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Foi lançado em São Paulo, através das Edições Arquimedes, o livro Como nasce um cabra da peste, do etnólogo Mário Souto Maior, um dos mais lúcidos pesquisadores brasileiros de assuntos do folclore regional, estando em via de publicar um ensaio sobre a aguardente a ser editado pelo Instituto do Açúcar e do Álcool, na Coleção Canavieira. Beneditamente, Mário souto Maior vem se dedicando à pesquisa sistemática do folclore nordestino, num trabalho de valorização dos elementos mais expressivos alguns deles por displicência dos pesquisadores mais ortodoxos relegados a um segundo plano da cultura popular do Nordeste brasileiro. E mais: Souto Maior alia, em seus ensaios, a rigidez da exposição factual e objetiva à uma linguagem literária, atingindo, vez por outra, aquela atmosfera de romance, em que a tessitura da narrativa se desenvolve quase novelisticamente. Esse livro de Souto Maior, em boa hora publicado por Arquimedes de Melo Neto, editor de sensibilidade e pernambucano de primeira linha, conta a história, paixão e morte do nordestino, principalmente daquele que vem ao mundo nas fazendas, pequenos vilarejos e cidadezinhas do interior, marcado, desde a camarinha materna, pelas crendices e superstições próprias do contexto cultural. O perfil deste homem está magistralmente esboçado no livro do etnólogo pernambucano: afirmação do seu próprio editor. O arquiteto Joaquim Dutra Neto, na capa do livro, dá uma visão simbólica desse nordestino. Conforme configura na capa deste livro o arquiteto Joaquim Dutra Neto - escreve o editor Arquimedes "num mundo nada azul porém bem negro, - tendo de permeio um sol tórrido, emerge o chapéu de couro cheio de comendas do cabra-da-peste, cabra-de-peia ou cabra-da-rede-rasgada, que tanto pode ser o vaqueiro como o tipo cachaceiro e desabusado; o trabalhador do eito como o desordeiro da zona rural, o calunga (ajudante) de caminhão quanto o cabra safado que faz qualquer um comer a banda podre; pode ser ainda o retirante infeliz e honesto como o assassino da mais próxima cadeia." A história acentua "da vida, paixão e morte do portador desse chapéu heróico seu retrato e sua alma está esplendidamente esboçada neste livro de Mário Souto Maior, como contribuição folclórica e para deleite dos leitores." As ilustrações do livro são de Lourdinha Costa Azevedo, desenhista jovem e de sensibilidade criadora. Um dos primeiros estudiosos da cultura regional a se manifestar sobre o trabalho de Mário Souto Maior foi o geógrafo Mauro Mota, diretor do Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais. Afirma Mauro Mota que Como nasce um cabra da peste, na sua expressão leve e ágil, sem qualquer ranço científico, vale duas contribuições: uma direta, a contribuição para a cultura popular num aspecto ainda não pesquisado assim como tantas minúcias pitorescas; outra, indireta: a das práticas tradicionais ainda prevalecentes, e que tanto contribuíram para os elevados índices da mortalidade infantil na zona rural do Nordeste. BELO, Gladstone Vieira. Diário Literário. Diario de Pernambuco, Recife Associando a pesquisa original de campo com o estudo de fontes bibliográficas, Mário Souto Maior escreveu A Morte na Boca do Povo. Na mesma linha que distingue alguns livros anteriores do mesmo autor, etnógrafo e folclorista dos mais interessantes que o Nordeste nos apresenta, depois de Câmara Cascudo, mestre de todos eles. A linguagem e a forma livre com que vem tratando os temas a que se propõe, e são vários, compondo um mosaico dos aspectos mais populares ou sensíveis de nossa história social, tem dado um prestígio aos trabalhos de Mário Souto Maior que só a literatura de vulgarização possui. A divulgação científica quase sempre pode ser considerada uma traição à ciência, um desvirtuamento de métodos e uma simplificação de dados visando a objetivos que comprometem a seriedade epistemológica, o espírito de investigação, a honestidade e desinteresse da verdadeira atitude cientista. Todo esforço, nesse sentido, deve ser rigorosamente posto a serviço de uma transmissão correta de conhecimentos, como contribuição imparcial e objetiva à cultura humana, buscando retirar-lhe qualquer tendência elitista, aparando-lhe os excessos de especialização, inclusive pela utilização de um instrumento verbal acessível. O nível de comunicação dos livros de Mário Souto Maior não nos parece, assim, resultar de uma concessão anticientifica ou significar um reflexo, no campo da etnografia e do folclore, do fenômeno da massificação da cultura, mais perceptível em certas formas de manifestação artística, embora não sejam poucos os que têm celebrizado com a distorção da verdade cientifíca invocando cinicamente a irreversibilidade dessa mesma massificação. O interesse maior de livros como A Medicina Empírica e a Cachaça, Como Nasce um Cabra da Peste, Presença do Alfenim no Nordeste Brasileiro, Antônio Silvino - Capitão de Tabuco e outros, não está, sem dúvida, no rigor e amplitude da pesquisa, mas na forma sugetiva com que o folclorista define, através, dela, alguns traços essenciais da psicologia do nosso povo. O típico, o expressivamente fisiogrômico se destaca sobre os elementos da conceituação pura, em sumárias descrições de costumes, de hábitos, de tabus. No caso deste pequeno volume onde Mário Souto Maior codifica em verbetes locuções populares, tradicionais ou incorporadas aos extratos inferiores de nossa cultura pela influência civilizatória sobre a inventiva do homem comum, poderíamos pedir o desdobramento da parte introdutória, do reduzido ensaio de interpretação que precede o glossário, mas sua intenção, evidentemente, não foi outra senão organizar para o estudioso ou para o estudante, sem extensos comentários, uma amostra da gama infinita de expressões com que o povo revela suas superstições, seu terror e até mesmo sua irreverência diante da morte. Em parte, o mérito reside na simples concatenação de uma coleta realizada direta e pessoalmente; em parte, no abono que lhe imprime com a citação de outros pesquisadores e com a ilustração de exemplos extraídos de vários textos literários, além da relação de obras consultadas que acrescentam no final. Lamentamos que Mário Souto Maior não tenha se estendido mais na fundamentação dos verbetes de algumas locuções que exprimem aforismos ou provérbios, ao lado de expressões de gíria, diversificando os exemplos literários que trouxe em auxílio da autenticidade de sua circulação erudita. E lamentamos, precisamente, pelo prazer que nos daria um trabalho de proporções mais extensas. Algumas dessas locuções têm um valor especificamente folclórico, isto é, possuem um sentido geográfico e culturalmente restrito à região nordestina; outras guardam um significado nacional, ou, pelo menos, interestadual. O autor nem sempre nos esclarece com precisão a esse respeito, deixando de proceder com o mesmo cuidado que dispensou a outros aspectos, como por exemplo, o sentido profissional que algumas delas evidenciam. Torna-se difícil dividi-las em grupamentos tendo em vista sua origem; quase todas, não encontradiças em diferentes partes do Brasil, com suas variantes. Quase sempre, as locuções são compostas de vários elementos, que conservam entre si relações metafóricas, traços de eufemismo, às vezes bastante sutis aos adotarem matizes que disfarcem a intenção exorcista, o termo mágico, ancestral, fisiológico da morte. Nunca aludem de modo direto. Dentro dos limites que pôde utilizar em sua súmula, o autor ordena o verbete a partir da definição da locução, como mostra este exemplo: "Bater-a-paquera. Morrer, registram Aurélio Buarque de Holanda e Luís da Câmara Cascudo: "As vísceras maiores, pulmões, fígado, coração, do boi, carneiro, porco. Tripas à mostra. Exposição de fissura, situação mortal". Silveira Bueno registra a locução como bater-a-paquera. Estão reunidas cerca de duzentas expressões populares e nem uma só vez usada a palavra morte, a grande criadora de metáforas. Porque, como deixa entrever Mário Souto Maior, o sentido de translação, expresso no recurso de denominar a morte por uma série de nomes, significa o instinto de conjurar sua presença ou aproximação. Outro livro de Souto Maior, baseado em fatos que podem ter um interesse apenas pitoresco ou humano mas dos quais ele sabe buscar as causas sociológicas, oferecendo-nos explicações de como funciona a "mecânica da denominação entre os nordestinos, é o estudo intitulado Nomes Próprios Pouco Comuns. É das mais atraentes a pesquisa etnográfica realizada no sentido de fixar razões da preferência pelos nomes extravagantes, em que revelamos uma inventividade a toda prova, inclusive no mau gosto, frutos do capricho e arbitrariedade individuais apoiados na inexistência de leis que os reprimam, mas também de motivações religiosas, raciais, históricas e outras. Aqui a investigação se aprofunda, não somente no que diz respeito à parte sociológica, pois de natureza sociológica é o livro, como também relativamente à contribuição ensaística do autor, pelas considerações pessoais que emite em torno de uma configuração antropológica do problema pelo enfoque universal que lhe concede. O trabalho oferece, assim, um duplo interesse, como os demais de Mário Souto Maior: o de ciência social e o de originalidade da obra que procura surpreender o insólito, que deu a Carlos Drummond de Andrade o tema de uma crônica deliciosa. " O nome próprio extravagante - observa o poeta - é motivo de riso, que faz sofrer seu portador em benefício do fígado alheio, mas sua motivação é sociológica e psicologicamente séria, pelo que entremostra de gostos, idéias e hábitos dos brasileiros, da maneira como Mário Souto Maior soube apresentá-la, sem pretensões excessivas, porém com espírito científico e gosto literário. Para o leitor que deseja ficar apenas no aspecto engraçado ou pitoresco dessa indagação etnográfica, reproduzimos parte da dedicatória: "Para Oscar Feio, João Osso, Luís Carlos Sozinho e Carmen Amada Sempé - minha solidariedade". A do autor e a nossa. BRUNO, Haroldo. As obras de
Souto Maior. Ele está com o cão no couro, dizem, no Nordeste, quando o cara - depois de duas ou três cachaças - resolve se meter a cavalo do cão (valente). De um modo geral, o guarda chega rápido como os seiscentos diabos e o desabusado vai pra cadeia comer o pão que o diabo amassou. Se o sujeito tiver dinheiro, enquanto o diabo esfrega o olho aparece um rábula. Se não tiver, aí o preso tem que passar o que o diabo enjeitou. Por causa dessa presença constante e mal-assombrada do tinhoso na linguagem - e na vida - do povo nordestino é que o etnógrafo Mário Souto Maior escreveu Território da Danação, situando o diabo na cultura popular do Nordeste. STUDART, Heloneida. Presença do Tinhoso. Manchete, Rio de Janeiro, 15/11/1975 Uma boa parte da minha meninice esteve completamente alheia ao Diabo: meu pai era ateu e minha mãe, apenas católica tradicional que nunca vi ir a uma Missa, preferia me falar em fantasmas, caiporas e lobisomens. O Diabo só entrou na minha vida quando, na escola, atingi o Segundo Livro de Leitura de Felisberto de Carvalho. Aí eu o vi (sempre me refiro a ele com maiúsculas, a partir da minha conversão, no sentido que lhe dá Murilo Mendes de que todo dia é dia de conversão), naquela gravura, terrível, aconselhando o menino: "Mata teu pai, esbordoa tua irmã e entrega-te ao vício da embriaguez". Desde então andamos juntos, a partir daquele instante passando eu a associá-lo a estouro e enxofre, até que o encontrei na literatura Marlowe e Goethe e no cinema: Murnau. Depois eu haveria de encontrá-lo nos espetáculos dramáticos populares: no Bumba-meu-boi carregando o Padre para as profundas dos infernos; nos mamulengos como Dom Futuco; nos fandangos como o gajeiro da mesena; nos pastoris já travestido de Bedegueba, alegre e chocarreiro, obsceno, para quebrar tanto derramamento de sangue e lágrimas que a Igreja nos proporcionava nos seus espetáculos: mistérios e milagres. Muitos anos depois eu conviveria com Ele, diariamente, precisamente quando estava escrevendo Sol das Almas, que é, nada mais nada menos, que a história da danação de um pastor de almas. Subjetivamente presente a todos os acontecimentos do meu romance e objetivamente atuante, ora como um Bode, ora como um Morcego, tive de travar um sério combate com o Diabo, do qual até agora não sei si saí vencedor ou vencido. Agora, chega-se Mário Souto Maior outra vez com o Diabo. E eis-me mergulhado no Seu mundo, vendo-o nos livros, na linguagem popular, no cordel, nos atos e nos gestos, preso no Nordeste, sua morada ideal, parece-me, pela abundância de males que aqui existem, traduzidos em latifúndio, fome, doença, marginalização dos pobres, morte inglória, almas cativas. Mário Souto Maior, com toda a certeza de nós todos, escritores do Nordeste, aquele que mais se tem preocupado com o sentimento popular, acompanha os passos do Diabo justamente no meio do povo (encarando-se como povo aqueles que estão marginalizados do progresso e do avanço da economia brasileira), seu habitat natural pela carência de recursos que vão desde os materiais aos espirituais, não se preocupando em investigá-lo nas camadas altas: a dos executivos, a dos produtores, a dos ricos. Este, com certeza e vale a pena o estudo deve ser um Diabo a rigor, comendo caviar e bebendo champanha brut, fornicador de carnes perfumadas, executor de negócios fantásticos. Neste Território da Danação (O Diabo na Cultura Popular do Nordeste), Mário Souto Maior, outra vez, nos coloca diante de um estudo sério, honesto, inteligente, não somente de acordo com as regras da pesquisa, mas o que é importante carregado de um tom poético que caracteriza esse escritor no tratamento das coisas do povo. Mário Souto Maior vem nos salvando, com os seus livros, da culpa, mais que culpa, do crime de nos ausentarmos da cultura popular numa região em que esta cultura deveria comandar todos os nossos atos de criação artística: nas artes plásticas, no teatro, na música, na literatura. O que ainda temos de puro, o que ainda possuímos de essencial é o que parte da raiz popular, coisa que pouquíssimos países do mundo possuem. Se em vez de estarmos cultivando uma música norte-americana nos voltássemos para as taieiras, os reisados, os frevos, os benditos, as excelências; se não nos preocupássemos tanto com Brecht e Pinter, por exemplo, valendo-nos do espírito e da técnica dos espetáculos dramáticos populares; se pensássemos menos em Solers e atentássemos para a sabedoria dos folhetos e da literatura oral; com toda a certeza estaríamos criando (ou recriando, que não acredito muito num trabalho de criação puro) um dos mais fantásticos universos artísticos de que o mundo poderia ter notícia. É este caminho que Mário Souto Maior vem nos indicando através dos seus livros. E com este agora sobre o Diabo, codificando-o, abre uma perspectiva imensa para um teatro, um romance, uma pintura que, voltando a preocupar-se com o Mal, restabelecesse a regra gideana de que não se faz obra de arte com os bons sentimentos, reconhecendo, dostoievskeanamente, que a arte tem muito mais da inspiração do Criador-Mor, já que, como criadores, podemos construir figuras à nossa imagem e semelhança. Rimbaud já nos falava do tempo dos assassinos. Há indícios de que este final de século seja o dos assassinos, do corpo e da alma, e os assassinos estão sob a proteção do Diabo. Como lutar contra Ele? Conhecendo-o. Comecem por Mário Souto Maior para compreender a alma popular e se quiserem dar uma cutucada no Diabo, em outros planos, aí então não sei o que aconselhar. Recorram, se quiserem, a Mao Tsé-Tung, ao Rei Faisal, a Franco, a Gerald Ford, a Fidel, a todas as ditaduras e a todos os totalitarismos disfarçados de democracia. Não avancem, no entanto, que serão esmagados. Não há como lutar contra o Diabo. Abram o livro de Mário Souto Maior e vejam se não é verdade: vencido ocasionalmente, o Diabo reaparece. Aproveitemo-Lo na Arte, já que na Política e na Economia Ele nos esmaga. Recife, Janeiro, 1975. É um prazer cumprir o que já é rotina: receber, ler, incorporar trabalhos fruto da sua pesquisa, talento e capacidade de trabalho. Comes e Bebes do Nordeste é o que são tais bebes e comes; uma gostosura. Dentro das peculiaridades nordestinas, há um Brasil inteiro de bons costumes no comer e no bebericar. Lido ( e anotado) o seu trabalho, fui dar uma volta de fim de semana pela área da Estação do Norte que até 202 anos atrás era italiana e hoje é nordestina. Fui de livro na mão, botar no balcão e na mesa o que fosse possível encontrar das maravilhas reunidas nas suas 137 páginas. Já soube de tão bom aproveitamento de um livro. Achei pouca coisa. O suficiente para beliscar e salvar o Santo em sua homenagem. Obrigado também por essa sugestão. Abraço de HERNÂNI DONATODONATO, Hernâni. Carta, São Paulo, 26/10/1984 Para falar em nomes próprios pouco comuns, eu deveria começar citando o meu, julgado por muita gente boa como se fosse reservado ao gênero masculino. Os eternos questionadores dão palpites acerca da forma pela qual é escrito - Hildegardes, com o es final, afirmando estar errado. Errado coisa nenhuma! Pois se é assim que ele é citado em A Nova Floresta, do Padre Manuel Bernardes, e é assim que figura nos bons hagiológios. Há uma vasta bibliografia a respeito da Santa Hildegardes, cujas antífonas, cantadas em latim, apresentam o nome como Hildegardis, isto é, com terminação em is, o saudoso Frei Reynaldo, monge alemão da ordem cistercense com mosteiro em Jequitibá, em nosso Estado, me ofereceu, e conservo com carinho, traduções que fez dos textos de autores que se ocuparam com a Santa Hildegardes, abadessa beneditina, cuja festa é realizada no dia 17 de setembro. Poderia falar também de nomes alheios estapafúrdios como os de Auxêncio Militão Louceiro, Antomálio Jesus de Pirapora e Cristobel Cirde Cristo, Esperidião Furtado da Banda, Evaristo Sucupira, Hermano Pombo Calado, Bituelve de Souza, Apostila de São Pedro Apóstolo, Maria Eterna do Coração de Jesus e seu irmão Quod vultus Deos (apelidado em família de Codevu), forma estropiada do latim Quod Vult Deus, Aleluia da Ressurreição Mangaba e outros que tenho conhecido por aí afora. Mas o que eu quero, realmente, é comentar com você, leitor amigo, o livro de Mário Souto Maior que vem de ser lançado em 3ª edição, ou seja , aquele delicioso "Nomes Próprios Pouco Comuns". São 111 páginas, 50 ocupadas com uma relação de nomes próprios muito impróprios , que ele conseguiu detectar neste nosso Brasil. Deve ter sido uma pesquisa laboriosa como se pode constatar pelas 119 referências bibliográficas, incluindo listas de telefones estaduais, recortes de jornais, reproduções fotográficas de notícias sobre Defuntina e Finadina, nascidas no Dia de Finados, Senhorinha Francês de Portugal, Napoleão Bonaparte Príncipe dos Santos, além de um instrumento de protesto entregue ao tabelião pelo Sr. Pedro II Orrico Brasil. Há nomes que a gente duvida seja possível terem sido aceitos pelo padre ou pelo oficial de registro: Ulpiano Catarro, Wandregésima Solteira Neves, Sabetai Franco, Philonília Piaulina, Newton Marimbondo Vinagre, Carmem Amado Sempé, Melhorado Bayer, Maria Auridete Paletó Pereira, Maria Privada de Jesus, Magnésia Bisurada do Patrocínio, Náusea Pereira, Eter Sulfúrico Amazonino Rios, Crisopasso Compasso, Céu Azul do Céu Poente, Antônio dos Remédios Mata Fome, Manso Pacífico de Oliveira Sossegado. O livro é uma beleza também pelos comentários de Mário Souto Maior, espirituosos e justos, não ridicularizando os moradores neste vale de lágrimas que portam nomes tão insólitos. Dá a conhecer por uma amostragem que serviu de base para a pesquisa, utilizando os nomes dos funcionários do Banco do Brasil, que o brasileiro tem preferência pelos nomes começados pela letra J, seguidos da letra A. José é o nome mais usado, deixando longe Antônio e João. VIANNA, Hildegardes. Nomes
próprios pouco comuns Não só como estudo válido sobre a tipologia humana nordestina mas como uma inestimável contribuição à análise sociológica e, ainda, como <<chaves>> à apreensão do folclore regional é como encaramos este pequeno livro de Mário Souto Maior, récem-editado pelas Edições Arquimedes. A história do <<cabra da peste>> que o autor arranca da própria realidade que apreendeu em suas observações e no próprio habitat, é via-de-regra uma quase que invariável linha de vida tão profundamente amoldada a um status social transformado e diluido em heranças de costumes, crenças e hábitos que até mesmo o impacto civilizatório provocado pela revolução industrial esta que ora arranca no Nordeste não consegue modificar as estruturas e as sagas oriundas destas. Nota-se, no autor, uma acuidade especial na percepção de certa fenomenologia social que chega a despir ao que nos parece o sociólogo latente que existe nêle e apenas adormecido ou desviado para outro tipo de experiência especulativa. Em Como nasce um cabra da peste vemos, pois, algumas das mais fortes características fundiárias do espirito do homem nordestino, e, ao mesmo tempo, caminhando com êle, contundindo-o, as causalidades agressivas, uma realidade calcada no próprio processo humano aí mais das vezes evitado pelas condições ambientais. O autor viu tudo isso e mais o pitoresco, o trágico (no sentido unamuniano da vida), o grotesco, o lírico e o dramático de um povo. Muito mais: a inteligência da razão, da intuição e do instinto jacentes num certo tipo de homem nordestino. OLIVEIRA, J. Gonçalves de .
Livros da semana Criada, desde a antigüidade, ao redor do morto e da morte, uma variada gama de crenças, superstições e costumes, preservada ou modificada, é transmitida pelo povo de geração a geração. Esse complexo cultural, pesquisado e interpretado, tem constituído rica e importante fonte de estudos, por parte de pesquisadores e estudiosos, para a compreensão de determinados fenômenos da cultura imaterial. Se quisermos situar, nesse mosaico de crenças, superstições e costumes, dois exemplos distantes, veremos, no Egito, o deus Anúbis cuidando dos rituais da morte e acompanhando o morto às "terras do Oriente", a caminho do reino de Osíris, seu pai; assinalaremos, entre os gregos, o costume da familia colocar uma moeda na boca do defunto, como paga ao barqueiro Caronte que, só assim, transportava a alma do falecido para o outro mundo. Já mais próximo de nós, acusamos a presença de certos costumes, a exemplo do velório, em que os parentes e amigos do morto conversam baixinho, para não ouriçar o silêncio, servindo-se de café ou cachaça enquanto aguardam a hora de enterrar o cadáver; ou, então, superstições como a de não se parar o enterro à frente de nenhuma casa, evitando-se, desse modo, que o agouro ponha o olho mau na vida dos que moram nela; ou, ainda, o dizer-se que em tempo de vento forte, no caso de morte, o vento sopra desembestado porque Satanás está no encalço da alma de quem foi estrumar-feijão. O etnógrafo Mário Souto Maior, que parece não temer a Mulher da Foice e que, ao longo desses anos, vem realizando um sério e rigoroso trabalho de pesquisa, novamente vai à boca do povo e, agora, nos oferece um livro significativo: este que temos nas mãos. Acredito que o leitor inteligente não porá dúvidas sobre a importância do trabalho que Souto Maior vem realizando, debulhando temas ingratos, esquivos ao aplauso fácil, que vão do pão à cachaça e da cachaça ao palavrão. Se não chega a interpretar, com profundidade e rigor científico, o material recolhido, Souto Maior, entretanto, com este livro, exaustivamente documentado, reafirma, através da pesquisa, seu compromisso com os pesquisadores e estudiosos do futuro, ao preservar das traças do tempo um material expressivo para a análise da nossa cultura. Neste livro, Mário Souto Maior apresenta uma diversidade de locuções, cerca de duzentas e cinqüenta, criadas e inventadas pelo povo para designar o ato de morrer. Não é difícil, ao lançarmos a vista sobre essas locuções, observar que, diante da morte e do morto, o povo trata a Mulher da Foice debochadamente, sem maiores cerimônias. Viver é uma luta constante, da qual nem sempre o indivíduo sai com as insígnias de vencedor, daí locuções como desistir-da-briga, ausentar-se-da-briga; o outro mundo, em confrontação com este, oferece melhores perspectivas, o jeito, então é passar-desta-para-melhor, passar-desta-para-o-outro-mundo; há, também, a resignação diante de forças superiores, do irremediável, temos, todos, de cumprir-a-vontade-de-Deus. As locuções coletadas por Mário Souto Maior sugerem as mais diversificadas interpretações. Se existem locuções onde pode ser rastreado um certo sentimento de religiosidade, de respeito e temor diante do mistério que é a morte, prevalecem, no entanto, as locuções debochadas, de troça e pouco caso. Abotoar-o-palitó, espichar-a-canela, fechar-o furico. São exemplos desse deboche e desse pouco caso. Parece, até, que o povo, dessa maneira, quer vingar-se de ter, inapelavelmente, de deixar os doces ou amargos arranjos da vida para falar-com-Pedro ou animar-festa-no-Céu. Na verdade, o que se nota é que a morte tem as botas enfiadas nos estribos da vida de cada um, causando maior ou menor temor, e originando, conforme seja encarada e, digamos também, dependendo da vida que se leve, essas locuções que passam de boca a boca. De geração a geração, eternizando-se na memória do povo como a própria eternidade da morte. BEZERRA, Jaci. Souto Maior:
compromisso com o futuro. Quando Mauro Motta dirigia o Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, hoje Fundação, costumava, de tempos em tempos, visitá-lo e a Silvio Rabelo, e não deixava também de dar uma prosa com Mário Souto Maior, então assessor-chefe, para a parte administrativa, do poeta das Elegias. Mário, sempre educado, simples e atencioso, veio depois, por sugestão do saudoso Mauro, a dedicar-se ao estudo de nosso folclore, gênero onde logo veio a consagrar-se pela capacidade de pesquisa e inclinação literária. Acompanhei sua ascensão nesse campo, pois sempre teve a gentileza de enviar-me seus livros, louvados por escritores os mais categorizados, a exemplo de Gilberto Freyre, Jorge Amado, Luís Câmara Cascudo, Carlos Drummond de Andrade, Pinto Ferreira, José Américo de Almeida, Nilo Pereira, Luiz Delgado, Orlando Parahym, Nelson Saldanha, Veríssimo de Melo e tantos outros, sem esquecer Mauro Motta e Waldemar Valente aos quais sempre foi afeiçoado e muito o estimularam. O folclore passou a ser para ele um sonho permanente, o seu entusiasmo, uma dedicação de todas as horas. Foi sua descoberta como escritor. A sua vocação de estudioso que leva a sério e não cansava das intermináveis pesquisas com que enriqueceu o seu mundo intelectual. Cedo assimilou a sabedoria popular, ouvindo estórias, convivendo com a gente humilde do povo, principalmente com habitantes da cidadezinha natal, sua Bom Jardim, cercada de serras enfeitadas e coloridas de paudarcos. A crítica saudou sua obra de investigação folclórica como de motivações sociológica e ensaística, trabalho de originalidade e enfoque universal, como referiu o saudoso Haroldo Bruno. Gilberto Freyre fala de uma sociologia ou ecologia da responsabilidade de um homem de letras e homem de ciência. Pinto Ferreira diz do pesquisador pioneiro, dedicado a temas de sociologia regional, especialmente do Nordeste, imortalizando na prosa quadros da vida social. Jorge Amado define sua obra como da maior utilidade e necessidade, de leitura fácil e agradável, e que ele é um desses trabalhadores intelectuais que realmente contribuem para a nossa cultura. Para o saudoso Nilo Pereira, o seu estilo é sóbrio, enxuto e direto e ele sabe ir às fontes. E para Luiz Delgado, revela um poder de expressão pessoal que excede a simples anotação objetiva dos costumes anônimos. Gladstone Vieira Belo registra que, além da exposição factual, alia uma linguagem literária... em que a tessitura da narrativa se desenvolve quase novelisticamente. E se Luís da Câmara Cascudo aponta sua leitura ágil e a pesquisa proveitosa, José Américo de Almeida salienta a qualidade literária, com um humor espontâneo e despretensioso. São muitos os que destacam, ao lado do escritor o cientista social, mas Mário Souto Maior, com sua simplicidade e modéstia, refuta não considerar desse modo com um embasamento academicamente teórico, pois sempre foi um pesquisador mais dedicado ao aprisionamento, na sua liberdade, dos costumes, dos hábitos, da linguagem, da culinária e de outros assuntos folclóricos antes que o tempo conseguisse sepultá-los no esquecimento total, substituindo-os, fazendo com que o ontem tradicional desse lugar ao hoje tecnológico. E acrescenta: "Sempre acreditei na impossibilidade, em assuntos folclóricos, casar, ajustar teoria e prática, de vez que a teoria significa ter os pensamentos e o raciocínio atados, forçados, distantes da verdade." Daí tantos haverem assinalado a leveza e despretensão de sua prosa como folclorista, especialidade em que demonstrou, como vimos, rara capacidade de estudo e observação de nossa cultura popular. E a observação como escreve o crítico literário Wilson Martins é a carne e o sangue da literatura. Em seu último livro "As Dobras do Tempo Quase Memórias", Mário Souto Maior demonstra que a memorialista nada fica a dever ao consagrado folclorista. O texto é preciso. Não há imprecisão na linguagem. Escreve com a naturalidade de quem nasceu para ser escritor. Cultiva com seriedade o seu trabalho. Escrever literariamente, isto é, com um estilo que lhe é próprio. A literatura é o seu motivo predominante, a sua razão de ser. A ela dedica o tempo maior de sua existência, o seu pensamento, o seu espírito. É a sua atividade primordial. Gostei de ler a obra, de conhecer a história de sua vida. Os ascendentes, avós, pais, tios, tias, a infância, os irmãos, os primeiros estudos e brinquedos em sua cidade interiorana, a adolescência, a mocidade, a solidão de estudante no Recife, sem vida social, o encantamento dos regressos, nas férias, a Bom Jardim, onde tinha com quem conviver, a iniciação literária, as primeiras poesias, os jornaizinhos que fundou, os costumes locais, os apelidos, os tipos populares, a política municipal, o namoro, o noivado, o casamento com dona Carmen "a amada companheira e mulher", os filhos, as dificuldades e lutas que se transformaram em vitórias, o trabalho na prefeitura, no Ginásio Bom Jardim, como promotor, advogado, inspetor federal de ensino e, por último, no Instituto Joaquim Nabuco, primeiramente na parte administrativa, depois como pesquisador social, os livros publicados, os títulos e prêmios obtidos e tantas coisas mais. Uma vida cheia e uma obra realizada com a força da paixão e devotamento, numa compulsão da arte sobre a vida. Arte e vida que se comunicam. Uma a outra se entrelaçando. MARANHÃO, Jarbas. O escritor Mário Souto Maior. Diario de Pernambuco, Recife, 1/10/1996; também nas orelhas de Como nasce um cabra da peste (3ª ed.). Recife: 20-20 Comunicação e Editora, 1997 |