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Jaime Griz

Mário Souto Maior, esse admirável lidador das letras nordestinas, folclorista de grandes méritos que se vem afirmando através de obras hoje de repercussão regional a nacional, apresenta-se agora com mais um de seus categorizados trabalhos de natureza folclóricas: Como Nasce um Cabra da Peste. É uma jóia gráfica da Arquimedes Edições de São Paulo, com capa da Joaquim Dutra Neto e desenhos no texto de Lourdinha Costa Azevedo.

Como começo de conversa traz uma apresentação autobiográfica do autor que diz bem de sua vivência e convivência nordestinas.

É livro que a gente pega e lê de um fôlego. Não porque seja pequeno, e sim gostoso. É do tipo pequeno por fora e grande por dentro, como se costuma dizer de coisas desse porte. É, na verdade, um invulgar e atraente informativo de coisas, costumes e gentes de uma das mais pitorescas e sofridas regiões do país: o Nordeste.

O tema central do livro do etnólogo Souto Maior, está no próprio título da obra: como nasce um cabra da peste ...

O livro se nos apresenta na sua modalidade de pesquisa e informação sem outra pretensão que não seja anotar e contar estórias relacionadas com a vivência humana num quadro ora pitoresco, ora dramático, de medicina popular, ou mais especificamente falando, do folclore da obstetrícia, como disse Orlando Parahym.

No livro desse pesquisador de que falo e tanto admiro como pessoa humana e intelectual, há todo um mundo de crendices, de meizinhas, de rezas e orações, de práticas tradicionais – rurais e até urbanas -, de comadres e pegadeiras de cabras da peste, beberagens, comidas próprias para as que estão prestes a descansar ou parir, e para as que já descansaram, na linguagem dos entendidos. E ainda para as que estão nas baratas, isto é, com dores de parto que não ata nem desata: soprar numa garrafa, vestir a camisa do marido pelo avesso, correr este em derredor da casa de morada. E tantas outras meizinhas e crendices com as quais se busca abreviar o descanso das que se encontrem nos transes ou apuros do parto.

Depois do parto, não comer a aliviada certas carnes, nem certas frutas de pico como sejam: abacaxi, coração da índia, graviola, etc.

Para a que estiver em dias de dar à luz, adotar certas práticas ou dietas, como tomar canja de galinha arrepiada ou pelelê, para dilatar a bacia e o parto acontecer sem dor.

E a propósito de tal resguardo, aqui vai uma quadra popular:

Lá em casa tem galinha
Arrepiada, pelelê,
Pra muié comê da carne
E pari sem padecê.

Um parêntese: O caso lembra preceito médico que preconiza o uso do peixe de escama para certos enfêrmos. E como penas de galinha arrepiada lembram escamas, a dieta matuta parece estar a merecer uma análise não só como crendice ou magia mas também de caráter biológico.

Como se vê, o livro envolve crendice, magia, perfumes de alfazema, ternuras de mães nos enxovais, vexames de parto, alegrias e dores de nascimento, tudo enfim que antecede e sucede ao ato de nascer de um cabra da peste. E também o que não foi dito, por implícito, decorrente do drama de nascer: Lágrimas, choro, encomendação de anjo que morre sem batismo e que fica enterrado ao pé de um mourão de porteira gemedoura para a reza dos passantes ao bruxulear de velas acesas dentro das noites de bruxedos do Nordeste.

Assim é o pequeno grande livro de Mário Souto Maior, um dos mais vividos e autênticos valores do Nordeste, livro que tem muito o que se ver, sentir, amar e aprender, como mensagem nascida do mundo do saber de experiência feito, do povo.

GRIZ, Jaime. Como nasce um cabra da peste
Diario de Pernambuco, Recife, 15/2/1970

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João Alberto

Mário Souto Maior me manda seu livro Como Nasce um Cabra da Peste. Acabei lendo-o de um só fôlego, tão interessante que é. Contém mil estórias engraçadas, como essa que recolhi para vocês: Para saber o sexo do filho em gestação, a futura mãe leva ao fogo, para cozinhar, o coração de uma galinha, tendo antes o cuidado de abrir-lhe uma das extremidades. Se depois de cozido o coração se conservar aberto, a criança será do sexo feminino; se se fechar, não haverá mais dúvida, nascerá um menino.

ALBERTO, João. Livro. Diario de Pernambuco, 23/10/1969

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João Alfredo dos Anjos

Pernambucano de Bom Jardim, bacharel em Direito como tantos outros cientistas sociais de nossa terra, Mário Souto Maior descobriu seu talento com a ajuda de um poeta: Mauro Mota. Folclorista, etnógrafo e antropólogo, dos já clássicos entre nós, como escreveu Gilberto Freyre em recentíssima introdução a Nordeste, é Mário Souto Maior, em sua área de estudos, uma unanimidade nacional.

Com paciência beneditina no dizer de Waldemar Valente, sério e rigoroso no dizer de Jaci Bezerra, admirado por Jorge Amado e tido por Carlos Drummond de Andrade como um dos mais qualificados estudiosos da cultura nacional em seu aspecto de criação popular, deve-se acrescentar a estes adjetivos o de pesquisador invejavelmente criativo. Com os olhos de bom observador, Mário Souto Maior busca sempre aquilo que, caracterizando um povo, não é normalmente estudado – ou mesmo notado - por aqueles que vivem como que segregados em nossas incontáveis academias.

A comida e seu tempero; a bebida, tanto espirituosa, quanto medicinal; os ditos e anedotas; as crenças e superstições, que - muitas vezes fruto de tradições mais que seculares - são fontes de valor inestimável para quem busca reconstituir a nossa história íntima. E não estranhe o leitor menos avisado - aquele que espera apenas ditos chistosos e significados contemporâneos – o deparar-se com autores os mais fidedignos de nossa historiografia, tais como Pereira da Costa e Alfredo de Carvalho, além de um sem-número de relatos de viajantes de variadas épocas, entre as fontes utilizadas constantemente por Souto Maior.

O livro

Esta Geografia Vocabular do Pau tem em si dois importantes aspectos que a justificam: um, a análise das múltiplas significações assumidas nas diversas culturas - quer regionais, quer multinacionais - pelo vocábulo originado do latim palu e corrente no italiano palo (estaca) e no francês pal (idem), segundo Antenor Nascentes; outro, o caráter lusófono que o autor procurou imprimir à obra, com a juntada de ditos e acepções da ilha da Madeira, de Moçambique e de Portugal a ditos e acepções do Brasil, do Acre ao Rio Grande do Sul. Esta preocupação - a de unir e estudar a cultura luso-brasileira – é e, quando não, deveria ser a de todos os intelectuais lusófonos, tendo sido uma preocupação constante da Fundação Joaquim Nabuco, onde o autor vem trabalhando com afinco.

No afã de desvendar mais esta faceta do homem do Nordeste do Brasil, particularmente, nota-se a ênfase na análise dos ditos regionais – sem prejuízo do conjunto da obra – a partir daquele vezo ainda hoje corrente, conseqüência de séculos de colonização predadora, ou seja, a ignorância do homem em geral quanto aos nomes das árvores que o cercam. Nas palavras de Gilberto Freyre "a cana separou-se da mata até esse extremo de ignorância vergonhosa. Na mata, vê vagamente o pé de árvore e às vezes, quase desdenhosamente, o pé de pau", Nordeste, 1937. Tem-se assim, uma pequena prova do que o tema pode proporcionar no estudo das características regionais daqueles que falam o português nos diversos cantos do mundo.

Orelhas de Geografia vocabular do pau através da língua portuguesa
Recife: 20-20 Comunicação e Editora, 1994

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João Felício dos Santos

Mário, amigo do peito: Estou recebendo e agradecendo mais uma obra sua: Comes e Bebes do Nordeste. Homem , aonde vamos parar de produzir? Daqui a pouco você terá mais livros do que anos de idade...

Bom, é que eu gosto de tudo o que você escreve, bem como de todos os seus temas.

Muita boa a apresentação do Sebastião Vila Nova. O homem "vai lá" e esmiuça a coisa: "... E a importância dessas coisas (do dia-a-dia, como a culinária da gente) a gente só percebe quando delas somos privados ou quando ( eu diria: sobretudo) existe alguma ameaça nesse sentido." E você, como folclorista, muito bem sabe, que as ameaças a que se refere Sebastião só proliferam em torno de nós , cada dia mais. Nosso folclore é bem igual ao nosso índio: cada dia mais a gente se interessa por ele; cada dia mais gente grita que precisamos ter memória das nossas coisas e o mais. Bem assim, cada dia mais gente grita e pugna em prol dos coitados dos nossos índios, mas a verdade é que, índios ou folclore, cada dia também mais e mais vão perdendo seus contornos na neblina do tempo como na malícia dos homens... E se o folclore não morre de vez, o mesmo não acontecerá aos selvagens que, dentro de mais alguns anos, sumirão de todo, esmagados por essa civilização muito da filha da puta que é a que nós temos...

De qualquer maneira , seu Comes e Bebes, chegou na hora certa e que Deus lhe dê força e talento para novos cometimentos...

Didática também é a orelha por instrutiva e bem escrita .De quem é? Não estava assinada, mas precisava de estar.

Com um velho e bom abraço, aqui fica até a próxima.

O velho amigo.

JOÃO FELÍCIO DOS SANTOS
SANTOS, João Felício dos. Carta: Rio de Janeiro, 8/10/1984

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Joaquim Inojosa

Para o escritor Mário Souto Maior, no livro Dicionário Folclórico da Cachaça, "considerada como um mal social quando usada desbragadamente, a cachaça, o futebol e o jogo do bicho são as principais paixões do povo brasileiro". Trata da primeira, descrevendo-a nas origens e conseqüências, concluindo mesmo que é vício de rico e pobre, por que ambos nela encontram remédio para as suas dores de barriga... Assim, bebe o pobre porque trabalha nu da cintura para cima na agricultura (isto no Nordeste, é claro), porque a família passa dificuldades, quando sofre injustiça, " porque precisa enganar sua miséria e por mil e um motivos diferentes". Justificando-se o vício até pela dor-de-cotovelo...

- "É que a cachaça é como coceira: ambas só querem um começo".

E o rico, bebe por quê?

Não fossem tantos e eu transcreveria os ingênuos motivos, que servem para justificar o cachaceiro, nunca o rico normal, que este, se deseja beber vai ao uísque importado que é social é... saboroso.

O rico de Mário Souto Maior bebe porque é rico; "rico de dinheiro e de problemas enormes". Cita alguns desses "enormes" problemas, que o levam ao vício da cachaça: bebe porque o salário mínimo subiu, porque chegou o momento de pagar o imposto de renda, que é fogo; pela baixa de ações na Bolsa de Valores, porque em casa sempre se está querendo mais alguma coisa como, por exemplo, a troca de um fusca que a filha está exigindo, por uma belina; ou pela necessidade de um empréstimo para as empresas, e até mesmo porque a filha mais nova "está querendo casar com um rapaz que não tem nem onde cair morto". Na verdade, porém, trata-se – e o escritor peca por generalizar - de um rico viciado que até mesmo "bebe porque é gostoso ouvir o barulhinho dos cubos de gelo no copo já quase vazio".

Além destas, "por mil e uma outras razões" bebe o rico, igualmente pegado o mal da coceira.

Convenhamos que é arriscado a um historiador, mesmo da cachaça, generalização dessa natureza, tanto para o rico quanto para o pobre, quando o certo é que beber por muitos dos motivos citados serviria apenas para o vício da bebedeira.

Não repousa nesta crítica, porém, o valor do livro de Souto Maior, mas sim no dicionário que se segue à introdução, excelente repositório folclórico de tudo que se refira à cachaça, gênero em que é mestre na região nordestina, expresso ainda em Território da Danação - o diabo na cultura popular do Nordeste, A morte na boca do povo e Como nasce um cabra da peste.

Chega-nos a vez de Antônio Silvino Capitão de Trabuco, biografia de um bandido que não bebia, castigando, mesmo, os que do seu bando se embriagassem, pelos erros que pudessem cometer, dentro da sua filosofia de cangaceiro nobre...

É que Antônio Silvino não virou bandido por instinto, mas sim para vingar a morte do pai, cujos matadores não haviam encontrado castigo na justiça local. Vingança que iria desencadear uma luta de 14 anos, entre três Estados, em que as barbaridades somente explodiriam em vindita.

Quando Promotor Público na capital pernambucana, cheguei a visitar Antônio Silvino na sua cela, onde me apontou para a Bíblia, louvando-a como a sua grande companheira de solidão. Homem de fala mansa, sem arrogância, somente referindo-se às suas façanhas se a isto o provocássemos. Relembrei-lhe a visita que fizera à Vila de São Vicente, onde entrara e de onde saíra sem molestar quem quer que fosse, depois de um café matinal na casa de meu pai. Atravessara a rua principal pelo braço de Nestor de Moura, como garantia de que os "macacos" o não agrediriam. Pobres "macacos"! Talvez uns dois ou três gatos pingados da delegacia local, na hora encafuados transidos de medo!

É a biografia desse terror dos sertões que Mário Souto Maior nos oferece, com um prefácio de Luís da Câmara Cascudo, para quem "Antônio Silvino possuía amigos e não apenas coiteiros a soldo ou assombrados pela ameaça".

As pesquisas de Souto Maior sobre esse que se chamava Manuel Batista de Morais, que educou os filhos dele fazendo-os oficiais do Exército ou funcionários públicos, revelam que se ele espalhou o mal também difundiu o bem, o contrário do seu êmulo Lampião, que somente praticou o mal.

INOJOSA, Joaquim. Da cachaça a Antônio Silvino
Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 30/1/1976

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Jorge Amado

Sua carta de 4 de janeiro só agora chega às minhas mãos juntamente com a cópia dos originais de seu interessantíssimo "Dicionário Do Palavrão e Termos Afins" e o pedido de umas palavras de posfácio – eu estava fora de Salvador aproveitando uns dias de férias bem merecidas. A verdade é que, com o trabalho de sete meses de enfiada na redação de "Tereza Batista" ( recebeu o exemplar que autografei para você antes de sair e deixei com minha secretária para enviar, junto com os de outros amigos? ) e a trabalheira subsequente de revisão de provas, lançamento, etc, entrei numa estafa séria, precisando de férias totais. Estou vindo a Salvador apenas por três dias, já na sexta-feira sumirei de novo. Assim sendo, releve a demora desta resposta à sua carta e a brevidade do comentário. Aqui posto, a respeito do "Dicionário" com o qual me atraquei apenas chegado.

Obra de maior utilidade e da maior necessidade, para falar desse seu último e importante trabalho, o lugar comum se impõe: veio preencher a clássica lacuna. Lugar-comum, sem dúvida, mas verdade patente.

[Havia um trabalho a ser feito e você o fez, de forma pioneira, merece todos os louvores. Naturalmente tratando-se de obra pioneira, há ainda possibilidades de enriquecimento, nas edições sucessivas que o "Dicionário" certamente merecerá.] Penso sobretudo que maior número de citações de autores e obras literárias ( abons ) fariam a leitura dos verbetes ainda mais agradável. Você cita diversos autores – e sinto-me honrado por me encontrar entre os outros autores citados – mas, creio que ainda poderia citar muitos outros, apoiando cada verbete em um ou mais autores, e também em caso, histórias, acontecidos. Veja você, já estou falando em novas edições – porque a obra naturalmente as alcançará, interessando a um grande publico.

Você a realizou com prazer, logo a gente se dá conta, pois ela exibe a marca do trabalho feito com entusiasmo e paixão. Suas páginas nada possuem da solenidade dos dicionários habituais. Sendo obra séria, resultante de pesquisa e estudos dignos de todos os louvores, é ao mesmo tempo de leitura fácil e agradável. O assunto é tratado com dignidade e com graça. Meus parabéns.

Sou velho admirador de seu trabalho, velho leitor de seus livros: você é um desses trabalhadores intelectuais que realmente contribuem para nossa cultura. O "Dicionário" coloca-se entre as pesquisas mais sérias realizadas não só por você, mas por todos os estudiosos da linguagem do povo brasileiro. Com ele, você dá uma dimensão maior à sua obra já tão importante.

Um abraço cordial de,

Jorge Amado

PS- A cachaça BERRO D’AGUA e outras cachaças irão por portador, um desses dias.- Por favor acuse o recebimento desta carta.

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Jorge Baleeiro de Lacerda

Para a sorte de todos nós, cada região do Brasil tem, pelo menos, um grande nome ligado à cultura popular, ao folclore, à tradição do povo, como é o caso de Mário Souto Maior, em Pernambuco, que nos seus 70 anos de vida já produziu mais de 51 livros, um sem-número de artigos, conferências e dirige o Centro de Estudos Folclóricos (Fundação Joaquim Nabuco), no Recife.

Souto Maior nasceu em Bom Jardim (PE), às margens do Tracunhaém, a pouco mais de 80 quilômetros do Recife, como me lembro bem, quando por lá andei em 83, depois de ter visitado Limoeiro e Carpina.

Sabedor das coisas do Nordeste como poucos, vivenciado na cultura da região da Mata e do Litoral, não longe do mar e perto da divisa da Paraíba, na Serra dos Milagres, Souto Maior vem produzindo uma obra de singular importância para o atendimento do universo popular de Pernambuco, sobremodo, ainda que dedique parte de sua bibliografia ao Nordeste como um todo, caso de: Como nasce um cabra da peste, 1969; Dicionário folclórico da cachaça, 1973; Nordeste: inventiva popular, 1978; Comes e Bebes do Nordeste, 1984; Remédios populares do Nordeste, obras indispensáveis na estante do estudioso das coisas nordestinas.

Não faz muito, ainda que com pouca divulgação no Sul, Souto Maior publicou com Waldemar Valente uma Antologia pernambucana de folclore, idem Antologia da poesia popular de Pernambuco, também de parceria com W. Valente.

Advogado, formado em 1945 pela Faculdade de Direito de Alagoas, Souto Maior foi promotor público, passando por Surubim e João Alfredo. Teve experiência como prefeito de Orobó, em 1945, na região do Agreste. Em sua terra natal aprendeu com o povo a conhecer a cultura popular, como lembra em Casa de Bom Jardim, artigo publicado no Jornal do Commercio do Recife: "Ser conterrâneo é, também, qualidade dos que nasceram vendo a mesma paisagem, respirando o mesmo ar, comendo as mesmas frutas, participando da mesma vida, tendo a mesma infância ... Vamos encontrar nosso começo, as raízes, o nosso mundo municipal". Não pode mergulhar na vida de seu povo quem, preso ao mundo urbano, jamais soube o que é vida no interior, convívio com o povo da roça ou do sertão, com a gente simples que forma o universo da cultura popular (urbana e rural). Souto Maior, felizmente, teve múltiplas experiências e, em seus muitos livros, no-las transmite com sabor de guabiraba, de jatobá, às vezes de sapota ou de lima-de-umbigo, quando não de jaca-manteiga, só para lembrar frutas tão saborosas de Pernambuco. Mário tomou muito banho de açude e, como Manuel Bandeira (primo-irmão do meu saudoso mestre e amigo Raimundo Bandeira Vaughan) viu muita menina nuinha, nos banhos ingênuos dos velhos tempos. Subiu em pitombeiras, derrubou muita manga. Furou cercas e varou quintais para pegar goiabas e cajus, a que Alfredo de Carvalho dedicou bela página em seu Phrases e Palavras (Recife, 1906). Souto Maior cursou as mais diversas universidades da Mata e do Agreste, do Litoral e do Brejo, dos Carascais e da Caatinga para, depois, produzir com maestria tantos livros e artigos que, mormente em Pernambuco, muitos podem ler com grande voracidade. No Jornal do Commercio – que não chega ao Paraná – ele mantém sua ininterrupta atividade cultural, produzindo páginas que já nascem prontas para os próximos livros como: As frutas pedem socorro, Simpatia para não perder emprego, O Recife, a riqueza de seu folclore e tantos mais.

Outro dia, na Argentina, seu livro: Alimentação e Folclore ganhou o prêmio instituído pelo Fondo Nacional de Las Artes, do Ministério de Educacion y Justiça. Venceu dentre 48 outros trabalhos. Considerou o Júri argentino que Souto Maior é, naturalmente, pela sua obra já publicada, o sucessor de Câmara Cascudo. O prêmio ibero-americano que recebeu, certamente, só lhe reforçará o ânimo para novas pesquisas e o ajudará na difusão de sua obra, dando-lhe maior destaque nacional, como bem merece.

Oxalá tivesse o Paraná, hoje, alguém com uma bagagem bibliográfica sobre este Estado, como Pernambuco tem na pessoa de Mário Souto Maior em relação à cultura popular pernambucana.

Povo algum teria sua memória perpetuada se não contasse com a dedicação dos folcloristas, que à cata de pérolas no mar da cultura popular, encontram a beleza do oceano do saber do povo.

LACERDA, Jorge Baleeiro de. Souto Maior e o Nordeste in Os dez Brasis (5a. ed.)
São Paulo, 1999, p.51

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José Américo de Almeida

Mário Souto Maior cultiva um folclore atraente e penetrante. É sempre o tema literário e um objeto de análise.

O que vale neste livro não é constituir um registro de sinônimos em campo tão interessante. A colheita representa um longo esforço com o senso de pesquisa científica, mas o que importa é o sentido da criação.

Foi muito bem indicada a designação da área geográfica ou, antes, a cor local, com as suas características como um índice da cultura popular.

E há uma variedade que traduz as nuanças de cada vocábulo com a nota psicológica, conforme o estado de espírito.

Cada expressão mostra o gosto da bebida, e sensação que produz. E pode ser irônica ou galhofeira.

O eufemismo, por sua vez, é um apelido com que trata o cachaceiro o trago preferido.

Enriquece-se a língua com essas aquisições e há um convite para o estudo, pelas interpretações que sugere.

Valorizemos um material que prende pelo seu sabor, investigando-lhe a formação e, principalmente, o humor plebeu, em suas formas tão precisas.

Que o autor continue a fornecer, como vem fazendo, documentos de nossas tradições e do que há de curioso na vida coletiva, em camadas obscuras.

Tambaú, março de 1971
ALMEIDA, José Américo de. Prefácio do Dicionário Folclórico da Cachaça.
Recife: Fundação Joaquim Nabuco, 1973/1978/1985

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José César Borba

Trata-se de experiência que, a um tempo, comove e ilustra, esta de conhecer e percorrer a ficção de Mário Souto Maior. Estórias singelas que envolvem a gente de impressões, pedindo para demorar e rever a leitura. Estórias parecidas com muitas e, todavia, diferentes, como o título do livro de poemas publicado em 1938, a iniciação do criador de literatura, antes de afirmar-se como etnógrafo.

Quem conhece a inventiva popular do Nordeste, matéria de pesquisas e livros de Mário Souto Maior, aqui, nestas Sete estórias sem rei, começa por ser surpreendido, em se tratando de ficção, de encontrar o que se pode supor, julgar ou imaginar sejam reminiscências, notações saudosas de sua infância, uma como fecundação artística da memória em páginas, até certo ponto, pelo menos, autobiográficas, mais vividas, sentidas e recordadas, que inventadas.

Se disserem que fiquei apegado a O despertar da Aurora, e estou me guiando por esse lance inicial de ternura, confirmo que, ao fim das sete estórias, ainda tenho no

pensamento a escola que ficava na cidade alta, tecendo os cabelos louros, cabelos de fada, da professora Leda. Aquele silêncio de igreja e aquela moça bonita que deixaram nervoso o menino tímido, metido numa farda que lhe tolhia os movimentos, e de sapatos novos castigando os pés, é de se guardar na lembrança como um ponto de identificação humana.

Se o sol brincava com os cabelos de dona Leda, era o mesmo sol de domingo, em que não havia escola, o sol dos passarinhos inocentes, que, no curso da semana, alegram com o seu canto os trabalhadores do campo.

Se me perco em lirismo, quero dizer, em contrapartida, que em O despertar da Aurora há uma advertência paterna característica de linguagem, condições e condicionamento da gente nordestina, que encontramos na obra do etnógrafo Mário Souto Maior:

- "Gente que não sabe ler nem escrever, daqui a algum tempo não vai servir nem para trabalhar na enxada".

Claro: nos contos curtos de Mário Souto Maior, se há muito da sua jovem vivência pessoal, há toda uma vivência regional, que o tem motivado no registro e à análise.

O despertar da Aurora simboliza a fase inaugural da adolescência, que voltamos a encontrar na singeleza de Belinha, na procura de palavras para uma declaração de amor. Palavras memorizadas de romances lidos às escondidas, no sótão da casa. Uma casa recifense. Impregnada do cenário, de ambientação do primeiro conto quando o personagem-narrador fala em sepultar a sua vida no mar, não se percebe logo que a estória se passa no Recife, senão quando a paisagem irrompe "nas águas calmas do Capibaribe", correndo sob a ponte da Boa Vista.

Não creio que, em nenhum momento, Mário Souto Maior tenha recorrido à imaginação para criar, renovando, a inquieta imaturidade dos que se apaixonam sem se confessar, clamando perdão para o seu enorme silêncio.

Belo e autêntico retrato da adolescência tímida, em que a ficção está pontilhada de crônicas de costumes, os filmes de cinema sugerindo penteados, no modelo das jovens atrizes. E os romances sugerindo frases reprimidas nos desabrochados corações temerosos. Frases de que os apenas iniciados aproveitadores ainda desconhecem o sentido de algumas palavras, mas as sentem bonitas e retumbantes.

Costumes de um tempo, de uma época, de uma geração, que irrompia com três

pontinhos palavras de amor, para respirar demoradamente. Uma geração ingênua, no confronto e no contraste dos procedimentos em que as palavras, rebaixadas, perderam a expressão antiga de carícia e segredo pontuados de idílios mais feitos de anseios que de encontros.

Sob esse aspecto é de comparar o que se lê nos jornais do dia, se sabe pela televisão ou se escuta pelo telefone com o conto Belinha, de inquietações inocentes, de emoções guardadas, de projetos em sonho.

Todas as sete estórias de Mário Souto Maior parecem remontar à adolescência e delas se poderá dizer que representam as fontes de um escritor que, pesquisador e estudioso das manifestações populares, tem sabido produzir trabalhos que, como estes contos, se lêem na continuidade das páginas e a gente deplora ao chegarem ao fim, esgotado, o material da leitura. Falo por mim e devo estar falando por leitores de diferentes faixas etárias e formação intelectual.

Se falei em adolescência e faixa etária, gostaria, de logo, ver a estória Opereta incluída numa coletânea destinada aos jovens. Considero-a obra-prima, no seu despojamento e na sua contida mensagem de solidariedade entre as espécies, no caso, entre um pássaro e um comerciário aposentado. É uma beleza do começo ao fim a estória do cancão e de Nepomuceno Otávio Moreira. Estória de valorização da natureza, que se ao homem pode oferecer drogas para rejuvenescer o espírito no corpo idoso, só o convívio com as suas criaturas, convívio direto, cantante e saltitante, pode restaurar o gosto essencial pela vida que se alongou em lidas e ofícios até o estado de sobrevivência. Ecológico e humano, Opereta é uma obra-prima.

A liberdade de temas, de tratamento e de linguagem, são opções intrínsecas da vocação e do talento do escritor, não comportando limitações, críticas ou a remessa a medíocres modelos preestabelecidos. A literatura tem, no entanto, permanente missão educadora. E quando a gente estimaria que, por exemplo, Opereta integrasse coletânea de estórias para crianças e adolescentes, está pensando que os jovens, antes de tudo, devem receber lições de bondade, de solidariedade entre todas as criaturas, racionais e irracionais. O escritor será, aliás, tanto mais livre, respeitado e admirado, como Mário Souto Maior, quanto melhor, como privilegiada criatura racional, fecundar a razão e a consciência de que foi dotado, empregando-as generosamente.

Não é possível deixar de assinalar a unidade telúrica na obra ficcional de Mário Souto Maior. O despertar de Roberta não creio que ofereça algo particular em relação à ociosidade feminina, no resto do Brasil e no mundo. A ociosidade e a vaidade, nos seus contornos domésticos e nas projeções mundanas, fixadas com exatidão em desenho literário de linhas harmoniosas.

Mas é um despertar em ensolarada Manhã pernambucana, de janelas entreabertas à luz e aos sons vindos dos jardins, sobre as cabeças ainda repousando nos travesseiros, os músculos relaxados, os corpos completamente abandonados.

Manhã de réstia de sol, que aumenta até o tamanho da janela, misturada com o chilrear dos pássaros no alpendre e o perfume das roseiras.

É sugestiva essa réstia de sol, que o contista trata no diminutivo - restiazinha - na hora do despertar da personagem, antes de inundar o quarto todo com um jato de luz. "Abriu os olhos de uma vez. A restiazinha de sol ainda continuava a brincar", enquanto Roberta boceja com a sensação de que tudo – "a vida, o marido, tudo" - fosse um eterno brinquedo.

Brinquedo a lembrar a criança que não chegou, mas foi até melhor que não acontecesse, pois, na sua expectativa física, ficaria sem poder sair, sem dançar, cheia de dores e mais velha, considerada a idade pela flacidez do corpo.

Simples, com a simplicidade de crônica, quase, Manhã apresenta na figura feminina como muitas - e como já o fizeram muitos autores - captando-lhe, porém, a psicologia na oposição entre a feérica paisagem, que enquadra, como cenário, a estória - paisagem estuante de vida, de movimentos, odores e música, e a estéril imobilidade de Roberta, em que o abrir os olhos devagarinho é para ela perder uma sensação agradável, a sensação do sono, do estado de inconsciência, em que, longe da cama quente e macia, continuarão suas preocupações e pensamentos frívolos de natureza sensual.

Dionísia rural em campo onírico, é a impressão que se conserva da leitura de Entre o sonho e o ovo, talvez, nas sete estórias de Mário Souto Maior, a de mais comovente sensibilidade de concepção e composição. A natureza circundante encontra-se reunida à figura e à condição de um menino. A começar pelo seu nome, colhido da vegetação. Raminho, tenro, terno, trêmulo.

Estória mais curta destas curtas sete estórias, permite que nela nos fixemos devagar, lembrando todos os meninos do mundo, como Raminho, "magro, amarelo, buchudo, sarará, pernas finas e arqueadas", sem pai e sem mãe, corrido da seca.

A falar que é um menino do interior, designando-o Mário Souto Maior de "meio sonho e meio menino", isso equivale a dizer que em Raminho tudo é interior, vivendo, como vive, "como se fosse um poeta", esconde no coração uma coisa só sua.

Em volta de Raminho, touceiras de bananeiras, sabiás beliscando goiabas maduras, lagartixas correndo entre as folhas secas.

Entre o sonho e o ovo, pode-se imaginar e sentir ser a estória mais criadora de quantas reuniu Mário Souto Maior da sua produção de ficcionista, que se não considera o autor encerrada ou interrompida, reclamam os leitores que se renove e desdobre constante, em continuidade artística, o que aconteceria perfeitamente sem sacrificar o trabalho do etnógrafo.

O cotidiano e o contingente, no centro das estórias e na descrição de hábitos e ambientes, motivam e definem a criação de Mário Souto Maior na linha, herança e modelo da técnica do conto curto, remontando, caracterizadamente, a autores clássicos e modernos. É uma resultante da linguagem sem adornos, singela e pura, expressiva e direta. Admirável a sua tendência para abordar a fantasia, como no caso de Entre o sonho e o ovo e, seguidamente, não fazer concessões quando se trata da realidade, imprimindo-lhe a nota pungente, sem extremá-la no patético, sensível, discreto e objetivo. Uma esperança para Benevides, tocantemente inconcluso, como narrativa do drama do personagem, sem meios materiais para recuperar a visão carecida de cirurgia urgente, distante e dispendiosa, só no título - que no título fica e desaparece - concede a expectativa sonhada, possível e feliz.

Uma esperança para Benevides entra pelos olhos como amostra de qualidades iguais de equilíbrio e concisão, em diversidade de situações que fazem destas sete estórias um conjunto vário e veraz na sucessão de episódios que a leitura transpõe rápida e a memória alonga como experiências da vida e da literatura. Tocante e pungente, é flagrante, permanente, do cotidiano e do contingente da condição humana.

Página de fé e de tragédia, sob a aparência de tentação carnal, as estórias se encerram com o episódio do padre e a moça, tratados de O Pastor e a Ovelha. Mário Souto Maior, no critério seletivo da organização da coletânea que ora publica, terá deixado para o fim a nota passional.

Coletânea diversa, em que a variedade de episódios poderia arriscar a desconexão, ou o convencional de estórias para todos os gostos, a unidade é, no entanto, a chave que abre e fecha cada uma no particular, na sua relação com o mesmo texto, e no confronto com as outras, o seguimento da fatura ficcional determinando um estilo e um ângulo de visão.

São estórias simples, em que o Autor, servindo-se do vivido e do observado, confia mais na imaginação do leitor do que na dele próprio. Claro está que, fora dos contornos definitivos - começo, meio e fim - só um escritor e poeta pode descrever cabelos "longos como a madrugada", o que é original e é uma beleza.

Mário Souto Maior reserva, em alguns casos, aos objetos um papel que os faz funcionar maravilhosamente como sínteses, sendo a síntese a marca da sua exposição de ficcionista. Um revólver no chão, ao término de O Pastor e a Ovelha, junto a um filete de sangue, substitui palavras,

Assim como em Opereta, o que a muita gente pode passar despercebido, a rnim me encantou: a ratoeira na mangueira. Nepomuceno Otávio Moreira, por quanto dele nos conta Mário Souto Maior, devia gostar de gatos, ou, mesmo, ter gato em casa. O Autor do conto não tem culpa da imaginação do leitor. . . Em uma ou outra hipótese - sobre a presença não explicitada ou sequer referida, - Nepomuceno tinha uma ratoeira, para recolher provisoriamente um pássaro. O que quer dizer: a um objeto e não a um ser vivo e sensível entregava vil ofício, torpe e cruel. A missão do gato não é a que vulgarmente a ele se atribui, mas junto ao homem, à fadiga e à tensão humanas, para dissolvê-las de maneira suave e silenciosa.

Esta é a dimensão de Mário Souto Maior, que escreve como se conversasse contando casos, mas no contar deixando a ressonância dos personagens e dos ambientes ampliada em sugestões, como se todos saltassem das páginas para comunicar-se mais de perto com a gente, complementando a mensagem do Escritor.

Rio de Janeiro, junho, 1984.
BORBA, José César. Apresentação de Sete estórias sem rei. Recife
Grumete Serviços Editoriais, 1984

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