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Manuel Diégues Júnior

Ninguém, nenhum de nós, se desprega de seu meio, por mais longe que vá no espaço físico; nenhum de nós se desprende daquelas influências presentes de seu ambiente de nascimento, prolongado este na meninice, na juventude, na idade chamada madura; ninguém, mesmo distante, no tempo ou no espaço, de sua terra ou de sua gente nativa, esquece sua vivência. É a influência maior - a desses primeiros tempos, da vida em sua região, com gente igual numa vivência comum: as mesmas famílias, os mesmos brinquedos, os mesmos tipos de casa, os mesmos movimentos de transporte, as mesmas danças, os mesmos cantos, os mesmos encontros nas mesmas ruas ou nas mesmas praças.

E creio que nenhuma região tem, como o Nordeste do Brasil, essa força que se tem chamado telúrica, mas que prefiro chamar humana, profundamente humana; nenhuma região impregna tanto sua gente, a ponto de lhe marcar até a vocação. No caso, uma vocação de dedicar-se à terra regional naquilo que ela tem, ou tenha, de mais expressivo. Diria mesmo de mais grudante. Grude que não se desprende nunca de nós - os do Nordeste: os que lá ficaram, ou os que de lá saíram.

Entre os casos dos que lá ficaram - um Gilberto Freyre, um Luís da Câmara Cascudo, um José Américo de Almeida, um Théo Brandão, um Gonçalves de Melo, um Veríssimo de Melo, um Domingos Vieira, um Florival Serraine, para lembrar apenas alguns nomes que no momento saem do teclado da máquina - aqui está um exemplo bem típico: o de Mário Souto Maior. Um pesquisador voltado para sua gente; um estudioso de olhos para sua região; um intelectual que a vivência regional marcou com traços tão vivos que dele, nacionalmente conhecido e nacionalmente aplaudido, não se desprendem.

Esta Inventiva Popular do Nordeste nos oferece traços nordestinos de expressão cultural da gente regional; o Nordeste em muitas de suas mais significativas características - a xilogravura, os cantadores, os carnavais (será que os carnavais ainda são os mesmos de nossos tempos?), as expansões místicas, o trem (aquele bem lembrado por Ascenso: vou danado pra Catende), o alfenim, enfim tantos e tão caracterizados aspectos de nossa região que o pesquisador Mário Souto Maior fixou com a nitidez de seu olhar observador e o conhecimento de seu viver cotidiano na região.

Região, a do Nordeste - repita-se - que marca tão nitidamente sua gente - que mesmo os que saem, não fogem de sua presença, sentem permanentemente suas mãos presentes. Presença no espírito, na criação, na maneira de ser. O que se podia observar de um Juarez Távora, um José Lins do Rego, um Jorge de Lima, um Graciliano Ramos; e até mesmo no universalizado Gilberto Amado; e que se pode observar em muitos dos que aqui, pelo Sul, vivemos neste corre-corre da vida que nos trouxe para cá. Região, a do Nordeste, com esta força de marcar cada um de seus filhos, definindo em cada um de nós a sua presença permanente.

Daí por que não esquecemos, antes vivemos, aspectos desta vivência regional, através de suas manifestações populares. O que as páginas deste livro nos falam de cantadores ou de carnaval, de alfenim ou de fumo, de trem ou da boca naquilo que possuem de caracteristicamente folclórico – o que o povo cria e difunde sobre cada coisa - avivam no que está fora lembranças e recordações: lembranças de carnavais ou de viagens de trem, recordações do gostoso alfenim ou de desafio entre cantadores.

Há nas páginas de Mário Souto Maior uma impregnação muito viva de regionalidade; mas de regionalidade alimentada pelo que há de universal nas manifestações populares.

Maneiras de ver ou de ser que, encontradas em vários povos, têm em cada um deles, sua expressão própria, aquilo que lhes dá originalidade regional. O que se sente nas páginas deste livro.

E outra não é a razão por que se lêem estas páginas com interesse, com alegria, com um vivo sentido de vida; e não apenas com água na boca para recordar tão características expressões regionais do nosso Nordeste.

DIÉGUES JÚNIOR, Manuel. Prefácio de Nordeste: a inventiva popular. Rio de Janeiro: Livraria Editora Cátedra/ Instituto Naciona do Livro, 1978

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Marco Antônio Maciel

Recebi com imensa satisfação, os exemplares de um Menino Chamado Joaquim Nabuco, o qual juntamente com os livros da mesma série dedicados a Gilberto Freyre e Dom Helder, vêm oferecer a nossa juventude a oportunidade de conhecer nossos grandes vultos.

Grato pela gentileza.

Abraço amigo.

MARCO MACIEL
MACIEL, Marco Antônio. Telegrama: Brasília, (DF), 18/4/2000

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Marcus Prado

Duas máquinas de escrever e fazer bons livros? Como foi registrada a patente dessas usinas a todo vapor - uma criação de personagens no mundo da Ficção - a outra com uma capacidade de prodigiosa de elaborar e fazer pesquisas na área da sociologia e do folclore? Como se denominam? Gore Vidal e Mário Souto Maior.

O norte-americano tem algumas semelhanças como o seu companheiro de ofício pernambucano. Ambos têm uma mania que resulta em fazer leitura - aquela de ilustrar nossa curiosidade literária/aquela de enriquecer a nossa formação sobre a gente que povoa os lugares por onde passamos. O primeiro começou a escerver, segundo disse a uma revista parisiense, aos cinco ou seis anos, quando aprendeu a ler. "Na verdade não consigo me lembrar de não estar escrevendo" disse ele. Já nosso Souto Maior só falta dizer que nasceu escrevendo. E não vai deixar nunca de pesquisar e de publicar o resultado das suas pesquisas. Ele é o nosso maior folclorista. O que realiza, isoladamente, nesse campo, , vale por um centro cultural inteiro, e bem equipado.

Por que juntar o norte-americano Gore Vidal, que já conta com 9.399 citações na Internet, com esse brasileiro teimoso e obstinado Mário Souto Maior, que também está na Internet e na melhor bibliografia nacional e estrangeira sobre o folclore brasileiro?

Juntos estão nesta coluna, embora com seus estilos e propostas literárias e intelectuais totalmente opostos, para o registro do aparecimento de seus novos livros. Palimpsesto, de Gore Vidal, que acaba de sair com o selo da Editora Rocco, , e 4ª edição do badaladíssimo Nomes Próprios Pouco Comuns, de Mário Souto Maior, que volta, novo e atualizado, com o selo da Editora Bagaço.

Palimpsesto, as memórias de Vidal, revela que, entre um livro e outro, ele ainda encontrou tempo suficiente para viver uma riquíssima vida pública e privada, onde figuram amores diversos, inimigos, viagens, política e teatro.

Nesse rol, numeroso, de amigos e inimigos, Vidal abre as cortinas da história que ele testemunhou de perto, que envolve (escandalosamente, umas vezes sim, outras não) nomes famosos como Tenessee Williams, os Kennedy (Jacqueline Kennedy - "teria perdido a virgindade com um amigo de Vidal, num elevador parisiense" - Eleanor Roosevelt, Truman Capote, Paul Newman e Joane Woodward, Christopher Isherwood, Jack Kerouac, Tenessee Williams ( "detestava ler" ), Eleanor Roosevelt, Truman Capote ( "egoísta e mentiroso"), Jane e Paul Bowles, Santayana, Anais Nin, Norman Mailer, Leonard Bernstein, o duque e a duquesa de Windsor ( Já foram apontados como espiões e traidores da pátria). A narrativa do livro é descontínua e anárquica. Jogando com impressões e frases que sirvam como gatilho para a memória - para formar uma trama . "Memória é como alguém recorda a própria vida", diz o autor, enquanto uma autobiografia é história, exigindo pesquisa, datas, boa averiguação dos fatos.

Baseado nesta concepção, Gore Vidal leva o leitor não informado sobre os bastidores literários e artísticos do EUA de seu tempo e geração a ficar impressionado com as muitas vidas vividas por ele, num período de ouro que seu povo experimentou, pela última vez nos passados 50 anos, principalmente quando em Nova Iorque e Londres viviam a sua talvez maior efervescência cultural. Gore Vidal estava ali, vivendo as emoções dos prazeres da boemia e da carne.

Se o leitor quiser fazer comparações entre Vidal do Palimpsesto e o Mário Souto maior do Nomes Próprios Pouco Comuns não faça. Não vai haver muitas semelhanças. Mas não deixará esse livro de despertar em cada um , aquilo que foi observado pelo grande Carlos Drummond de Andrade após a leitura da pesquisa feita pelo pernambucano: "Um forte motivo de riso".

Gore Vidal é irreverente na análise que faz dos seus próprios familiares. Souto Maior nos faz rir com a sua (impagável) relação de nomes próprios, "farto de sugestividade" como enfatizou Carlos Drummon de Andrade numa das suas famosas crônicas do Jornal do Brasil, do Rio de Janeiro, agora transforma em Prefácio. Gore Vidal fez escavações no seu passado cheio de episódios que vale a pena conhecer. Souto Maior fez um sério e rigoroso trabalho de prospecção ganealógica, que faz a gente rir. Não há nada de paradoxal nesta afirmação. Exemplo? Vejam que tantos disparate, entre os escolhidos por Carlos Drummond de Andrade `a margem da literatura desse livro: Abecê Nogueira, Barrigudinha Seleida, Eclesiaste Cardeal da Costa, Francisco Facada Sargento da Cavalaria, José Amâncio e Seus Trinta e Nove. E é bom ficar por aqui, antes que outros quarenta apareçam.

PRADO, Marcus. Duas usinas de produção literária. Diario de Pernambuco, Recife, 20/11/1996

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Maria Julieta Drummond de Andrade

Pouco se sabe, em geral, aqui no Rio, sobre o que se passa em nossas províncias, sobretudo nas menores ou mais distantes. Não me refiro naturalmente à política, pois desta, confusa e conflitante, os meios de comunicação se ocupam sempre. Falo dos costumes, tendências, crendices e sabedoria de um povo que, sendo tão nosso, muitas vezes nos é mais desconhecido que o estrangeiro. Pareceu-me por isso proveitoso comentar hoje, aqui, um dos últimos livros de Mário Souto Maior, emérito folclorista pernambucano, apaixonado pelas coisas de sua terra e diretor do Centro de Estudos Folclóricos do Departamento de Antropologia do Instituto de Pesquisas Sociais da Fundação Joaquim Nabuco, no Recife. Trata-se de Remédios populares do Nordeste, aparecido recentemente e resultado de dois anos de pesquisa minuciosa, "mais antropológica e sociológica que simplesmente folclórica", no entender do especialista Roberto Motta, que prefacia o volume. Neste trabalho curto e divertido, o autor procurou reunir os principais remédios usados pelos nordestinos que não têm acesso aos produtos farmacêuticos, ressaltando as qualidades curativas daqueles e mostrando a ligação íntima que aproxima o homem primitivo dos produtos da terra. Eu disse "primitivo", deveria talvez ter dito "moderno", tendo em vista a atração que atualmente exercem sobre o cidadão urbano, principalmente se este for jovem, a medicina alternativa e os tratamentos naturais.

Na impossibilidade de enumerar, completa, a lista de receitas – aparentemente infalíveis, algumas em forma de cordel, de Caetano Cosme da Silva e Júlio J. Carvalho – reunidas por Souto Maior, escolhi as que me parecem mais pitorescas para a cura de males mínimos ou gravíssimos, que vão da afta à lepra. Por exemplo:

Os adolescentes que, de súbito, vêem seu rosto, antes liso, coberto de espinhas, ficarão livres desse acne aflitivo se lavarem a pela afetada com chá de camomila e água de arroz, se esfregarem com papa de cabacinho ou de semente de bonina moída, se a cobrirem com folha de pimenta malagueta bem quente, ou untá-la com banha de galinha ou nata de leite.

"Anemia é sangue fraco/como caldo de feijão,/não tempere aquele extrato/a não ser com alcatrão./Tomando durante um mês/Você sente cada vez/o efeito daquele prato". Também chamada de "pobreza do sangue", ela costuma ser sensível a três cálices diários de "garrafada" (feita com caroço de abacate ralado e dissolvido em vinho branco ou tinto), além de outro cálice, às refeições, de licor de jenipapo.

Já "Raiz de urtiga branca, /bem fervida ou cozinhada,/cura apêndice em formação./A mesma sendo ajudada/com raízes de imbé,/a cura é mais facilitada". Mas, se o problema já estiver avançado, o jeito é a vítima ingerir um festival de chás, misturando raiz de maliça e camapu, aroeira e capim roxo.

Sosseguem os asmáticos, que padecem de "cansaço do peito, piado" ou "puxado", pois: "Alho branco, alho-do-mato,/feito chá ou lambedor,/arranca bronquite asmática,/limpa o peito e tira a dor,/deixa sadio e curado/o corpo mais sofredor". Comer testículos de porco assados sem sal, tomar mel de abelha uruçu com gema de ovo, fel de boi com um pouco de cachaça, chá de inseto cavalo-marinho seco, de estrela-do-mar, ou do "olho" que se vê na pena do pavão, de lesma torrada ou de rosa-amélia são, entre outras, soluções definitivas para os pobres asmentos.

Bicho-de-pé, admite Mário Souto Maior, "tem uma coisa gostosa, que é a coceira". Para evitar complicações, é preciso, porém, acabar com ele, e o jeito é encher a pequena cavidade do pé com sarro de cachimbo, rapé, cera de ouvido, raspa de tijolo vermelho ou cal de parede. A falta desses elementos, aconselha-se pingar no local creolina, sabão amarelo, azeite de coco ou vela derretida.

"Pra bico de papagaio/ou desvio da espinha,/o chá de jitó rasteiro/e cozimento de pinha/pra dar massagem nas costas/de noite e de manhãzinha". Para reumatismo: "Infusão de aguardente/com jiló puro em fatia/misturado na bacia,/seja frito ou seja quente,/com três dias bem passado/o reumatismo danado/toma rumo diferente". É só não confundir o amargo jiló com um ramo de jitó ou ataúba.

A medicina popular apresenta cura para a maioria das doenças, inclusive para as malignas. É tiro e queda contra o câncer o leite milagroso de janaúba: uma colher de sopa três vezes ao dia, durante quatro anos. E, conforme o diagnóstico, o tratamento de sete semanas com leite-de-avelós raramente fracassa.

Cuida também o manual dos problemas decorrentes da caspa, dos calos, do soluço, dos chiliques ou faniquitos, da cãibra, do chulé e da sovaqueira. Contra esta, é ótimo esfregar diariamente as axilas com limão ou cinza de fogão; contra aquele, o melhor é colocar rodelas de tomate quente entre os dedos dos pés, ou lavá-los com mijo de criança.

Querem ficar livres das rugas sem necessidade de recorrer ao Dr. Pitanguy? Basta passar com paciência no rosto, cada 15 minutos uma papa de mel, aveia e suco de limão, retirando-a com sabão e água esperta, ou seja, morna.

Os homens encontrarão, entre as receitas importantes, a melhor maneira de evitar a queda de cabelo e combater a impotência sexual, esta conhecida no glossário da região, por nomes impagáveis e expressivos. Posso apenas adiantar que chá de caroço de abacate, de gergelim, gengibre, catuaba e capim barba-de-bode, geléia de mocotó de boi, suco de caju e cenoura, guaraná em pó e outras preciosidades têm realizado prodígios nesse setor.

Aconselho os que sofrem de urina-doce ou diabete, fígado inchado, vento ou flatulência, hepatite, cálculos renais, hiper ou hipo tensão, sinusite, tarquicardia, insônia ou sono perdido, hemorróidas, aluação ou perturbação mental, a confiarem nessa farmacopéia nordestina. Eu mesma ando com vontade de substituir as injeções periódicas que me maltratam por certas meizinhas serenadas que Souto Maior recomenda. Isto, é claro, se a Dra. Vera Suevo, minha jovem médica, preferida e sapientíssima, permitir.

ANDRADE, Maria Julieta Drummond de. Remédios que não falham nunca. O Globo, Rio de Janeiro, 6/9/1986

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Mauro Mota

Peço a atenção do leitor para este livrinho de Mário Souto Maior, Como Nasce um Cabra da Peste. Formato de bolso, pouco menos de cem páginas. Mas um encanto de leitura, pela fluidez do estilo, pela categoria folclórica, pela graça dos informes. A começar pelos autobiográficos. Para sustentar a mulher e os filhos (casou ainda estudante quando andou, aqui às voltas com Lêdo Ivo, Breno Accioly, Nestor de Holanda e Pelópidas Soares, colaborando nos suplementos literários e em Fronteiras, de Manuel Lubambo). Mário teve de juntar-se às atividades mais diversas (ser agente estatístico, vender apólices de seguro e cestas de Natal, criar galinhas e ensinar em colégios) até ser promotor de Bom Jardim e Orobó, terra onde peru dava coice, candeeiro dava choque e poeira fazia curva.

Por isso, apresenta-se depois de um tempão fora da literatura. E apresenta-se em páginas muito vivas de humor. Contando que o avô Prisciliano, aos 97 anos, ainda fez muita proeza, o que me parece um exagero; que foi, na infância, ladrão de goiabas e de cajus e fã de Antônio Silvino e Lampião; que, com sua mulher, Carmen, filha de um inimigo político do pai, teve um namoro tipo jacaré, à distância; às escondidas, nas missas de Domingo, nas novenas de maio, no circo, no cinema mudo de Antônio Lulu. Uma porção de coisas assim.

Quanto à matéria mesma de sua pesquisa, tão valorizada pelo conhecimento direto, pela coleta dos casos no próprio local e nas horas das ocorrências deles, compõe uma boa contribuição ao conhecimento social da explosão demográfica – para usar o lugar comum dos oradores – no interior de Pernambuco. Já a dedicatória – A Dona Tutu, Sinhá Aninha e Sinhá Mariquinha de Bom-bom, velhas parteiras nordestinas – antecipa o que vamos ler. A ação delas e de suas companheiras de curiosidades em relação ao estado das futuras mães desde o início da gravidez ao nascimento do mimoso pimpolho ou do interessante petiz, como noticiavam os jornais antigamente. Nesse período de nove meses, toda uma série de sintomas, de crendices, de tabus. A mulher enjoa, sente no marido catinga de curral, de cavalo, de bosta de boi. Remédio: Cheirar uma ceroula usada por ele. Identifica-se o sexo da criança, inclusive pelos movimentos desta na barriga da mãe: se remexe muito é macho, a quietude quer dizer fêmea, o que nem sempre é verdade. Há a escolha das cores do enxoval, azul para os homens, cor-de-rosa para as mulheres, a alfazema, o cachimbo, o resguardo da parturiente, os quinze dias de cama e canja.

A tesoura, que se usou para cortar o umbigo, deverá ser guardada debaixo da cama. E ninguém deve mexer até que a parturiente se levante e o quarto seja varrido.

Tudo isso é tratado por Mário Souto Maior tão bem que se pode tirar uma conclusão do intervalo dele em escrever: ele estava era tomando fôlego para cantar de galo como está fazendo agora numa face de tanto interesse de nossa cultura popular.

MOTA, Mauro. Como nasce um cabra da peste. Diario de Pernambuco,Recife, 16/9/1969

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Michel Simon

Cher Monsieur

Les quatre livres que vous m’avez adress me touchent, tous quatre, singulièrement.

Je suis très attaché à Recife, et tout ce qui conserne son ethnographie et celle de la region m’interesse.

Tout cela est très etudié, aussi bien le livre sur le pain, que celui sur la cachaça, après le livre de Câmara Cascudo que celui sur les Cabras da peste, que celui sur le Cangaceiro Silvino.

Les poèmes populaires , les glossaires me seront très précieux.

Merci d’éclairer son lanterne sur des points encore obscurs de la vie de Recife et de son sertão.

Pour vous, toute mon admiration et toute reconnaissence.

Votre

MICHEL SIMON

SIMON, Michel. Carta: Paris, França, 29/1/1972

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Mirta Bialogorski

En Os Mistérios do faz-mal, Mário Souto Maior nos hace penetrar em el pensamiento mágico de la gente del Nordeste brasileño. Y lo hace a través de una investigación que se centra em los tabúes o prohibiciones e las que el autor, desde una óptica folklórica, propone denominar como el "faz-mal" ("hace mal") y que sitúa em el dominio de la sabiduría popular. Presenta así, un conjunto de normas restrictivas asociadas a la alimentación, las actividades sociales y los hábitos personales de los nordestinos. De este modo, vemos cómo en torno a la mujer, la infancia, el sexo, las comidas se imponen diversas y múltiples reglas que intentan controlar la suerte de los individuos evitándoles todo daño.

Claro, rico em ejemplificaciones y comentarios, este estudio nos permite acercarnos a un universo de creencias y supersticiones en el cual muchas veces, no podemos dejar de reconocernos.

BIALOGORSKI, Mirta. Os mistérios do faz-mal. Revista de Investigaciones Folclóricas. Buenos Aires (Argentina), v. 13, diciembre, 1998

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Nélson Barbalho

Tem o cão de concentrado, nutritivo e gostoso o derradeiro filho espiritual desse afuleimado sócio/amigo/admirador do pé-de-pato que é o Sr. Visconde de Bom Jardim, vulgo Mário Souto Maior, senhor absoluto de diabólico terreiro plantado na velha Marim dos Tabajaras, Olinda, Pernambuco, cujos baticuns ressoam por todos os ângulos e quinas do mundo, com sonantes reflexos até mesmo no inferno da pedra, onde o diabo perdeu a bota.

Chama-se Território da danação e cuida do Fute na cultura popular do Nordeste do Brasil, descendo fundo na pátria histórica, com relembrança do missivista Caminha das diabas índias muy fremozas e recordações da primeira missa nudista levada a bom termo nas Américas, com frei Henrique de Coimbra pregando a palavra de Deus e os mais descobridores cabralinos pregando pidões olhos naquela fartura de humanas carnes quentes e bem distribuídas ao sabor da mãe natura, carnalidade que constituía o Diabo em forma de gente a tentar até íceberg, quanto mais lusos bigodudos de libidinagem à flor da pele.

Da luxúria ibérica no semivirgem paraíso brasílico parte o quase exorcista pernambucano para ensinar que "a presença do Diabo no Nordeste só foi oficialmente reconhecida nos fins do século XVI", quando através do Documentário da Visitação do Santo Ofício, verifica-se que, já naqueles idos, o sexo era o diabo na terra do sol e ao faltar mulher - parceira com quem se pretendia matar o sujo de acocho - , muito homem, tentado pelo Capenga e caindo em fraqueza, cometia o pecado nefando, esporte algo violento, porém, mui exercitado pelos andróginos de toda a terra, numa inglória batalha sem fim e sem perigo de criar diabinhos, segundo os hermeneutas.

Profundo conhecedor dos caldeirões de fogo eterno, Souto Maior revela satânicos livros de forte influência místico-folclórica nos ermos nordestinos, tais como o Lunário Perpétuo, o Ofício menor da Santíssima Virgem e a Missão abreviada de tão perigosa tentação que "levou à loucura muitas mulheres" e era o livro de cabeceira do homem de Canudos, o Santo Antônio Conselheiro, sem a inspiração do qual não teria ocorrido ao grande Euclides da Cunha imortalizar-se através de Os Sertões. Não esquece também o Antigo e verdadeiro livro gigante de São Cipriano, "dividido em dez partes, extraído do Flor sanctorum, por Aderito Perdigão Vizeu, a única obra que contém a famosa Oração da cabra preta, prático tratado que, com a demão do Droga, reza, biografa e doutrina, podendo inclusive livrar o suplicante adepto das manifestações do Bode-Preto da praga dos ratos e pulgas, do mau olhado, do vício do corpo, da paixão incontida por mulher de amigo, de desastres na Central do Brasil, de engarrafamento no trânsito carioca, da peste, da fome, da guerra, do diabo a quatro.

Escritor eminentemente popular, o Sr. Visconde não esquece ainda folhetos de feira em torno do Coisa Ruim e, dando esplêndida lição de bucolismo nas plagas nordestinas, onde "ninguém faz as coisas correndo", pois a pressa é inimiga da perfeição, e entrando para valer na seara da literatura de cordel, rememora o episódio d’A mulher que enganou o diabo, pitoresco entrevero lítero-jocoso em que o folhetinista Leite, citando mentiras de Trancoso, começa versejando com a fanhosidade de praxe:

"Vou descrever um trancoso
que vem do meu bisavô
e ele contou um dia
ao velho meu avô
meu avô contou ao meu pai
depois meu pai me contou."

A estória é sustançuda, vem quase toda transcrita no Território, contém séria advertência aos homens escravizados pelos rabos de saia e, com muitos pontos nos contos, finda com o poeta de cordel prudentemente aconselhado aos incautos:

"Já expliquei ao povo
como é que a mulher faz
o seu dom de atraiçoar
sei que não se acaba mais
tanto que ela enganou
até mesmo a Satanás."

O mais notável nos trabalhos etnológicos do engenhoso autor do Dicionário do palavrão é que são sérios e jamais cansativos, são multidiversificados e nada prolixos, pois o poder da síntese de Mário Souto Maior torna-o um dos mais atraentes e felizes manipuladores da língua portuguesa na atualidade e, com o seu estilo leve e corrido, sua simplicidade sem simplorismos, sua graça folclórica de curiosidade sempre renovada. No capítulo analítico dedicado ao Diabo no linguajar nordestino vale a pena a leitura de seu estudo, sucinto, mas preciso, sobre o romance Fogo Morto, de Lins do Rego, e a excelente contribuição ofertada aos dicionaristas nacionais com uma série de apelativos do mequetrefe de se beijar e guardar no baú das doces recordações deste Brasil de surpresas mil, algumas desgraçadamente desagradáveis, outras porém maravilhosas, como o precioso livro Território da danação - O diabo na cultura popular do Nordeste, de Mário Souto Maior, o indigitado Visconde de Bom Jardim, um escritor como poucos.

BARBALHO, Nelson. Presença do Diabo no Nordeste. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 01/1976.

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Nélson Saldanha

Outro lançamento recente, e também de interesse nordestino, é o pequenino livro de Mário Souto Maior, COMO NASCE UM CABRA DA PESTE. Pequenino mas exemplar em seu gênero, e encantador pelo conteúdo. Despretensioso, desde a autobiografia que o abre, sua despretensiosidade (não sei se aparente) se compensa com uma naturalidade de estilo verdadeiramente cativante. Seria como que uma notícia, depoimento ou reportagem abstrata, contando o nascimento das crianças no interior nordestino e fixando as crendices e os costumes mais representativos, ou mais curiosos. Fundado aquí e ali em informações dos melhores folcloristas, Mário Souto Maior, todavia, transmite essencialmente sua vivência pessoal de conhecedor do hinterland, sua contribuição pessoal. E até nos transmite seu sentimento de profunda simpatia pela gente sofredora, do sertão, cujo misticismo, tornado credulidade, é a contrapartida da mais total carência de meios, e, às vezes, de dramática miséria.

SALDANHA, NELSON. O padre Carapuceiro, o cabra da peste e outras coisas. Diario de Pernambuco, Recife, 23 / 11 / 1969

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