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José Maria Tenório Rocha

"Eita livro bom da peste!" Foi a expressão que saiu da minha cabeça ao ler seu As Dobras do Tempo. Você é sempre você: escritor puro, lívido, descontraído; eminente, brasileiro, de uma indevinidade que assombra, ao ponto de desejar ver multiplicada na cabeça, em milhões, nesse tempo em que gostar de cultura - cultivar - é sinônimo de mau gosto. Bom é admirar a terminologia de ponta, brinquedinho que nem se conhece seus efeitos. Nenhum computador, por mais avançado, substitui a genialidade do escritor que, com um lápis, um simples lápis, consegue produzir a evolução do conhecimento.

Que bom você ver como é, que bom poder dizer ser seu amigo, que bom saber que cada livro que chega, chega também a esperança.

Abraço de

José Maria Tenório Rocha
ROCHA, José Maria Tenório. Carta: Maceió, 6/5/1994

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José Mário de Andrade

Penosamente organizado durante cinco anos de pesquisa em 55 fontes diversas e numa respeitosa coleção de setecentas garrafas de aguardente, o Dicionário Folclórico da Cachaça certamente superou os modestos propósitos de seu autor – que apenas pretendia provar a influência da bebida no linguajar brasileiro. Assim, o folclorista Mário Souto Maior, criterioso dissertador de temas inusitados mas igualmente cotidianos – como roletes de cana, pirulitos, nomes próprios incomuns, histórias de sogras e palavrões - , pode orgulhar-se de ter dado uma contribuição não apenas ao folclore mas ao estudo da própria alma nordestina.

Até a publicação de seu trabalho, eram raros, na bibliografia brasileira os estudos sobre um assunto tão familiar à vasta maioria dos habitantes do país. O dicionário não esgota o tema, mas, com suas pormenorizadas explicações sobre a psicologia de cada vocábulo, a área geográfica em que é utilizado e os critérios para seus empregos, de acordo com o estado de espírito, pelo menos oferece subsídio para uma interpretação sócio-lingüística e até de comportamento social. E ainda contém elementos que enfocam o alcoolismo como fator de ajustamento ou desajustamento, e a cachaça como instrumento de fuga ou lazer.

Mezinhas e receitas – No livro aprende-se, entre outras coisas, que, dentro da rica sinonímia criada para a aguardente, há um termo preciso para cada tipo de bebedor. E um nome específico para a bebida que varia de acordo com a hora (quebra-jejum, café-branco, abrideira) e com sua finalidade, medicinal (penicilina, elixir), religiosa (homenagem de santo, iaiá me sacode) ou de entretenimento. O vocábulo será diferente de acordo com a maneira de encará-la: com carinho (lindinha, aninha, dindinha), com temor (alicate, água-de-briga, desmancha-samba) ou com o fatalismo de quem a vê como meu consolo ou obrigação de pobre.

Embora avance, muitas vezes, pelo intrincado cipoal do anedotário popular, Souto Maior, porém, não deixa de se preocupar com a profundidade de sua pesquisa. E conta, por exemplo, que talagada, ou trago, é originário de taleiga, velha medida portuguesa de cereais e líquidos. De certa forma, não se pode dizer que o dicionário seja a última palavra em relação à água-que-passarinho-não-bebe. O próprio Souto Maior já tinha escrito, em 1968, o artigo A Medicina Empírica e a Cachaça (separata da Revista de Etnografia, do Porto), onde, com surpreendente gama de mezinhas e receitas conseguia justificar, abundantemente, por que o sertanejo chama a aguardente de água-benta, boa-pra-tudo, cem virtudes, fecha-corpo ou forra-peito.

ANDRADE, José Mário de. A água benta. Revista Veja, São Paulo, 14/11/1973

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José Nivaldo

Viajei sem medo, Recife – Londres com uma oração na saída, outra na chegada. Deus no pensamento, mas, não nego, o diabo solto, ao meu redor; o coisa ruim nordestino, e como tal, raquítico, olhos de brasa, fumaça e fogo nas ventas, espeto na mão, zambeta, o tinhoso.

Voei lendo o Território da Danação desse notável estudioso Mário Souto Maior.

Aquele diabo que chegou ao Brasil na fome sensual dos navegantes e caprichou na tentação oferecendo tantas índias tostadas de sol tropical à concupiscência do português, nordestinou-se, tomando cachaça, comendo pimenta, cheirando rapé, fumando cachimbo de barro, escurecendo a pele na mistura dos sangues, tomando jeitos de senvergonhice, tirando a comida da boca do povo, botando vermes e micróbios no seu corpo para, enfraquecendo as vontades, pintar o sete, forçando o roubo, a mentira, a estradeirice, esse capeta cínico, abrasileirado nos modos de ser safado.

Assim me parece que o diabo aqui chegado com modos europeus, só tentando pela luxúria, acanalhou-se, dando para ser mentiroso, traficante, malandro, gatuno, falsificador, vingativo, explorador, dependendo da condição cultural e econômico-social

do suplicante onde ele resolvia encostar-se.

Aliás, encostar-se, não é bem o termo porque, na verdade, ele, o nojento, preferiu nesses brasis, ser mais um inimigo a atacar por dentro, tentando pela fome, pelas doenças, pela incerteza, pelo desespero.

Parece ter sido assim que o Capiroto tentou os nordestinos para certos pecados de estradeirice muito mais fazendo o seu sangue ficar ralo pela espoliação de verminoses e carências nutritivas do que se aconchegando à sua pele para exigir sexo ou apreciar formas. Tem inteira razão Mário Souto Maior quando chama a atenção para a maior freqüência com que os homens desabafam suas agruras usando o nome do diabo (o diabo te suverta, o diabo te leve) enquanto as mulheres nordestinas, usando mais uma linguagem de apelo, apegam-se a Nossa Senhora. Diríamos que não só à Virgem Mãe, também a Nosso Senhor e a santos como São Sebastião, São Judas Tadeu, Santa Luzia (Valha-me Santo Deus, socorrei-me São Sebastião, acudi-me São Judas Tadeu, alumiai-me Santa Luzia). O diabo apareceu também, freqüentemente nesse Nordeste, povoando a imaginação popular ora sob a forma de vingador ora sob a forma de fazedor de estripulias (o Fute).

No meu romance Amor, Fuxico e Emancipação faço referência à presença do diabo nos arrancamentos de botijas, tentando de várias maneiras ou ameaçando de formas variadas num esforço para evitar que o ato se consumasse liberando para o Céu a alma penante.

Mal Zeca começou o serviço, satanás se soltou, dando berros como pai de chiqueiro, miando, parecendo gato no cio. Quando foi retirada a fortuna, o diabo, vendo que ia perder a alma, danou-lhe um tijolo nas costas.

Freqüente também nessas terras nordestinas o arrenegado manifestar-se em estripulias, ora metido nos redemoinhos, arrancando árvores e descobrindo casas, ora aparecendo sob a forma de animais, cujo comportamento foge ao normal.

Foi o que procuramos, igualmente, fixar, no mesmo livro, quando Chico Onça contou a história do vaqueiro sertanejo que resolveu pegar um boi desafiador da bravura de muitos vaqueiros. E o fez montado em um bode preto, de olhos agateados, aparecido na fazenda sem marca na orelha, sem sinal de Ribeira.

Montou sem sela, sem freio, só com as esporas nos pés e se meteu na garrancheira. No pátio deixara o povo com o fogo feito para o churrasco.

Depois de muitas peripécias. A tropelia desceu como um pedaço do céu embolando no chão. No desembestado o boi pulou a casa. O bode atrás nem tocou na cumieira. Olharam para ver a queda no outro oitão. Não viram coisa nenhuma. Passou um vento forte, apagou a fogueira, destelhou um pedaço da casa. Sentiram um cheiro de enxofre queimado. E Almirante, o intelectual de Cedro onde Chico contava a vida sertaneja, sentenciou: É, seu Chico, tudo indica que o diabo andou metido nessa confusão.

É esse o Nordeste que não devemos esquecer. Dos seus cangaceiros, dos seus nomes estapafúrdios, das suas crendices, das suas superstições, dos seus cultos, das suas rezas, dos diabos populares.

Nordeste impregnado no sangue e na inteligência de Mário Souto Maior.

Tem pesquisado tanto, recolhido tantos aspectos folclóricos, anotado tantos costumes, pensamentos e palavras do nosso povo que, desconfio, esse sonso de modos tão mansos, de palavra tão compassada, vive, permanentemente, com o diabo no couro, catucando-lhe a curiosidade, despertando o gosto pela pesquisa. Ferrabrás com cara de anjo. Credo em cruz!

NIVALDO, José. Território da Danação.
Jornal do Commercio, Recife, 7/11/1975.

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José Olympio da Rocha

Abro o Dicionário do Palavrão, de Mário Souto Maior, perdido na minha estante e começo a desfrutar de um prazer inigualável. A começar pelo prefácio do mestre e saudosíssimo Gilberto Freyre que chama atenção para o imenso valor do livro, uma pesquisa das mais valiosas para a cultura popular brasileira. Ao mesmo tempo que vou me deliciando com os verbetes que são como pedras de um quebra-cabeças para reconstituir a sagacidade do povo e seus costumes nas regiões Norte, Nordeste e Sul, vejo também que Pernambuco, com a Fundação Joaquim Nabuco que financiou o folclorista Mário Souto Maior para a realização de seu livro só merece, ao longo do tempo, os maiores elogios porque sabe cultivar os costumes autênticos, valorizar a sua cultura regional. Algo que não encontramos mais na Bahia, hoje tão desvirtuada pelos estrangeirismos. Conseguimos jogar fora, em tão pouco tempo, o que tínhamos de autêntico. Mais do que nunca estamos colonizados pelo pior. Ultimamente o que se vê por nossas bandas é de causar arrepios a qualquer pessoa medianamente inteligente e culta. Não se pode ficar calado quando se vê o trio-elétrico carnavalesco intrometer-se em qualquer tipo de manifestação popular. Não tenho dúvidas que o trio elétrico estará presente em qualquer festa junina da capital. E quem sabe, do interior? O pior é o reggae, fricote, funk, etc. Há muito não se vê nas festas carnavalescas a graça e a agilidade do inventivo pandeiro. Pode-se argumentar que o pandeiro é também importado, instrumento das danças flamengas, ciganas. Ora, a Bahia aboliu de uma vez por todas o samba do seu carnaval. Mas não é só isso. Regrediu em termos de cidade. Nos alegres anos 50 e 60 os cabarés e dancings agitavam a noite baiana. Onde estão os dançarinos da gafieira? Não têm mais onde se divertir. De outro lado não é possível sequer estabelecer termos de comparação entre Pernambuco e Bahia, quando se fala em preservação de costumes. Em primeiro lugar invejamos uma instituição como a Fundação Joaquim Nabuco que tem um programa editorial dos mais sérios. Onde estão os inventários da nossa arquitetura colonial, de nossa culinária, das nossas festas típicas que há muito deixaram de ser típicas para mesclar-se com estrangeirismos, graças à ignorância de seus organizadores. Antônio Monteiro está aí. Amou sempre a sua Lavagem do Bonfim , numa época em que esta festa era um festival de autenticidade, de ingenuidade com seus aguadeiros e burrinhos enfeitados com papel de seda. Hoje, o que é a Lavagem do Bonfim? Uma oportunidade para propaganda política partidária, um trailer do carnaval baiano com a presença de dezenas de trios elétricos. Que livros existem sobre a cozinha baiana? Apenas aquele que foi escrito por um capixaba que amou também a Bahia na década de 40, o jornalista Darwin Brandão, de saudosa memória. Os exemplos são muitos e os mais tristes. O turista não vê por aqui nenhum livro que fale da origem das nossas festas populares. O único já escrito foi feito por uma pernambucano naturalizado baiano, o jornalista Odorico Tavares. Seu livro, Imagens da Terra e do Povo está esquecido na sua primeira e única edição. Os espetáculos folclóricos são apenas caricaturas de shows arranjados para turistas e se caracterizam por uma triste inautenticidade. Onde estão as academias de capoeira de outrora, como a de mestre Pastinha que tornava as monótonas tardes de domingo num festival de balé? Se não temos por aqui um Ariano Suassuna, nem uma Fundação Joaquim Nabuco, precisamos nos agarrar a uma imagem de força popular que ainda nos resta. Sem agressividade e sem precisar de falsificar o autêntico ou imitar a música estrangeira.

ROCHA, José Olympio da. A imagem distorcida.
Tribuna da Bahia, Salvador, 29/6/1989

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José Sesinando

Continuando a socorrer-me de bons dicionaristas - neste caso, Mário Souto Maior. Dicionário do Palavrão e Termos Afins, com contracapa de Jorge Amado e prefácio de Gilberto Freyre, direi que o palavrão << é a palavra, no aumentativo, o que lhe empresta a interdição>> Jorge Amado entende que o palavrão <<é uma palavra igual a todas as demais que por uma circunstância qualquer tornou-se maldita>>. Ferro-frio e ferro-velho podem ser, mas nem sempre são, sinônimos. Ficar de bode e ficar de boi são a mesma coisa. Filho de guarda-noturno e filho de uma quinhenta têm o mesmo significado, para nós desagradável, de filho de uma portuguesa. Galinha-assada e galinha-morta não significam o mesmo que galinha pondo-no-mato. A garagem, como palavrão, embora larga, não consegue albergar um automóvel. A gata-parida não tem nada a ver com a gata. Ora bolas já não é considerado palavrão, embora em inglês as ditas ainda o sejam. Mão-de-vaca não é, salvo seja, comestível. O vai-e-vem, no Nordeste brasileiro, não tem nada a ver com a NASA, embora as tripulações masculinas o tenham. Valorizar um espadim não se relaciona com a esgrima . Veado e veado-galheiro são pessoas diferentes, embora uma só possa acumular os dois termos. Ver a cigarra cantar pode não ser campestre. Porrada, como palavrão, não significa pancadaria, mas sim uma grande quantidade (em Portugal também se usa como tal). Pombinha, logicamente, é uma pomba pequena. O porta-bagagem não está no automóvel, embora se possa sentar num dos bancos. Namoro de jacaré raramente chega a namoro-roxo. Uma latrina pode não estar no número cem, embora neste endereço se encontre com certeza. O-que-Luzia-ganhou-na-capoeira faz com que o-que-Luzia-perdeu-na capoeira. Matutar implica, em qualquer caso, uma certa concentração, tal como Maria-cinco-dedos. Macacar é o mesmo que macaquear. Joaquim-madrugada é indispensável para jogar com duas bolas ou jogar pra cima. Gaiola-de-cinco-arames é o mesmo que gaiola-de-cinco-ponteiros e, surpreendentemente, gaiola-sem-ponteiros. O que está envernizando pode não ter verniz nenhum. Coluna-do-meio provém, obviamente, do totobola. Quem está desempregado coça o saco. Chico e chica são a mesma coisa, se bem que, independentemente do fato de serem dois géneros, se aplicarem só ao sexo feminino. A casca-de-limão está incluída no castelo do amor e na caixinha de segredos. Quem toma chá pode não ter bule. No Nordeste do Brasil, os brincos não estão nas orelhas. Bolinar não é um termo naútico: prática-se nos cinemas ou em lugares pouco frequentados. E terminamos citando Gilberto Freyre: <<No momento exato, sim, o palavrão é necessário. É insubstituível>>. A minha última palavra, assim não sendo palavrão, é um rasgado elogio dessa palavra mais usada pelo homem, o jovem e o pobre que pela mulher, o velho e o rico. Conquanto alguns elementos do jet set considerem elegante usar alguns palavrões. Mas isso é uma questão de esnobismo.

Elogio do Palavrão, Jornal de Letras, Lisboa, 24/9/1991

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Juracy Andrade

Os dois livros de Mário Souto Maior recentemente lançados pela Editora Universitária da UFPE têm um sabor que só provando para sentir. Daí a necessidade da transcrição inicial. Não adianta descrever o caju. É preciso comê-lo.

Sem se afastar do rigor científico que toda pesquisa deve ter, o autor do Dicionário Folclórico da Cachaça, do Dicionário do Palavrão e de tantas outras obras de renome, inclusive internacional, sabe dar vida, cores, odores e sabores ao que escreve. Ninguém como ele para tratar de temas do nosso folclore. E é o que se fala nos seus últimos lançamentos – Painel Folclórico do Nordeste e Galalaus & Batorés.

O autor é eminentemente um contador de histórias. E aqui aproveito para discordar da grafia estória que ele adota. Em português, só existe a palavra história, tanto para a descrição e estudo de fatos e acontecimentos, como para a ficção, contos, história fiada, etc. Estória é invenção recente e inútil, pois não acrescenta nada à língua.

No capítulo do Painel sobre contadores de histórias, ele explica a origem da expressão história de Trancoso, tão familiar a quem viveu sua infância, sobretudo no interior, antes da era da TV e antes que o rolo compressor da cultura colonialista (seja estrangeira, seja do eixo Rio - São Paulo) começasse a matar tudo o que há de original, nativo, popular nas outras regiões do Brasil.

Trancoso, informa o autor, viveu no século XVI em Portugal, tendo nascido na cidade que lhe deu o nome. Foi professor e escrivão. Escreveu Contos e histórias de Proveito e Exemplo. Suas histórias ficaram conhecidas na língua portuguesa e, como expressão popular, significam coisas irreais, que nunca aconteceram ou nunca poderão acontecer.

Quem nasceu antes do rolo compressor se lembra com nostalgia das histórias de Trancoso, contadas sobretudo pelas velhas agregadas da família (as empregadas de então) mas também pelas tias e avós. Eram as grandes atrações juntamente com a programação regional (e não imposta de fora) de rádio os discos da RCA-Victor (a do cachorro gravando) e o noticiário em português da BBC de Londres, sem censura (naquele tempo já se usava ditadura).

E havia histórias de meter medo como as da Cabra Cabriola e de Tatu Marambai, que tiravam o sono da gente nas noites escuras e frias de inverno.

"Entrou por uma perna de pinto; saiu por uma perna de pato. Senhor Rei mandou dizer que me contasse quatro". Assim se concluíam as histórias, e uma outra contadora tomava a palavra.

Em outros capítulos da obra, o autor trata de santeiros e imaginários, linguagem popular das cores, medicina empírica, cozinha nordestina, promessas, literatura popular, negro e folclore, ciclos folclóricos; e termina com um vocabulário de folk-linguagem sobre pau.

Galalau & Batorés é, basicamente, um vocabulário de designações populares dadas às pessoas muito altas ou muito baixas, fora do padrão normal nordestino.

Para os grandes ou galalaus, o autor registra designações saborosas como pai d’égua, apaideguado, bacalhau-na-vara, baita, bambu-vestido, belisca-a-lua, brucutu, espanador-de-circo, espantalho, espigão, garrafa, golias, mapa-do-Chile, mastro-de-bandeira, tira-coco-sem-vara, king size, dentre outras.

Os pequenos são amostra-grátis, alma-de-gato, baé, café-pequeno, bujão-de-gás, catolé, coqueiro-anão, dedo-mindinho, guaraná-caçula, meia-porção, nanico, salário-mínimo, tostão; e há outras designações mais escabrosas.

Antes do vocabulário, o autor faz uma introdução explicando as origens e repercussões folclóricas da briga entre galalaus, batorés e gente de estatura normal. Cita, entre outros, este dito dos grandes em relação aos baixinhos: "Tão baixo que na farmácia, ao comprar um Sonrisal, o balconista pergunta: - Quer que embrulhe ou vai mesmo rodando?"

Dá notícia de um Clube dos Baixinhos que existe em Campinas, São Paulo, em cuja sede uma inscrição adverte: "Mulheres, homem nenhum presta! Dos males, o menor! Então, prefiram os baixinhos!"

Quando o general De Gaulle visitou o Brasil, como presidente da França, em 1964, recebeu do Clube o seguinte telegrama: "Saudamos em vossência a França eterna, berço dos direitos do homem e da democracia autêntica, porém protestamos presença física inflacionária vossência". (O herói da Resistência francesa contra os nazistas tinha mais de dois metros de altura.)

Um cajueiro de bons livros. Jornal do Commercio, Recife, 5/09/1981

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Laura Della Monica

A 14 de julho de mil, novecentos e tanto, na cidade de Bom Jardim, em Pernambuco, nasceu Um Cabra da Peste. Nasceu pequenino, é claro. O tempo foi passando, passando, todos a olhar e a ralhar com o menino que gostava de caçar passarinhos, furtar goiabas e cajus. Fez o que muita criança daqui não teve oportunidade de fazer, nem depois de grande: tomou leite ao pé da vaca e comeu nambu assado. Depois, esse Cabra da Peste precisou ir à escola. Tarefa dura, mas necessária para aquela criança que preferia jogar castanha na calçada e brincar de Lampião. Um dia aconteceu o que estava escrito. Já crescido foi parar (de volta) em Bom Jardim ...e lá começou a ganhar quatrocentos mil réis como secretário da Prefeitura. E ganhou muito mais quando aprendeu a ser jacaré, namorando, a distância, a moça do seu sonho. Aí o tempo marcava 1940. Aquele vai-não-vai, chega-não-chega, deixa-não-deixa terminou em casamento. Linda festa, tristes dias depois. Esse cabra da peste perde o emprego. E agora? Logo depois, no entanto, foi nomeado promotor público de Surubim. E ele continua estudando ... a nova família não impedia o programa traçado.

Esse cabra que gostava de gente simples, humilde, esse Cabra da Peste que sentia as dores morais e materiais da gente, esquecia-se que nem só de sonho vive o homem, e as lides literárias passaram a ser enfeites na vitrina de sua alma. Fez tudo esse cabra; foi agente do Censo, vendeu seguro. Chegou a criar galinhas, lecionou em colégio de freiras ... foi até advogado dos presos pobres.

Estamos em 1964. O cabra da peste é agora inspetor federal de Ensino. Está morando na cidade grande. Aí, seu cabra da peste! Tudo agora ficou muito bonito para os olhos, para a sociedade, para os bolsos. Estava escrito: prefeito e promotor público de Orobó, professor da Escola Normal e do Ginásio de Bom Jardim, assessor-chefe do diretor executivo no Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, diretor do Boletim do mesmo Instituto.

Dos livros que publicou, Cachaça é uma contribuição ao estudo geral da cachaça. Estuda e diverte ao mesmo tempo, disse Veríssimo de Melo. Também é um depoimento histórico, social, sobre o complexo cultural da cana-de-açúcar no Nordeste, mostrando um outro prisma, a doçura da civilização da cana-de-açúcar, comenta Carlos Alberto Azevedo, do Jornal de Letras, em 1971. Henrique L. Alves, nosso companheiro da Associação Brasileira de Escritores, confirma ser Em torno de uma etnografia do pão obra pioneira no setor de etnografia do pão em nosso país, proporcionando um roteiro dinâmico para compreensão de vários fatos ligados ao pão, desde a superstição, linguagem, filosofia popular, enfim todo um painel retrospectivo do pão nosso de cada dia, ao se referir à Etnografia do Pão. E Paulo de Carvalho, da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos: Seu livro não é possível, mas sim autêntico. Comenta Manuel Correia de Andrade: Você está fazendo uma verdadeira revolução na etnografia do Nordeste.

Não se cansa esse cabra da peste. Sua imaginação é uma proliferação estonteante. Quando você pensa que o Cabra vai começar, já está além da meta. Numa correspondência ele nos diz: estou dando os retoques finais ao meu último livro que se chamará Território da Danação - o Diabo na cultura popular do Nordeste. E aí estão outras obras: A morte na boca do povo, Nomes próprios pouco comuns, Galalaus e Batorés, Antônio Silvino, O Ciclo. Como Nasce um Cabra da Peste, uma obra de grande contribuição folclórica em que nos fala dos violeiros cantadores, da vida sentida do nordestino mal compreendido, mas afinal aceito. Quando esse cabra da peste descobriu o Folclore, o mundo maravilhoso, recordou-se de todo o passado do tempo de menino. Esse cabra possui uma imaginação tão fértil que até criou a história de Deus quando fez o mundo em três pedaços. Deus criou muita coisa bonita além do céu, da terra, das nuvens-de-carneirinhos, seu cabra. Criou também o amor, a compreensão a amizade. Na sua estória não conta como Deus deixou nascer um cabra da peste que nem você, que mora em Olinda, cidade histórica de Pernambuco.

Depois de tudo só falta dar o nome desse cabra da peste. Trata-se do meu grande amigo: MÁRIO SOUTO MAIOR.

MONICA, Laura Della. Cabra da peste.
Cidade de Santos, Santos (SP), 16/7/1975

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Lêda Rivas

O etnólogo Mário Souto Maior não pertence a nenhuma corrente partidária e, ao que se sabe, nunca emprestou seu discurso aos palanques eleitorais. Mas, navegando em paralelo com o jargão preferido das esquerdas, há muito tempo defende que o povo - unido pelos seus valores culturais - jamais será vencido. "Não acredito que o mundo cibernético em que vivemos possa pulverizar as nossas expressões mais tradicionais", proclama, sacramentando a sua crença de que a tecnologia de ponta não conseguirá sepultar o folclore. Nem tirar das ruas o som, as cores e as vozes populares.

Autor da mais expressiva obra sobre o folclore regional, da atualidade, Souto Maior, 76 anos, reitera suas convicções, ao acrescentar a sua vasta bibliografia mais um título, que será lançado na próxima quinta-feira , dia 22, na Sala Gilberto Osório de Andrade, da Fundação Joaquim Nabuco, em Apipucos Os Mistérios do Faz-Mal (20-20 Comunicação e Editora, 103 págs. Recife, 1996), seu 42º livro, o estudioso inventaria tabus alimentares brasileiros, investigando suas origens e disseminação. E enquanto aguarda a quarta edição, pela Bagaço, de Nomes Próprios Pouco Comuns e a terceira de Como Nasce um Cabra da Peste, em livro e CD (numa parceria da 20-20 com a editora cearense O Curumim sem Nome), põe em andamento nova pesquisa: Qual é a sua Graça?, um dicionário dos nomes mais usados no Brasil e Portugal - e respectivos significados - com os quais os pais costumam batizar seus filhos.

RIVAS, Lêda. Pela voz do povo. Diario de Pernambuco, Recife, 18/8/1996.

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Leduar de Assis Rocha

Para saber quais são os numerosos apelativos das pessoas grandes ou pequenas em demasia, gigantes ou anãs, Mário Souto Maior, incansável trabalhador intelectual, está fazendo um amplo inquérito, para coleta de achegas a esta iniciativa, que virá, sem dúvida, enriquecer a valiosa contribuição, que tem dado, às letras brasileiras.

Não é fácil a gente alinhar, de memória, no papel, os inúmeros apelidos, dados a homens e mulheres, que se distinguem dos demais, pelas distorções da estatura.

Aos apelativos fixados por Mário Souto Maior – varapau, espanador-da-lua e galalau, pensei em ajuntar mais uns poucos que me vieram à lembrança: grampão, arranha-céu, montanha, coqueiro, girafa, lampião, gamelo, todos adaptados a indivíduos de altura fora de comum.

Também as criaturas de baixa estatura (os tampinhas, os batorés e os maxixes de Mário Souto Maior) pude adicionar mais estes curiosos apelidos – meia-garrafa, nanico, espirro de gente, tamborete, toco de amarrar jegue, projeto de gente e pigmeu, de uso corrente entre nós.

Muitas dessas pessoas, assim estigmatizadas por questões glandulares ou por implicações genéticas, não ligam para a circunstância. Outras, porém, carregam horríveis complexos, tornando-se amargas, por via da estatura e, muita vez, agressivas, mercê dos apelidos.

De qualquer forma, nem os grandes podem ser comprimidos, nem os pequenos espichados; do que deve resultar a filosófica aceitação do defeito, que afinal, de certo modo pode beneficiar o possuidor.

Realmente, é muito fraca a minha contribuição ao inquérito de Mário Souto Maior; mas, aí fiquem estes poucos apelativos como prova de boa vontade e da admiração que tem pelos excelentes trabalhos desse ilustre pesquisador, e mais modesto dos seus inúmeros e constantes leitores.

ROCHA, Leduar de Assis.Grandes & pequenos. Jornal do Commercio, Recife, 9/11/1974

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