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Fausto Cunha

Gratíssimo pelo seu livro "Nomes Próprios Pouco Comuns", que li com um prazer perverso, com a volúpia maligna de quem se considera livre da desgraça do próximo. Graças a Deus sou Fausto, você é Mário: não somos nem Florisbelo nem Um Dois Três.

O livro é muito saboroso (e gratificamente bem apresentado). Seu nome tem tido muita circulação aqui no Rio, a começar pelo Carlos Drummond de Andrade, que adora esse tipo de assunto. Da leitura dos nomes próprios um logo me veio à mente: o de Aglacê (ou era Aglaê?) Baé Guabiru, que escrevia aí no Recife lá pelos anos 40, eu era um garoto e achava aquele nome esquisitíssimo. Diziam-me que era moça da alta sociedade. Você a conheceu?

Mas para mim o nome mais estranho continua sendo o de Walter Veado, juiz que condenou Joaquim Cardoso. E não é por isso. Já o estranhava há vinte anos, à ocasião de um livro dele, lançado pelo Simões. Falaram que era um homenzarrão e fazia muita questão do sobrenome. Sabe que há uma família Merda em São Paulo? Eu trabalhava em Cia de navegação quando apareceu um imigrante Jacob Merda (a pronuncia é mêrda e parece que tem sentido bonito no original). Falei que ia precisar trocar, não sei se trocou.

Mas eu o conheço mesmo é através de "Meus Poemas Diferentes", um livro que li alí por volta de 1940 e que causava o maior escândalo por suas audácias modernistas. Eu gostava muito do livro, perdi-o quando vim pra cá em 1944. Outro dia escrevi para o Mauro perguntando se você era o autor desse livro. É. A honra é pequena, mas pode incluir-se entre as minhas influências literárias.

Foi um prazer travar relações com você, Mário Souto Maior.

Um abraço amigo do

FAUSTO CUNHA
CUNHA, Fausto. Carta: Rio de Janeiro, 8/10/1974

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Félix Coluccio

Una entrañable amistad me une a Mário Souto Maior desde hace varios años, y a quien considero uno de los pivotes de la ciencia folklórica brasileña y uno de los más sólidos en el folklore iberoamericano.

Es curioso que nuestra amistad haya estado en paralelo desde antes de conocernos con los trabajos que él publicaba en su país y yo en el mio. Iguales inquietudes, aunque distintos logros, pues él ha penetrado más hondamente en la vida tradicional de su pueblo: lenguaje cotidiano, creencias, alimentación, medicina popular, andanzas del Diablo etc., que es esto lo que escribe. De alli que más allá de la amistad, está la admiración por una obra que arranca de su mocedad romantica, allá por 1938, cuando publica Meus Poemas Diferentes.

Nada mejor para su nivel intelectual que el reconocimiento de numerosas instituciones que lo honran, incorporándolo a sus actividades, como la Comisión Pernambucana de Folclore, el Instituto de Estudios Folclóricos de São Paulo, la Coodinaci6n de Estudios Folkloricos de la Fundación Joaquim Nabuco, en quien reconocemos y valoramos como algo mítico por su obra fecunda y permanente.

Decididamente Mário Souto Maior eligió el camino de ilustres antecesores como Luís da Câmara Cascudo, Edison Carneiro, Napoleão Figueiredo, Manuel Diégues Junior y otros, que dejaron testimonio de las alegrías y preocupaciones de su pueblo, en una etapa de sus vidas, con la cuota de alegrias, tristezas y rebeliones interiores.

No podemos menos que saludar esta nueva obra del ilustre amigo Mário Souto Maior: Riqueza, Alimantação e Folclore do Coco, tema de ternura y hondura, que revelará más de una sorpresa.

Lá Historia del Folklore de Brasil tendrá que tener presente muchos de sus trabajos, pero fundamentalmente deberia poner énfasis en Dicionario Folclórico da Cachaça, en A Morte na Boca do Povo, en Território da Danação, Nordeste - A Inventiva Popular, Dicionário do Palavrão e Termos Afins, la Antologia do Carnaval do Recife y Folclore e Alimentação (Prêmio Sílvio Romero -1979, en Brasil) que mereció el Gran Premio Augusto Raúl Cortázar, que a nuestra iniciativa realizó el concurso, con extensión iberoamericana, el Fondo Nacional de las Artes, en 1989, y en el que fueron distinguidos también los investigadores Cáscia Frade, Paulo de Carvalho-Neto, Altimar Pimentel y Antônio Fagundes, lo que muestra la fecunda creatividad de este Brasil que ratifica el liderazgo cultural que lo distingue, en um país tan diferenciado geográfica, étnica, social y económicamente.

Desde luego creo que es muy importante destacar O Recife - quatro séculos de sua paisagem, organizado en colaboración con Leonardo Dantas Silva y en el que la nostalgia acerca las imágenes de un Recife legendario que va desde el siglo XVI hasta ei siglo XX, donde por suerte el progreso no ha borrado ni distruído el país anterior o, más modestamente, la ciudad anterior, la que fue, y gracias a Dios sigue siendo, atesorada de recuerdos, páginas literárias y arquitectura todavía presente, con lo cual todos sabemos o poderemos saber como era ese territorio, su vida tradicional, sus mercados y su economia.

Mário Souto Maior, figura consular del Brasil, cumple un destino ilustre que nos honra a todos los que somos sus amigos y nos hace sentirnos felices en esta hora que lo ubica en el cénit de su trayectoria cultural.

BUENOS AIRES, abril, 1993.
COLUCCIO, Félix. Apresentação de Riqueza, alimentação e folclore do coco.
Recife: 20-20 Comunicação e Editora, 1994

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Fernando Antônio Gonçalves

Rendo minhas homenagens aos construtores da cultura popular nordestina. Ela ainda não bateu pino graças aos esforços de um grupo de abnegados, que efetivam suas pesquisas sacrificadamente, tirando dos magérrimos próprios bolsos o necessário para divulgação dos seus estudos.

Nesse resistente universo, o lugar do folclorista Mário Souto Maior está no primeiríssimo escalão. Os seus livros Nomes Próprios Pouco Comuns, Dicionário do Palavrão e Dicionário Folclórico da Cachaça, subsidiam centenas de pesquisas, que necessitam de trilhas seguras e honestas, distanciadas dos embusteiros pesquisadeiros, macunaímicos e vivaldinos.

Ampliando a sua trilogia, o Souto Maior faz entrega à sociedade de um novo filão: Geografia Popular do Pau Através da Língua Portuguesa. Trezentas e cinqüenta expressões analisadas, sem resvalar para o chulo e o grotesco. Sem obscenizar seu meticuloso ensaio, ele demonstra como o pau contribuiu para as manifestações do nosso brasileiríssimo dia-a-dia de todo tragado pelos importados maneirismos primeiro-mundistas.

Imaginei logo uma pessoa muito distanciada das raízes da nossa gente entender o significado da frase "no largo da feira de Casa Amarela encontrei o dr. Fulano a-meio-pau, caindo pelas tabelas". Ou uma outra, recém-chegada do outro mundo, querelosa com os anos de bunda esfregada nos bancos póspósgraduação, ao não entender o pensar de um companheiro de universidade: "o deputado fulano de tal está sujo-que-nem-pau-de-galinheiro na CPI do orçamento".

Outro dia, uma faxineira declarava para uma madame toda perua que era pau-prá-toda-obra, indo logo por-cima-de-paus-e-pedras quando algum afoito desejava pôr-os-pauzinhos-ao-sol. E o marido da socialite quase cai em desespero, ao ouvir de auxiliar, alto e bom som, que estava de olho grande num pauzão e que por conta disso já estava ajeitando o pauzinho-do-matrimônio. E que o casório aconteceria rapidamente, pois gostava mesmo era de pau-na-égua. Pedia apenas ao dono da casa, autoridade de primeira entrância, que fosse na sua vara bulir-com-os-pauzinhos, pois, mais que ninguém, o patrão era habituado a conhecer-o-pau-pela-raiz.

Para não fazer-casa-com-pau-bichado, li, de cabo a rabo, o imperdível livro do Mário Souto Maior. Também não desejando ser pau-de-amarrar-égua, nem tolerando os que adoram viver-á-sombra-do-pau, fiz questão de ganhar-os-paus para me deliciar com a leitura da pesquisa do Mário, meu ex-companheiro da Fundação Joaquim Nabuco, pai do Jan, esse arretado da informática, consultor de tudo que é gente, inclusive burra que nem eu, um metido, vez por outra, a descobrir-o-mel-de-pau na minha área de trabalho.

Tomei ciência que souto, em Portugal, é bosque espesso. E o Mário Souto Maior, folclorista popular de primeira linha, nunca desejou mudar-de-pau-para-cacete, ficando sempre no bosque dele, convencido de que nem-todo-pau-dá-esteio. Bem que o prefeito Germano Coelho, alcaide olidense, poderia chamar o Souto Maior para uma conversinha exploratória, claro que deixando o Mário falar. Diante do professor Germano, o Mário iria passar-pelo-pau-do-canto. Nem o Coelho prefeito iria ficar-com-cara-de-pau, pois ladino como ele só, domina com maestria a situação, é formiga-que-sabe-que-pau-rói.

Não desejando deitar-os-pauzinhos-fora, esta crônica, com a licença do competente Ivanildo Sampaio, atento editor do JC, é uma demonstração de querer bem a um intelectual que jamais quis ser um dois-de-paus, em tempo algum desejando disputar-pau-a-pau com quem quer que fosse.

Um autêntico sábio nordestino, o Mário Souto Maior. Agrestino, jamais negou que se  um-dia-é-do-pau-o-outro-é-do-machado.

GONÇALVES, Fernando Antônio. Os paus do Mário.
Jornal do Commercio, Recife, 3/5/1994

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Fernando de Mello Freyre

Se alguma contribuição pude dar à importante presença da obra do folclorista Mário Souto Maior, neste país, talvez seja a de, na condição de dirigente da Fundação Joaquim Nabuco, retirá-lo dos trabalhos meramente burocráticos e entregar a ele a direção do Centro de Estudos Folclóricos da referida Fundação. Nesse Centro, ligado ao Departamento de Antropologia do Instituto de Pesquisas Sociais, Mário Souto Maior vem desenvolvendo um trabalho digno do maior respeito e atenção pelo dinamismo e resultados apresentados.

Mário Souto Maior é um pesquisador nato. Vive para pesquisar o nosso Folclore. Para avaliar a importância e repercussão de sua obra basta lembrar que ele é o autor, entre outros, do Dicionário do Palavrão o Termos Afins, de Como Nasce um Cabra da Peste, Antônio Silvino - Capitão de Trabuco, Nomes Próprios Pouco Comuns e Comes e Bebes do Nordeste. Sobre esse último livro que citei, entre tantos da sua autoria, assim se pronunciou o nosso poeta maior Carlos Drummond de Andrade: "É verdadeira enciclopédia da culinária regional, e ajuda a sentir e a compreender melhor a cultura nordestina".

Estou certo que, quando concluída, ou no seu conjunto, a obra de Mário Souto Maior terá a mesma importância, como fonte permanente de consulta dos estudiosos e de leitores do gênero, da de um Pereira da Costa.

Hoje, ao lado da obra do alagoano Théo Brandão, infelizmente já falecido, e da do rio-grandense-do-norte Luís da Câmara Cascudo - o maior folcIorista brasileiro vivo - o trabalho de Mário Souto Maior já se tornou indispensável a quem se interessar pelos hábitos, costumes, pela própria vida do povo brasileiro.

Agora, ele publica este Folclore Quase Sempre, onde contando pequenas estórias e escrevendo pequenos ensaios, todos ligados à vida do nosso povo, enriquece ainda mais a sua bibliografia. É um livro que se lê com prazer, um livro simples sem ter nada de simplório.

Honrou-me Mário Souto Maior solicitando-me para escrever um prefácio sobre este seu livro. Não fiz o prefácio. Mas acredito que prestei um breve depoimento de quem admira sua obra e é seu leitor. Um leitor que se orgulha de tê-lo como conterrâneo e colaborador na Fundação Joaquim Nabuco.

Recife, outubro, 1985
FREYRE, Fernando de Mello. Prefácio de Folclore quase sempre.
Recife: Editor Jadson Bezerra, 1986

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Fernando Pio

Acabo de ler (e com que encantamento) seu excelente NORDESTE – a inventiva popular – e, contra meus princípios de honestidade, não o pus na fila e transformei-o em feliz pára-quedista. E não me arrependi: o autor e o título mereciam, sem favor, esta nobre prerrogativa. Magnífico seu novo trabalho do qual retirei, para meu fichário, entre outras coisas, sua tão bem estudada pesquisa sobre o préstito do Cavalheiros da Época, em 1889.

Também o maracatu, a música sagrada dos terreiros, e o carnaval foram pontos muito especiais em minhas anotações principalmente este último, num aspecto de pesquisa pouco divulgada por outros estudiosos: a atitude do Papa Inocencio III, proibindo uso de máscaras pelos padres e o festejo do carnaval, dentro das próprias igrejas ... Quem sabe se já não estaria havendo o excesso de mela-mela!

Agora, um detalhe que, de certo, lhe dará satisfação: dois dos seus trabalhos, ora publicados, já constavam dos meus arquivos: Roteiro místico e folclórico da semana santa (publicado em Folclore no 75) e Visão etnográfica do fumo (separata da revista Reportagem – ed. No 7 – Agosto de 1976).

Como vê, meu querido Souto Maior, nada perco dos trabalhos de um pesquisador do seu gabarito. Eles valem, realmente, pelo esforço e honestidade de escritores do seu alto porte.

E, agora, só me resta mandar-lhe um palavrão enorme de agradecimento, palavrão que resumo numa única palavra: OBRIGADÍSSIMO pelo seu livro, meu querido Mário Souto Maior.

Um grande abraço do velho amigo e admirador

Fernando Pio
PIO, Fernando. Carta: Recife, 22/5/1979

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Geraldino Brasil

Que bom ter recebido teu livrinho Mulheres e ruas. Digo livrinho, evidentemente, carinhosamente, porque quanta força, quanta humanidade, quanto sonho ferido, quanta ilusão chumbada, quanta dor nos seus poucos poemas e gravuras que admiravelmente se uniram nessa expressão!

Nas suas reduzidas páginas, quantos, inumeráveis, dos dias e das noites da nossa pobre cidade sofredora, quantos estão aqui, vencidos, ofendidos nas suas i1usões mais puras!

Não é um livro de simples lembrança de rostos, de olhares tristes, de seios fanados. É um livro de um poeta que sofreu com a amargura dessas vidas e condenou todos os miseráveis canalhas que assassinaram o melhor e o mais puro que havia em Glória.

Meus parabéns pelo teu grande pequeno livro, com o pedido de que em meu nome abraces o Evaldo Viana que, com os teus poemas, expressou também a enorme tristeza das noites, escondida na alegria infeliz das mesas de bar, ou escondida sob o sorriso dos cumprimentos no recomeço sem esperança de amanhã.

Um abraço, um abração do verdadeiramente teu admirador.

GERALDINO BRASIL
BRASIL, Geraldino. Carta: Recife, 20/12/1984

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Geraldo Pereira

Do nosso ilustre Mário Souto Maior, o homem adjetivo, folclorista-mor deste burgo de Maurício, recebo: Riqueza, Alimentação e Folclore do Coco. Para minha surpresa, lá está, na folha das opiniões sobre o autor, o meu nome, inscrito assim, dentre os grandes da província, com transcrição de um texto escrito neste espaço, mesmo, a propósito deste gigante do regionalismo. Especialista em muita coisa, em histórias e estórias, Mário encanta pelo estilo leve e gostoso das narrativas e ninguém resiste à leitura, de um fôlego só, de suas obras, tão numerosas já. Delicioso quando fala das sogras ou das assombrações, de Comadre Fulozinha, por exemplo, que das matas surge pra fazer medo às crianças ou do lobisomem das noites sem luar. Do mesmo jeito o coco, numa abordagem multidisciplinar, do fruto e os conseqüentes costumes e hábitos, do linguajar, também.

Quem pode olvidar dos acepipes da infância preparados pelas avós com o auxílio do coco? O pé-de-moleque do São João, recheado de castanhas e temperado com erva-doce e cravo, posto à mesa antes das seis, precedendo a fogueira. Ou quem pode deixar de lembrar do doce que passava, de porta em porta, o japonês, vendido aos bocados, envolto num papel chulo e colorido? E o arroz-doce, a baba-de-moça e os beijinhos de coco? Estes – os beijinhos – serviam para se quebrar o gelo das moiçolas casadoiras, pedindo-se um beijo na dupla intenção, a do doce e a do ósculo, mesmo. Melhor o cuscuz, servido logo cedo, no desjejum, comprado, às vezes, na rua, quando o vendedor lançava nos ares do bairro o apito típico, madrugada, ainda, do especial quitute da manhã. Vendia-se, também, nas portas, o munguzá, trazido em vazilhas grandes de alumínio e distribuídos à freguesia com a concha, acessório indispensável à boa clientela. Restou, nos dias que correm, a delícia da tapioca, apreciada por todos e degustada com café, na boquinha-da-noite, na hora da ceia dos outrora encantados. Tudo isso exigia um ritual, o coco sendo ralado pela ama de casa sentada sobre o cabo do ralador, de lado e uma panela em baixo, aparando a polpa em pedaços assim, estirados, do fruto, em tudo, tropical. Depois, num pano de cozinha, tirava-se o leite, espremendo-se, às últimas, o tecido à chita. Hoje, os bons mercados já vendem, industrializado, esse suco das intimidades.

Ritual ainda maior o do tirador de coco, que se utiliza de duas peias de couro e galga o tronco comprido, geralmente, da árvore dos trópicos. Vai lá em cima proceder à colheita, jogando das alturas coco por coco, até descocar a copa. Repete a operação vezes seguidas, até que tenha dado conta do terreno inteiro, metro por metro. A seguir, os veranistas de ocasião e os turistas acidentais vão sorver, a goles da degustação, o precioso líquido, do qual muita coisa se tem contado. Se diz, até, que durante a grande beligerância internacional foi transformado em soro e injetado nas veias dos feridos, promovendo maravilhas em termos de recuperação. Na praia de Pau Amarelo, recanto de meus encantos, um popular que nunca subiu em coqueiro viu-se obrigado à proeza. É que o cão de amigo meu, Diário de prenome, de raça, muito apreciada, aliás – Fila –, quase agride o passante desavisado, levando o incauto às vizinhanças do palmito. A noite inteirinha nessa condição inusitada de fuga, fez do homem um trapo, quando o dia raiou e o caseiro – o Zé das devoções às hierarquias militares – retirou a fera. Do mesmo jeito o Getúlio, que na praia coze a lagosta ao coco e que ficou, em claro, madornando, apenas, quando o animal se calava do persistente latido.

O povo usa certas expressões, como as que estão no livro de Mário, ligadas ao fruto de boa água e de deliciosa polpa. Ninguém desconhece essa: "Quem é besta é coco, tem três olhos e ainda acha pouco!" Justificava-se assim um procedimento qualquer com alguém que fazia os outros de besta. Ou aquela outra, dita na oportunidade de um elogio à figura feminina dos encantos da rapaziada: "Um docinho de coco!" Que beleza! Que ternura! Nunca mais ouvi as pessoas dizerem galanteios assim, em tudo, afetivos, sobretudo ternos! Mas, do coco – toda gente sabe disso – muita coisa se pode fazer e no passado os meninos de classe média raspavam o chão a quengas e fabricavam os próprios botões para o jogo de mesa, aparando-os, depois, no cimento, mesmo e dando o acabamento à gilete furtada do pai. Eram bons beques ou atacantes quando menores. Tudo isso e muito mais está no livro do Maior, o homem adjetivo!

PEREIRA, Geraldo. O folclore do Coco. Jornal do Commercio. Recife, 26/5/1994

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Getúlio Araújo

Por um capricho dos deuses, o crepúsculo desfazia-se rápido, em noite de céu estrelado. Na fria madrugada, os galos cantaram na pacata Bom Jardim, interior de Pernambuco, anunciando o nascimento do varão Mário Souto Maior, em 14 de julho de 1920. Na França de Honoré de Balzac, festejava-se a Queda da Bastilha.

Em depoimento para o CD-livro Como nasce um cabra da peste, intitula-se como um homem bem-humorado. Muito buliçoso, quando menino gostava de caçar passarinho e lagartixa, com baladeira; jogava castanha na calçada; furtava goiabas e cajus; brincava de Lampião e Antônio Silvino, com frutas de jurubeba; comia nambu assado e tomava leite ao pé da vaca na fazenda do seu avô materno – Presciliano da Mota Silveira.

Proseando pelo telefone, me disse que encontrou muitas dificuldades que lhe ensinarem a dar nó em pingo d’água, beliscão em fumaça e subir em bananeira com tamancos.

Esse é o verdadeiro Mário Souto Maior, uma personagem sui generis, de boa verve, que espraia humor à flor da pele, brincalhão e culto.

Na adolescência, foi residir no Recife, onde estudou no Colégio Marista e fez o pré-jurídico no Colégio Carneiro Leão. Bacharelou-se em Direito no Estado de Alagoas. Foi prefeito de Orobó, promotor público das comarcas de ,Surubim e Bom Jardim. Foi também Inspetor Federal de Ensino, do Ministério da Educação e Cultura.

Fundou, com Nestor de Holanda, Guerra de Holanda e Pelópidas Soares, o Jornalzinho Geração. Colaborou no Suplemento Cultural do Jornal do Commercio e Diario de Pernambuco.

Convivendo com Lêdo Ivo e Breno Accioly, tornou-se poeta. Estreou em livro aos 18 anos, em 1938, com Meus poemas diferentes.

Vem desenvolvendo excelente trabalho na Fundação Joaquim Nabuco, onde exerce o cargo de chefe da Coordenadoria de Estudos Folclóricos. É sócio-correspondente dos Institutos Históricos do Espírito Santo, de Goiás e do Rio Grande do Norte.

QUINTAL SOLARENGO

Em Olinda, meca da inspiração do poeta folclorista, vive modestamente, ao lado da esposa, filhos e netos. Em meio a sobrados, igrejas, conventos e chafarizes está a sua Casa Grande, abarrotada de livros, quadros, esculturas; com o seu quintal solarengo cheio de fruteiras: mangueira, goiabeira, aceroleiras, mamoeiros e laranjeira.

Quando o assunto é folclore e religiosidade, Olinda também tem muito para mostrar. Não é à toa que recebeu o título de Cidade do Carnaval, ancoradouro de inteligências privilegiadas, habitat de artistas plásticos, cantores e escritores: João Câmara, Gilvan Samico, Raul Córdula, Alceu Valença e o incansável escritor Mário Souto Maior.

EMÉRITO PESQUISADOR

Mário Souto Maior tem o biotipo de hermitão. Boa verve, é um escritor compulsivo, desenvolvendo meritório trabalho na Fundação Joaquim Nabuco, com pesquisas nas áreas de Folclore, Etnografia e História, que enriqueceram a cultura brasileira. Homem simples, madrugador, fídalgo, extremamente comunicativo, Mário Souto Maior não é apenas o folclorista e escritor consagrado no Nordeste, mas o ensaísta de múltiplos méritos. Um escritor preocupado com a preservação das nossas tradições folclóricas e a qualidade do ensino nas escolas públicas.

Ele sempre valorizou o homem nordestino em suas diversas vertentes folclóricas, estudando as crendices, as superstições, os hábitos alimentares. Já publicou 55 livros, dos quais os mais destacados são: Como nasce um cabra da peste (1969), Cachaça (1971), Antônio Silvino - Capitão de Trabuco (1971), Dicionário da Cachaça (1973), A morte na boca do povo (1974), Nomes próprios pouco comuns (1974), Dicionário do Palavrão e Termos Afins (1980), Antologia do Poesia Popular de Pernambuco (1989), Riqueza, alimentação e folclore do côco (1994), Geografia vocabular do pau através da língua portuguesa (1994), A mulher e o homem na sabedoria popular (1994), Os mistérios do faz-mal (1996), Orações que o povo reza (1998), A mulher que casou uma cobra (1999) e o Dicionário de Folcloristas Brasileiros (1999), muito elogiados pela crítica.

Assim, Souto Maior escreve compulsivamente, cada vez mais, em estilo simples, construindo uma obra rara na folclorística brasileira, que enriquece os anais de qualquer país.

O ABRAÇO DE GOIÁS

A homenagem ao seu aniversário, 80 anos, bem-vividos, de profícua produção folclórica, etnográfica e histórica, engrandece o seu Estado, Pernambuco, excelente abastecedor de seu gesto criativo.

Como seu amigo e admirador, estarei presente para abraçá-lo e entregar-lhe o merecido diploma de sócio-correspondente, outorgado pelo Instituto Histórico e Geográfico de Goiás. Na oportunidade, estarei representando o presidente deste Instituto, o historiador José Mendonça Teles.

Parabéns! Viva o Brasil folclórico de Mário Souto Maior!

ARAÚJO, Getúlio. O Brasil folclórico de Mário Souto Maior.
Gazeta de Goiás, Goiania, 27/5/2000

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Gilberto Freyre

Na elaboração do livro Dicionário do palavrão e termos afins, o autor resguardou-se severamente deste risco: o de que a aparência de trabalho científico servisse de pretexto para a salacidade. Não se trata de obra salaciosa sob a aparência de erudita. Nem sequer o autor acolheu, para ilustração de explicações de alguns termos porventura menos concretos, trechos de escritores brasileiros de hoje – vários dos quais vêm se extremando no abuso desnecessário, e com intuito por vezes comerciais, de palavrões – que perturbassem o caráter do livro, tornando-o, nessas ilustrações, vulgarmente obsceno ou fescenino. Mais: parecendo fazer do autor do Dicionário um auxiliar de uns poucos diretores no generalizado afã do atual, da parte deles, de comercialização de quanto seja tema ou vocábulo sexual ou termo ligado às funções digestivas do homem.

O que fez o autor, elaborando um dicionário do palavrão e termos afins, foi reconhecer a existência desses termos na língua portuguesa; apresentá-los, ligá-los, do ponto de vista semântico completado pelo folclórico, ao que se pode talvez denominar uma ecologia, em nosso idioma, dessa espécie de linguagem – sendo, talvez, essa linguagem, na língua portuguesa, menos abundante e menos rebarbativa do que noutras línguas. Seu levantamento não deixa de se impor como um conjunto que se indique a sua extensão; e que precise, ao lado da sua variedade de origens populares predominantes sobre as eruditas, o seu volume. A riqueza de suas metáforas. Seu colorido ou sabor ecológico e até telúrico.

O Dicionário destina-se, dentro do critério, além de semântico, sociologicamente folclórico, a definir os termos que apresenta. O que faz linearmente. Sem sugestões outras que dêem ao Dicionário o aspecto de obra não simplesmente erótica porém neurótica: o caso de grande parte de obras atuais, quer de ficção, quer de teatro, que, na aparência, eróticas, são, na verdade, isto: neuróticas.

O estudo sobre o palavrão na língua portuguesa que o Dicionário elaborado pioneira, lúcida e pertinentemente por Mário Souto Maior representa não é nenhuma exploração dos aspectos saliciosos que o autor poderia apresentar enfaticamente do assunto, disfarçando salicidade com o rótulo de estudo ou a simulação de ciência. Ciência folclórica ou ciência semântica. Mais do que isto, é uma sociologia ou ecologia do palavrão na língua portuguesa do Brasil. Quem versa a matéria é intelectual consciente de sua responsabilidade e cioso de sua dignidade de homem de letras e de homem de ciência como é Mário Souto Maior. Inevitável é, no trato de assunto tão complexo, a inclusão, por vezes, de caracterizações do que, nessas palavras, é sugestão de quanto, no comportamento sexual do homem – tema de memorável pesquisa de Kinsey – ou no exercício de suas funções digestivas – assunto de obra clássica em língua inglesa: o Tale of a Tub, de Swift – contradiz, quando dito ou escrito com todos os ff e rr, normas dominantes de moralidade; ou de moralismo; ou, simplesmente, de bom-tom, de etiqueta, de boas maneiras; e, em certos casos, convenhamos que de bom gosto. Um bom gosto que tem os seus direitos em qualquer criação artística ou linguagem literária ou teatral que se resguardem do acanalhamento.

Nada, porém, de sacrificar-se o trato do tema – sexo – em literatura, ou em arte ou em história ou ciência social, a exigência de etiquetas em que se exprimem arbitrários tabus. Exigências que, através do moralismo de mal informadas censuras policiais, atinjam um Wilde, um Joyce ou um Lawrence ou um Gide. Não nos esqueçamos de que, na Europa Vitoriana, houve tempo em que, em certos meios mais pudibundos, era impróprio falar-se em "pernas de mesa". Vivia-se a época das saias compridas e até de cauda. Das pernas de mulher de todo escondidas. Das curvas naturais das nádegas disfarçadas pelas artificiais das anquinhas.

Considerado do ponto de vista quanto possível cientificamente folclórico ou cientificamente semântico ou cientificamente sociológico – como no Dicionário que agora aparece – o palavrão é elemento útil para a caracterização do ethos de uma sociedade ou das constantes de uma cultura ou da identificação de um tempo social. Das constantes e das origens dessa cultura. Das tendências dessa sociedade. Dos pendores desse tempo social. Pena, a esse propósito, que Mário Souto Maior não tenha se valido de maior número de exemplos clássicos. Clássicos literários e clássicos da crônica histórica. Matéria que poderia ter acolhida não só em Bocage e Guerra Junqueiro, como em Gil Vicente, em Gregório de Matos e em documento valioso do século XVI: as catolicíssimas Denunciações do Santo Ofício. Nestas, o autor deste prefácio, ao elaborar, no começo da década de 30, seu Casa-Grande & Senzala, deparou-se com expressões grosseiras e surpreendentemente obscenas da parte de colonos com aparências de virtuosos. Expressões que registrou no livro, como "jurar pelos pentelhos da Virgem" e "ardor de rabo". Expressões nas quais o médico-antropólogo inglês John Sargant comunicou a esse seu colega brasileiro ter encontrado sugestões do maior valor para os estudos que o consagram mestre de renome internacional em Psicologia Social.

Do palavrão, pode um pesquisador valer-se como um dos elementos que o auxiliem a concluir que, no comportamento sexual de uma sociedade, é ecológico e culturalmente condicionado. A que sugestões de origem animal ou vegetal se prendem esse comportamento e a linguagem e os gestos que lhe são próprios, quer secreta, quer ostensivamente. E, quase sempre, os gestos, expressiva e simbolicamente. No Brasil, banana e cipó, por exemplo. Bode. Vaca. Cobra. Borboleta. Veado. Manzape. Tomates. Ovos. Nabo. Boto.

Sugestões a que se juntam as mágicas, as animistas, as fetichistas, as subconscientes, as dos sonhos. Sonhos tão ligados à cultura popular brasileira através de interpretações para o "jogo do bicho", nas quais por vezes se faz presente o elemento erótico. Assunto que merece ser versado por discípulo brasileiro do admirável mestre francês no assunto que é Jean Duvignaud.

O Dicionário organizado por Mário Souto Maior não se aprofunda em estabelecer essas correlações, que seriam de caráter mais que folclórico ou semântico: psicológicos-social. Antropológico em profundidade. Não vai a tanto. Nem entra na carcaterização de origem étnico-culturais ou histórico-sociais de alguns brasilerismos eróticos. Xumbergação, por exemplo: vocábulos estudados magistralmente por Alfredo de Carvalho. Tais aprofundamentos não caberiam num dicionário: obra de síntese. E como obra de síntese, o trabalho do Mestre Mário Souto Maior se apresenta admirável.

Puramente explicativo, como é, sem revelar na divulgação, a título de exemplos do apenas salacioso, do apenas fescenino, do apenas acanalhado de expressões, os exemplos colhidos em obras de escritores e semi-escritores atuais do nosso país representam contribuição deveras esclarecedora para a interpretação – acentua-se – do ethos brasileiro. Inclusive em contraste com o português da Europa através das duas linguagens obscenas, a do Brasil e a de Portugal. Curioso encontrarem-se palavras de uso ou abuso obsceno no Brasil, como boceta, que em Portugal têm apenas o sentido de descrição de objeto nada ligado a sexo. O inverso acontece com a palavra tomates: em português de Portugal, na sua conotação sexual, o mesmo que testículos. Ou, no Brasil, ovos, e em inglês nuts.

O Dicionário que agora aparece apresenta dos palavrões brasileiros o que neles é corrente, vivo, comunicativo, sugestivo. Corrente nas ruas, nos mercados, nas oficinas, nos ajuntamentos de homens mais do que de mulheres, embora haja hoje tendência para umas tantas mulheres – sobretudo jovens – de classes médias e altas, e não apenas da plebe, usarem, mais como simples palavras enfáticas do que como os palavrões de outrora, termos como "fresco", "frescura", "esculhambar", "esculhambação".

O autor do Dicionário evita a pornografia pela pornografia, embora não pretenda estrangular o que é erótico na língua portuguesa do Brasil: o comunicativamente erótico ou o apenas descritivamente erótico. Seria um moralista caturra se se apresentasse, no seu Dicionário, como um antierótico, a exibir repugnância pelo que é vivo e corrente na linguagem mais secreta que aberta, porém de modo algum inexpressiva da sua e nossa gente. Fixa predominâncias regionais. Acentua usos generalizados no país inteiro ou quase inteiro. Revela-se conhecedor tanto de escritores literários – embora algumas deficiências possam ser apontadas nesse setor – como do próprio linguajar plebeu do Brasil. É, assim, um trabalho, este, que faltava aos estudos sociais, folclóricos, semânticos, desde a década de 20 tão em desenvolvimento no Brasil; e tão característicos do afã do brasileiro do conhecer-se cada dia mais a si mesmo e de, cada vez mais, interpretar-se por seus próprios intérpretes.

Apipucos, maio, 1979
FREYRE, Gilberto. Prefácio do Dicionário do palavrão e termos afins (7a. ed.).
Rio de Janeiro/São Paulo: Editora Record, 1998

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