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Dante de Laytano

Recebi, e com que prazer, seu interessante, otimo e bem escrito livro, aliás uma contribuição não apenas curiosa no campo do folclore mas animada de uma viva prova testemunhal recolhida no habitat rico de tradições populares de seu Pernambuco de tanta história, presença e beleza. COMO NASCE UM CABRA DA PESTE é antológico, e registra em linguagem agradável, em português dignificado, alguns magníficos estágios da alma popular no trânsito pelas regiões nordestinas, depositárias de uma vivência imaculada de sonho da gente simples que faz folclore. Parabéns. Seu leitor,

Dante de Laytano
LAYTANO, Dante de. Carta: Porto Alegre, 15 / 10/ 1969

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Dino Pretti

Pode-se dizer que existe no Brasil um grupo de pesquisadores devotados a uma lexicografia popular, que realizam suas pesquisas e as publicam nem sempre dentro daquelas rígidas normas da ciência dos dicionários. Estamos referindo-nos aqui à lexicografia, não como ciência que estuda as normas que presidem a elaboração das pesquisas do léxico (ou a análise lingüística dessa técnica). Estamos falando de uma "prática lexicográfica" que, na verdade, é muito antiga, anterior mesmo à própria invenção da imprensa. Essa contribuição, nem sempre levada em conta pelos cientistas do léxico, não raro constitui preciosos caminhos abertos para uma pesquisa mais em profundidade do léxico popular, da maneira desconhecida e original como as pessoas simples do povo criam a sua arte de dizer as coisas, intimamente ligada à sua cultura e aos seus costumes.

No Brasil, essa atividade tem-se misturado com a pesquisa folclórica e são muitos os autores que rechearam seus verbetes com a descrição dos costumes e tradições do povo brasileiro. Na linha dessa pesquisa popular estão, além de Mário Souto Maior, muitos outros nomes, dos quais lembramos, de passagem, Nelson Barbalho (Dicionário do açúcar); Carlos Queirós Telles (Manual do cara de pau), um dos primeiros a recolher o fenômeno dos jargões profissionais; Horácio de Almeida (Dicionário erótico da língua portuguesa); Nivaldo Sariú (Dicionário do baianês); Ariel Tacla (Dicionário dos marginais); Florival Serraine (Dicionário de termos populares, registrados no Ceará); Tomé Cabral (Dicionário de termos e expressões populares) e muitos outros.

Permanecendo, quase sempre, dentro dos limites da cultura regional, esses autores realizam uma contribuição importante dessa prática lexicográfica, embora, algumas vezes, tenham caminhado pouco atentos à complexidade das regras técnicas de composição dos dicionários, de acordo com a lexicografia contemporânea.

Alguns, como Mário Souto Maior, voltaram seus interesses para uma grande variedade de temas e realizaram muitos trabalhos, de pequeno porte, mas preciosos pela riqueza das informações colhidas. Assim, lembramos um dos livros mais originais e representativos da cultura brasileira (mais especificamente do Nordeste), que constitui uma contribuição original à Antroponímia, em nosso país. Nomes Próprios Pouco comuns (já em 3ª edição), pesquisa realizada sobre nomes extravagantes recolhidos em cartórios, registros civis e outras fontes, em todo o Brasil.

O mesmo autor, ainda, trabalhou sobre o tema da cachaça, publicando seu Dicionário folclórico da cachaça, que apresenta subsídios preciosos para a compreensão de inúmeros vocábulos e frases ligados à cultura que surgiu paralela à lavoura açucareira do País e se espalhou até pelos grandes centros urbanos.

Os limites de Mário Souto Maior, pesquisador pernambucano de Bom Jardim, vão além de sua cidade e de sua região. Em 1988, surpreendeu os lingüistas brasileiros com o seu polêmico Dicionário do palavrão, obra por nós saudada pela imprensa paulistana como uma contribuição efetiva para o estudo do léxico popular, despojado do ranço preconceituoso dos filólogos.

Com mais de trinta obras publicadas, Mário Souto Maior continua a ouvir o povo, a contar suas histórias, a esquadrinhar dicionários, obras regionais, revistas e jornais, para reunir vocábulos, falar da origem das frases e dos provérbios, contar a história das palavras.

Em Geografia vocabular do pau, seus limites regionais se alargam, recolhendo exemplos que remontam não só ao território brasileiro, mas também a Portugal, Ilha da Madeira e Moçambique.

Um primeiro exame dos verbetes que compõem este vocabulário, permitirá ao leitor constatar que o folclorista e etnógrafo da Fundação Joaquim Nabuco, do Recife, revela um cuidado maior no tratamento das técnicas lexicográficas, indicando sempre que possível a origem das expressões, abonando-as com as fontes escritas e literárias, sempre atento às referências bibliográficas.

Das expressões formadas com a palavra pau (cerca de 350), pode-se dizer que, aproximadamente, uma centena faz parte da linguagem usual brasileira (considerando-se como tal aquela registrada pelos jornais e pela mídia, em geral). Essa porcentagem é razoável para o interesse imediato do consulente, mas o registro das demais é uma tarefa igualmente importante para a lexicologia brasileira, no sentido de não se perderem as ligações culturais entre o vocábulo e seu contexto cultural, como, por exemplo, ocorre em verbetes como pau de mochiba, "vassourinha improvisada para escovar dentes, na Bahia antiga"; ou pau de virar tripa, moça magra no Nordeste", etc.

O autor não insiste muito na área semântica erótico-obscena das expressões, em que pau figura como símbolo fálico, importantíssimo numa sociedade de raízes rurais e, portanto, extremamente machista, como a nossa. Assim, em falta de pau indica-se apenas a significação nordestina de "alguém que está merecendo um corretivo" ou a de "alguém que tem comichão nas costas", originária da Ilha da Madeira. Mas omite-se o sentido obsceno de "mulher necessitada de relações sexuais, para se acalmar, para tornar-se mais sociável", muito comum na linguagem popular masculina da cidade grande, uma evidente marca do machismo predominante no país, apesar das conquistas da mulher contemporânea.

Predominam nos verbetes as áreas, semânticas ligadas às práticas rurais ou da pequena cidade (quase sempre do Nordeste), como em expressões do tipo O burro e a mulher, a pau se quer; ou pau de lata, que remetem imediatamente a contextos culturais específicos.

As expressões reais ou metafóricas, as redes de sentido que se referem a uma área semântica erótico-obscena poderão, quem sabe, propiciar a ampliação deste vocabulário, em futuras edições, pesquisando-se o contexto urbano das grandes cidades brasileiras, em que o vocabulário pau entrou na formação de expressões que demonstram a violência urbana, como meter o pau (já incluída na obra), na acepção de "falar mal de alguém", como se o ato se transfigurasse semanticamente em "bater em alguém com um pau".

Mas Mário Souto Maior – esse escritor incansável – sabe que a Geografia vocabular do pau não se encerra aqui nesta primeira edição e que certas áreas semânticas poderão vir a ser mais exploradas (principalmente numa pesquisa por questionário), enriquecendo-se e atualizando seus verbetes. Como uma boa testemunha da linguagem do povo, o autor certamente reconhece que esse movimento incessante das palavras que vem e se vão (e, às vezes, tornam a vir) é uma marca de efemeridade cultural contemporânea, onde os fenômenos acontecem rápidos, as tradições se perdem também depressa, levadas pelo progresso e pelo crescente processo de uniformização cultural dos povos, sob a influência, cada vez maior, dos modelos do primeiro mundo.

PRETTI, Dino. Prefácio de Geografia vocabular do pau através da língua portuguesa. Recife: 20-20 Comunicação e Editora, 1994.

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Dulce Chacon

O professor Mário Souto Maior enviou-me uma plaquete com o sugestivo título: Como nasce um cabra da peste.

Através do vivo e ágil depoimento de sua vida, passei a conhecer o autor, desde o nascimento na cidade de Bom Jardim até o dia da publicação da plaquete acima referida. A infância foi a de quase toda criança nascida antes dos apartamentos, das casas sem quintal e das campinas transformadas em praças ou em prédios, chupou dedo, caçou passarinho e lagartixa (com certeza chamava largatixa), jogou castanha, tirou frutas da árvore do vizinho, brincou de bandido. Tudo, enfim, o que uma criança normal faz, pensa e pergunta.

Destaca-se logo a facilidade com que o Professor Souto Maior escreve num estilo agradável e atraente para o leitor sem falar nas boas risadas e nas reflexões que fará diante dos capítulos que fará diante dos capítulos. Rapadura batida e outras complicações, sexo e enxoval, cachimbo, risada e careta, canja de galinha arrepiada e parto, seus vexames e suas dores, o cheiro de alfazema perfumando a casa com seu cheiro de menino novo.

Como perceberão os leitores, trata-se de um documentário sério e ao mesmo tempo divertido de pesquisas em torno dos aspectos peculiares à gestante no Nordeste com inúmeras crendices das mais disparatadas e anti-higiênicas até as mais engraçadas, devido à ciências infusa das modestas porém úteis parteiras também chamadas curiosas, cachimbeiras, aparadeiras ou comadres.

Tais crendices ainda se encontram no Interior onde não existem médicos, maternidades nem postos de higiene e onde se recorre à medicina caseira dos chás. E muitas daquelas superstições ainda se praticam nas cidades e no próprio Recife.

O professor Mário Souto Maior soube mostrar-se um amigo de nossas velhas e originais tradições. Procurou retirar do passado o que se tem feito e dito acerca da gestante nas horas agoniadas do parto. Numa linguagem simples, ora maliciosa, ora cheia de euforia o autor vai descrevendo nessa plaquete as crenças, as superstições, os usos, os costumes, o vocabulário e o seu simbolismo vindos de nossos antepassados distantes do Brasil colônia.

Não procurou burilar nem modificar o que os antigos, animados de uma crença infantil pensavam das pessoas, animais e objetos. Por exemplo, o poder mágico da chave, tido como um amuleto, herdado dos latinos.

Possui o autor capacidade para nivelar-se aos nossos melhores folcloristas como Câmara Cascudo, Artur Ramos, Renato Carneiro Campos, Getúlio César e tantos outros espalhados pelo imenso Brasil tão rico em tradições populares, principalmente o Nordeste.

Às vezes, aquelas tradições permanecem escondidas ou quase esquecidas, mas o folclorista desce ao mais profundo das origens e traz, não digo rejuvenescidas, porém autênticas na sua eterna poesia, ingenuidade, esperanças e sabedoria.

Todo este conjunto de usanças, umas aparentemente compreensíveis, outras, sem sentido aparente, contribui para conservar intacto o uso de certos costumes que a civilização na pessoa do médico, da enfermeira, da assistente social, vai corrigindo, eliminando aos poucos e passam a ficar enclausuradas no silêncio do tempo.

Revelam, apesar da ingenuidade de seus conceitos, o gênio inventivo das populações rurais, alcançando até as cidades com as superstições tão nossas conhecidas, como a do sapato virado, roupa pelo avesso, espelho quebrado, passar debaixo de uma escada, etc...

Nasceram desde tempos imemoriais e apesar de aparentemente ingênuas exprimem a psicologia dos nossos antepassados cheios de insegurança, de temor do desconhecido, da escuridão, de animais fantásticos, em que o medo, ontem como hoje, constituía a motivação de suas fantasias.

Destas fantasias fez o professor Souto Maior uma fundamentada pesquisa sem qualquer ranço científico como frisa Mauro Mota na orelha do livro.

Sem dúvida alguma, uma boa contribuição ao folclore nacional.

CHACON, Dulce. Como nasce um cabra da peste.
Jornal do Commercio, Recife, 21/10/196

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Edigar de Alencar

Ao que parece, o Rio descobriu a culinária nordestina. São inúmeros os restaurantes da cidade com cardápios típicos do Nordeste, que se enfileiram à extraordinária e suculenta feijoada carioca, prato de sustentação dos sábados e domingos da maioria dessas casas. Na verdade, a cozinha do Nordeste gostosamente variada e tropicalmente colorida, há muito vem merecendo o devido destaque não somente no Rio mas também em São Paulo e no Extremo Sul. Território rico em iguarias que vão dos peixes aos frutos e doces, de lá nos vem, a famosa lagosta, o camarão–pitu; a carne-de-sol e os frutos e sucos melhores do mundo.

Claro que não se trata de um competidor dos acepipes de tradição secular das estranjas, com seus nomes franceses, seus vinhos mundialmente célebres, seus uísques escoceses ou nacionalizados, das delícias requintadas das colunas sociais. Mas até mesmo no setor do álcool, aí está a cachaça nordestina a penetrar vitoriosa, quer na sua natural pureza, quer batizada com arte em batidas, algumas delas verdadeiros achados para os gargantas-secas nativos ou advenas.

É, assim, oportuníssimo o livro Comes e Bebes do Nordeste, do incansável polígrafo pernambucano Mário Souto Maior, edição Massangana, da Fundação Joaquim Nabuco. Com substancial introdução sociológica e sociográfica de Sebastião Vila Nova, o livro pernambucano, de caprichosa apresentação gráfica, é utilíssimo repositório com receitas em ordem alfabética das mais características invenções gastronômicas do Nordeste. Não só as receitas com sua origem, mas também os comentários do etnógrafo e folclorista. Nas suas páginas, nós vamos encontrar receitas cuja simples leitura nos deixará de água na boca. Do simples angu ao aluá , injustamente esquecido, ou aos pratos mais valentes como a buchada, o sarapatel e até a frigideira de camarão sem camarão ...

Paradoxal é que seja o Nordeste das secas e dos flagelos climáticos, o dono dessa cozinha de tanta riqueza e força gustativa. O Nordeste faminto (vá lá o termo) que possa e deva ensinar ao resto do Brasil os melhores quitutes da terra. Sei que a afirmação ofenderá os requintados do paladar, fetichistas da exausta cozinha internacional. Mas a verdade é que aconselho aos mais teimosos a não lerem o Comes e Bebes do Nordeste para não sentirem reações estranhas e voluptuosas. Não se afoitem; se degustarem suas páginas provocadoras e passarem da teoria à prática executando algumas das receitas do saboroso e bem condimentado livro. Se o fizerem, estamos certos, porão em perigo a sua (deles) postura olímpica dos gastrônomos, supercivilizados.

E para o fecho desta nota, uma das receitas da preciosa coletânea, com o final comentário do autor, destinada especialmente às senhoras:

Amarra-Marido. Batem-se as claras de seis ovos até o ponto do suspiro. Juntam-se, então, as gemas; dois pires de batata-doce cozidas e machucadas, um pires raso de farinha de trigo, uma colher de sopa de manteiga, um copo de leite de vaca, uma pitada de canela em pó e açúcar para adoçar. A fôrma deve ser de ágata que é para o doce não ficar preto; deve ser untada com manteiga, levada ao forno regular, isto é, nem frio nem quente. (Do caderno de Arte Culinária de Alda Mota Barbosa de Arruda, quando aluna da Academia Santa Gertrudes, Olinda, 1938.) E agora o comentário do autor do livro: Esta receita diz respeito ao tempo em que as mulheres tentavam conquistar os homens pela boca, isto é, pelo paladar. Uma mulher que além das qualidades próprias do seu sexo, soubesse fazer pratos gostosos tinha maiores possibilidades de segurar seu marido; mesmo porque era voz corrente de que os homens e os peixes tinham uma coisa em comum: ambos morrem pela boca. Hoje...

ALENCAR, Edigar de. Comes e bebes do Nordeste.
O Dia, Rio de Janeiro, 13/11/1984

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Eliezer Rosa

Este é um momento espiritual superior que eu poderia ter desejado, mas nunca esperado que me chegasse. Estar presente num livro de Mário Souto Maior, associar meu nome a um trabalho da importância científica deste Dicionário é, sem dúvida, uma honraria que me torna soberbo. Importa dizer que ambos, o autor e eu, não fazemos a apologia do palavrão. Nem ele nem eu gostamos da coisa. Mas o palavrão é um fato da língua ou, talvez melhor, da linguagem cotidiana. Também o médico não gosta das doenças, mas delas trata, por amor do doente e não de suas moléstias e enfermidades. A técnica, ainda das coisas do espírito, é indiferente a seus fins, disse-o um celebrado jurista-filósofo que encheu de brilho uma parte da legislação que nos rege. Só o artista participa subjetivamente da obra que realiza. O cientista trabalha sobre os fatos de sua ciência, a bem dizer impessoalmente. O artista cria. O cientista observa e dá conta do que viu, do que descobriu. O que lhe importa é a verdade ou a veracidade dos resultados, não a sua bondade. O autor é homem de Ciência e também de Arte. Aqui foi o cientista, não artista. Nenhum matemático é responsável pela soma das parcelas que estão alinhadas no papel debaixo de seus olhos, sob condições de ser a soma exata. A exatidão das parcelas não lhe toca examinar. O que avulta e torna, ao primeiro súbito de vista, um tanto suspeito o trabalho que ora aparece em feitio de livro é o seu título. A lombada de um livro fá-lo apetecível ou repulsivo. E uma grande maioria vê apenas o título. Dar nome a um livro é obra de aturado labor psicológico, como nomear um filho. Um título e um prefácio, por si sós, fazem o bom ou o mau sucesso de um livro. É assim em toda parte. Vivemos das aparências. Vi uma dama entrar afoitamente na livraria e pedir um livro que estava na vitrina, empolgada pelo título. A ela lhe pareceu um saboroso e, talvez, picante romance, quando em verdade, era um austero calhamaço técnico de problemas jurídicos. Estou que o trabalho de Mário Souto Maior ganharia em seus altos objetivos, isto é, seria compulsado, lido e relido, estudado e meditado, por uma ampla maioria de leitores (já não digo estudiosos, porque estes não se preocupam com títulos de livros) se lhe houvesse dado o sabedor e amoroso autor um nome diverso. Trata-se de um levantamento da gíria, da linguagem especial, ou, talvez, de uma língua especial de minorias; de palavras, expressões e modismos que fazem parte do linguajar do povo. Avalia-se a riqueza espiritual de um povo por sua Língua, por sua linguagem e por seu linguajar, vitral de belezas, de sutilezas, de impertinências, de impudicícias e incontinência verbal. Um livro, como este, é um balanço e um inventário de um aspecto da cultura de nossa gente, do nosso meio e do nosso tempo. Não visou o autor a agradar, mas a expor e mostrar fatos. E o fato é o fato. Gostemos ou não. Um cientista não pode cultivar a hipocrisia diante de sua Ciência. É sempre um indiscreto: vê e fala do que viu. Terá de ser sempre um saco roto, nada guardando, nada ocultando daquilo que, em suas longas e angustiosas vigílias, descobriu. Será sempre um inconfidente, contando aos outros os segredos que seu labor lhe revelou. Aqui, o que seria defeito de comportamento social é qualidade, é virtude amável. Ao homem de Ciência está sempre presente aquilo da Bíblia: clama e não cesses de clamar.

Não se escreve e publica um livro de ciência para o gosto pessoal dos leitores. Escreve-se simplesmente. Publica-se simplesmente. É dever. E quem está obrigado só tem uma coisa a fazer: é desobrigar-se. Contraiu Mário Souto Maior um débito para com todos. Pagou o débito, extinta está sua obrigação. Fez sua prestação e dela todos nos beneficiamos, Éramos seus credores, como o somos de todos os que cultivam a aspérrima seara do saber. Semear. Colher é outra coisa. Quase sempre se esquece o semeador, quando se saboreia o fruto maduro de sua messe. Aquele que põe a mão no arado e olha para trás não é apto para o reino de Deus. Está na Bíblia. E o reino de Deus não é realmente deste mundo. Poderá, de logo, não ser entendido, mas, alguma hora, será estimado e louvado o autor pela dádiva que nos fez.

Rio de Janeiro, outono de 1973

ROSA, Eliézer. Apresentação do Dicionário do Palavrão e Termos Afins (7a ed.)
Rio de Janeiro: Editora Record, 1998

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Enéas Athanázio

Com sua vasta obra, Mário Souto Maior não está construindo apenas um painel amplo do folclore nacional mas também lhe conferindo um sentido unificador, permitindo aquela visão de conjunto que antes dele seria difícil, se não impossível. Mais uma pedra dessa obra arrojada, levada a efeito com empenho e competência, acaba de ser lançada e constitui o 47o livro de sua autoria. Refiro-me ao "Dicionário de Folcloristas Brasileiros" (20-20 Comunicação e Editora – Recife – 1999), graças ao qual estudiosos poderão encontrar, num só volume, todos, ou quase todos, os folcloristas brasileiros e se informar sobre suas posições científicas, realizações e obras. Como se pode inferir, é um trabalho de vasta pesquisa e que custou ao autor incontáveis horas de trabalho, consultas, anotações e buscas pessoais para suprir as lacunas e deficiências sem dúvida encontradas na bibliografia até então existente. É fácil imaginar a carga de leitura que se impôs para realizar a ambiciosa obra.

O livro contém cerca de 460 verbetes, cada um deles contemplando um nome, desde os mais antigos até os contemporâneos, o que não deixa de surpreender pela quantidade de brasileiros que vêm se dedicando aos estudos folclóricos. Mesmo considerando que não foram contemplados apenas os folcloristas stricto sensu, isto é, aqueles cuja obra predominante trata do assunto, mas também aqueles que, não sendo folcloristas, deram a sua contribuição, ainda assim surpreende o número deles, o que é apenas positivo num país onde a cultura popular é tão rica e variada como o nosso. Note-se ainda, como alerta o autor, que muitos ficaram de fora por absoluta falta de elementos informativos.

Embora todo dicionário seja por natureza obra inacabada, sempre aberta para receber as mutações que ocorrem na vida real e não cessam jamais, o livro de Mário Souto Maior ficará como um marco em nossos estudos folclóricos, destinado a ser instrumento de trabalho indispensável para os estudiosos do assunto e das ciências sociais em geral. Como aconteceu com outros livros de sua autoria, será fonte de informação geral e ponto de partida para estudos particularizados. Como afirma o autor, o "Dicionário" vem "preencher uma lacuna, pelo simples motivo da inexistência de um similar".

Entre os folcloristas brasileiros predominam com folga os nordestinos, cujo pendor pela pesquisa é conhecido. A região forneceu alguns dos maiores nomes de nosso folclore, como Sílvio Romero e Câmara Cascudo, entre outros. Em seguida se coloca São Paulo, não só pela quantidade mas também pela importância de figuras como Mário de Andrade, Amadeu Amaral, Alceu Maynard de Araújo, Florestan Fernandes e outros. Santa Catarina aparece com nove nomes: Alice Inês de Oliveira e Silva, Egon Schaden, Lélia Pereira da Silva Nunes, Nereu do Vale Pereira, Osvaldo Ferreira de Melo Filho, Osvaldo Rodrigues Cabral, Walter Fernando Piazza, Doralécio Soares e Theobaldo Costa Jamundá, os dois últimos pernambucanos radicados em nosso Estado há longos anos.

ATHANÁZIO, Enéas. Blumenau em Cadernos.
Blumenau (SC), Tomo XL, no 11/12, nov./dez., p. 79

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Érico Veríssimo

Como o tempo passa! Quanta coisa aconteceu entre a carta que lhe escrevi de 6 de fevereiro de 1943 e este momento!

Foi muito bom receber notícias suas... e dois livros. Já li o Como Nasce Um Cabra da Peste, que achei muito saboroso. Sempre gostei da expressão cabra da peste, que conhecia da boca e da pena de amigos nordestinos. Estive folheando Cachaça, que hei de ler quando tiver tempo. Posso, entretanto, dizer-lhe desde já que a idéia de escrever sobre essa importante bebida, tão brasileira evocativa – foi excelente. Em suma, foi bom saber que você emergiu ou, melhor, reemergiu para a vida literária com tanta graça e tanto vigor, Parabéns!

Em 1970, passamos, minha mulher e eu, meio ano nos Estados Unidos, onde temos desde 1956 uma filha casada com um físico (não nuclear) americano. Esse ramo ianque da família nos deu três netos homens. O ramo brasileiro (um filho casado com uma carioca) vive conosco e nos deu três frutos viçosos: Fernanda, Mariana e há, poucos meses, Pedro.

Em 1961 tive um infarto que quase me matou. Mas depois desse ano fatídico viajei quatro vezes à Europa, uma ao Oriente Médio e cinco vezes aos Estados Unidos. Foi depois de 1943 que produzi a melhor parte de minha obra, O Tempo e o Vento (três tomos alentados), O Senhor Embaixador, O Prisioneiro, um livro sobre uma viagem ao México e outro sobre uma visita a Israel. E agora aqui estou na reta final de um novo romance, Incidente em Antares, que aparecerá talvez lá por julho ou agosto. É esse que você vai receber em lugar daquele que nunca lhe chegou às mãos.

Se um dia aparecer por aqui, não deixe de vir a esta casa.

Muito obrigado pela carta e pelos livros. Um grande abraço do

ÉRICO VERÍSSIMO
VERÍSSIMO, Érico. Carta: Porto Alegre, 8/3/1971

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Esther S. A. de Almeida Karwinsky

Bravo! pelo Brasil-Portugal. Ótimo, parabéns. Li de um só fôlego seu magnífico trabalho. Meu pai adorava as anedotas sobre portugueses. Originário de Almeida, norte de Portugal, sempre tinha algo divertido para nos contar sobre seus ancestrais.

Muito grata por se lembrar de mim e que Deus lhe conceda, e a sua família, paz, saúde e muitas realizações para este ano novo.

Cumprimentos e o abraço cordial de

ESTHER S.A. DE ALMEIDA KARWINSKY
KARWINSKY, Baronesa Esther S.A. de Alemida. Carta: São Paulo, 4/1/1996

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Fátima Quintas

Quem não conhece Mário Souto Maior jamais poderá imaginar o seu jeito de ser. Um jeito muito especial que guarda um misto de ternura e sensualidade. Sim, sensualidade. Sensualidade científica, aquela que persegue com obstinação o conhecimento - desconhecendo possíveis barreiras -, que se alimenta de história e estórias e que se delicia com os acontecimentos de cunho popular. Uma vida voltada para o fato sociológico, interpretado revivificado pelos seus contadores. Não se satisfaz com pouco: cascavilha, debruça-se nos enigmas aparentemente insondáveis, vai ao mistério das coisas, incansável no indagar; um verdadeiro pesquisador que consegue transformar o fenômeno, às vezes monótono e cansativo, num erotismo original renovado a cada passo pela ânsia de descobrir o que se imiscui dentro da alma da multidão anônima. Há uma certa inquietação nessa busca pelas origens de seu povo. Atento, quase sempre em estado de alerta, descerra os véus que tentam encobrir a autenticidade dessa gente sofrida, angustiada, porém carregada de idéias e principalmente de sabedoria.

Em Mário, os dias não se repetem ou se repetem numa continuidade privilegiada. No seu gabinete, solitário ou, talvez, solidariamente ele atrai para si a vida palpitante de momentos fugidios que poderiam parecer insignificantes. Na verdade, a dinâmica de sua ação transforma os cicios da madrugada em oráculos de inspiração. Não exagero quando digo que seu "canto" tão souto-maiormente vivido representa um local de harmonia, de tranqüilidade, de paz, ao lado de uma efervescência constante a permitir a plena ebulição de uma mente perscrutadora. Contraditório? Não. Ou, talvez, sim. Quem não o é. A contradição enriquece e alicerça as emoções. Da ambigüidade geram-se grandes renovações. Do confronto advém o ponto maior da incessante procura. Das incertezas corriqueiras às certezas afetivas, Mário convive com um manancial de sentimentos que eclodem de um intimismo por ele enaltecido. Um intimista visceral a retomar na voz do outro a consciência de si mesmo.

Sogras: prós & contras e outras conversas condensa o que há de mais aliciante no que toca a narrativas universais. Digo universal porque o folclore em Mário não se reduz a um regionalismo unilateral, mas se embasa num universalismo regional para, a partir daí, germinar o amplo, o abrangente, o extenso. Em qualquer lugar do mundo, no mais reservado grupo social, a figura da sogra é vista através de estereótipos, quer de negatividade, quer de positividade: desprezo, elogios, descaso, honrarias, relações conflituadas ou de equilíbrio. Sempre atitudes opostas a ratificar posiçòes de afeto ou desafeto. "O velho Panfo fica vermelho de raiva diante de sua sogra". Quantos velhos Panfos existem por aí a maldizer a imagem quase sempre "repudiada" da sogra. Milhares são os que fazem mandingas que envolvem desejos pouco enaltecedores ao se tratar de sogras por perto. A própria culinária e, principalmente ela, tão bem definida pela antropologia - Gilberto Freyre foi um pioneiro nessa análise ao valorizar os rituais que cercam a alimentação, através dos costumes à mesa, das docerias e quitutes preferidos, do açúcar a percorrer o sangue na sociedade canavieira -, revela-se no livro com um toque singular ao enumerar guloseimas com nomes de sogra: beijo de sogra, olho de sogra, pudim de sogrinha... Souto Maior com a habilidade de um pesquisador nato recolhe receitas e repassa-as aos leitores procurando estabelecer a influência da culinária no gosto popular, Não fica por aí. Continua caminhando e nas suas andanças descreve um anedotário fantástico, com cheiro e sabor de mito e realidade. Legendas de caminhões são exploradas de modo a captar toda a filosofia dos pára-choques. Que grande sabedoria, essa que exprime as fantasias daqueles que passam os dias e as noites nas estradas vivendo de sonhos passageiros e efêmeros. Caminhoneiros que acabam contextualizando temas, de formas quantas vezes caricaturais, deixando revelar o silêncio de seus embutidos sentimentos. Sogras, mulheres desejadas, fé, misticismo... evocados.

Nada escapa a Mário Souto Maior. Ele é o guardião do folclore nordestino adubando as nossas divulgações com todo o élan do seu desejo cientificamente sensual. Da conversa lesa, do bate-papo inocente, da troca ingênua de expressões emanam grandes rasgos criativos de um estudioso que não esmorece no seu afã de trabalhar e revolver novas interpretações. Vejo-o diariamente, sentado à sua escrivaninha, olhar meigo, temperamento dócil, caráter firme a sugar das caixinhas de segredo os enigmas dessa gente que é a gente do nosso povo. Da Cachaça ao Dicionário do palavrão, dos Nomes Próprios Pouco Comuns à Antologia do Carnaval, da Morte na Boca do Povo a Comes e Bebes do Nordeste, Souto Maior decifra o perfil do outro numa atitude, sem dúvida nenhuma, proustiana. A tentativa de encontrar as raízes coletivas reflete a vontade de redescobrir as suas próprias raízes. Um Mário sensual, um Mário intimista, um Mário proustiano. Em busca da infância, dos papagaios empinados a céu aberto, dos jogos de futebol disputados com espírito competitivo, dos bodoques atirados em terrenos baldios, dos namoros iniciados em quermesses de colégio religiosos, do beijo proibido ofertado à garota não menos proibida, dos balões de São João que subiram e sumiram no ar, do amor que se fez perene na união com Carmen... Mário um proustiano em busca do tempo perdido nos casarões de Bom Jardim a antever os tempos de hoje e a perpetuar-se através da sua vasta obra nos tempos de amanhã.

Orelhas de Sogras: Prós & Contras - e outras conversas. Recife, 1992

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