um com seu próprio tempo, como se lendo e saboreando este trabalho, penetrássemos no mundo dos sonhos, onde nada passa, tudo fica.

Desse jeito chegamos a uma área vital da Antropologia. O estudo da mentalidade popular ou primitiva, dos seus limites, da interpretação entre racionalidade e magia, dos possíveis elementos de ciência na medicina popular e na medicina primitiva, da lógica - porque tem de haver alguma lógica, embora não compreendamos de imediato as suas premissas - que atribui tal remédio a tal doença, tal doença a tal fator. Se a asma se transmite pelo gato, é por que seus pêlos constituem poderoso elemento alergênico, como a medicina erudita viria a comprovar, ou é pelo contágio mágico do seu ronronado com os roncos do asmático, o princípio, aliás perfeitamente racional, de que "o semelhante produz o semelhante" transformado em justaposição de sons e de imagens, como ocorre em nossos sonhos? Os Fazer, os Freud, os Lévy-Bryhl, os Lévi-Strauss dedicaram sua melhor atenção, suas obras mais sutis, a questões exatamente desse tipo.

Mário Souto Maior, etnógrafo tão minucioso e paciente, talvez, não se apercebesse que o que ele mais faz é sonhar por todos nós, apresentando, nas páginas deste livro, nosso inconsciente com seus emaranhados, reiterações, com sua lógica usando antes coisas bem concretas que os conceitos mais abstratos dos sistemas eruditos. E proporciona imponente material para a análise das formas quase secretas que estruturam nosso jeito de pensar e de agir.

A gente ainda pode fazer outra pergunta. Por que, de uns anos para cá, esse interesse imenso pela medicina popular e primitiva? Podem-se buscar explicações econômicas, sociológicas e até puramente científicas. A, às vezes, denominada "medicina alternativa" representaria a fronteira da medicina erudita, seu "far-west", terreno de conquistas e expedições. Porém, impulsionando tudo isso parece existir razão ainda mais importante na vida de cada um. A Medicina é a inimiga da doença, do declínio e da morte.

Nossa sociedade envelheceu. As grandes esperanças da ilustração, do cientificismo, do racionalismo, da revolução industrial, das revoluções políticas, da sociedade do bem-estar generalizado, do consumo de massa, caducaram e passaram. Já não acreditamos nessas ilusões e queremos readquirir, voltar à substância de nossa vida. Nada mais básico que o impulso do pedir ao tempo que pare, de buscar a eterna juventude, a fonte de cura e de formosura. E aí os remédios populares se apresentam como imagem do mito do retorno, da fusão com o grande todo da natureza e da tradição, protesto meio utópico, meio amargo, festivo às vezes, outras muito cético, contra a fragilidade de nossa condição humana e social. Contra o fracasso da História.

MOTTA, Roberto. Apresentação de Remédios populares do Nordeste. Recife : Fundação Joaquim Nabuco, 1986.

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Saul Martins

Tenho a grata satisfação de acusar o recebimento de mais uma obra sua Nordeste -a Inventiva Popular, de excelente conteúdo, como, aliás, tudo que você faz.

Causa-me admiração sua capacidade de produzir.

A convite da Universidade de Córdoba, Argentina, participei do Seminário sobre o Patrimônio Artesanal, que se realizou na tradicional Universidade, de 23 e 27 de maio último, com excelentes resultados.

Venho recebendo com regularidade a série FOLCLORE. O último chegado se intitula Feijão-Tropeiro, nº 78. Agradeço-lhe a generosa atenção.

Quando quiser ou precisar, estou pronto a colaborar. Basta dar suas ordens.

Li na Veja sua entrevista acerca do esperado dicionário que custa nascer devido às "forças poderosas e terríveis..."

Aquele abraço do

Saul Martins
MARTINS, Saul. Carta: Belo Horizonte, 13/6/1979

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