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Em sua casa de Olinda, o folclorista Mário Souto Maior não se limita a preparar o anunciado Dicionário do Palavrão, que muita gente aguarda com impaciência, na expectativa de vir a conhecer espécies outras e vigorosas, com que se enriqueça o repertório tradicional. Procede também ao levantamento de nomes estranhos (alguns chegam a ser palavrão também) de pessoas nascidas no Brasil. Um primeiro resultado da coleta em 21 fontes (guias telefônicos, jornais, etc.) sai agora em folheto sob o título Nomes Próprios Pouco Comuns, e faz a gente pedir: mais. O nome próprio extravagante é motivo de riso, que faz sofrer seu portador em benefício do fígado alheio, mas sua motivação é sociológica e psicologicamente séria, pelo que entremostra de gostos, idéias e hábitos dos brasileiros. Na hora de colar ao filho uma etiqueta para toda a vida, não só a imaginação se põe a trabalhar. Entram no jogo o espírito religioso, a definição política, a fascinação por supostos heróis do dia, o desejo de transferir ao recém-nascido virtudes e glórias de um modelo prestigioso, pela identidade onomástica. Há um fator de magia inconsciente na operação, muitas vezes com péssimo resultado, porque dando pasto ao ridículo, mas a intenção é pura. Não podemos simplesmente gozar os nomes pantafaçudos de gente, pois eles convidam a meditar no mistério da criação. Faz-se um filho, mais ou menos conscientemente, mas uma vez nascido (ou mesmo antes) procede-se a um segundo e sutil ato criador, que é o de individualizá-lo por meio de um nome que o marque para sempre nome que seja um sinal concreto, uma tatuagem indelével na pele de sua vida. Antônio Manso Pacífico Sossegado um dos componentes da relação de Souto Maior para mim vale mais do que todos os exuberantes manifestos pacifistas trombeteados pelo mundo afora. Os pais de Antônio quiseram fazer dele a própria encarnação da paz, sem asas de anjo ou de pomba: sujeito que anda na rua sem ruminar agressões nem topar brigas; que não esmague o inseto, não maltrate a planta, não semeie a injustiça. Terá ele obedecido a esta programação ideal? Não importa. Importa o que os pais lhe ofereceram em três adjetivos de boa vontade. Getúlio Subirá, incluído no Guia dos Telefones da Zona da Mata Mineira de 1967/8, documenta um fervor partidário cuja profecia se confirmou, embora com desfecho trágico: Getúlio Vargas subiu de novo ao Poder, para dele baixar pela auto-imolação. Naída Navinda Navolta Pereira parece exprimir uma ânsia de viagem e um voto de constância assim como Veneza Americana de Recife, inscrita no INPS, revela orgulho paisagístico de bom pernambucano. Os achados de Mário Souto Maior são fartos de sugestividade: Antônio Dodói, Abecê Nogueira, Barrigudinha Seleida, Eclesiaste Cardeal da Costa, Francisco Facada Sargento de Cavalaria, Gilete Queiroga de Castro, Dartagnan Pascal, José Amâncio e Seus Trinta e Nove, Oto Bompeixe de Oliveira, Magnésia Bisurada do Patrocínio. Admita a autenticidade de apelações que correm na boca do povo e são registradas por algum curioso da matéria, temos campo aberto à análise da inventividade, lirismo, crença e humor involuntário de nossa gente. Ela procura caprichar na escolha de nome para seus herdeiros. É um capital primeiro que lhes reserva, com a mais santa das intenções. Sucede, não raro, que esse capital é negativo, e daí talvez a conveniência de todos os nomes serem provisórios, digamos até 18 anos. Aí, seu detentor (ou vítima) o confirmaria ou trocaria por outro de sua predileção, já agora definitivamente. O homem merece ter, entre seus direitos universalmente proclamados, mas pouco reconhecidos, o de chamar-se como quiser. Como não pode exercê-lo nas primeiras horas de vida, o pai lhe dará rótulo interino. Idéia joão-brandônica, isto é, demasiado sensata para ser incluída em futura reforma do Código Civil. De qualquer maneira, fica lançada, enquanto Mário Souto Maior vai colecionando os impróprios nomes próprios do brasileiro. ANDRADE, Carlos Drummond de. Prefácio de Nomes próprios pouco comuns. Rio de Janeiro: Livraria São José, 1974 Acabo de acreditar que você é o folclorista mais interessante deste país. Por quê? Simplesmente porque sabe escolher seu objeto de estudo com a mesma perspicácia e humor que, ao final, caracteriza a cultura do homem brasileiro. Você não vai "voar-no-pau" tão cedo, se Deus quiser. Há de nos brindar com outros trabalhos tão importantes quanto este. Afinal, você não é homem de "viver-à-sombra-do-pau". Fiquei orgulhosa de ser referida em sua
bibliografia. Isto só me engrandece. Cáscia Frade Com intima alegria, agradeço-lhe a excelente oferta dos seus poemas enviados por intermedio do nosso queridissimo Guimarães Martins. Gostei de tudo, mas principalmente, da referencia que você faz aos velhos, à pagina 4, em - O meu poema de amor - . É um surto de maravilhosa poesia. Você, moço como é, quer ser um velho, para embalar os sonhos de sua namorada, com historias da sua infancia. Pedindo-lhe que me conte no gremio dos seus admiradores, solicito-lhe que felicite, em meu nome, a fascinante mocidade pernambucana, aqui ficando sempre ao seu dispor, em a nossa residencia à rua Dias da Cruz. Cordialmente, Catulo da Paixão Cearense O etnólogo Mário Souto Maior gosta de contar histórias. Umas verídicas, outras imaginadas, mas sempre tendo como base um assunto que denomina: a cultura popular e os valores nordestinos. Considerado um dos maiores pesquisadores vivos na área dos estudos folclóricos, autor de cerca de 50 títulos, Souto Maior retoma um dos gêneros que mais gosta - a literatura infantil. A inspiração vem de um personagem que marcou sua vida. Um Menino Chamado Gilberto Freyre é o novo livro de Mário Souto Maior. O lançamento acontece em dois horários, às 9 e às 15 horas, na Fundação que leva o nome do sociólogo pernambucano. Editado pelo Grupo Elógica, primeira empresa pernambucana a se associar às comemorações do centenário de nascimento de Gilberto Freyre, o livro tem uma tiragem de 30 mil exemplares, não será comercializado e sim distribuído entre os alunos de primeiro grau das redes particular e pública do Estado. A capa e o projeto gráfico trazem a assinatura do designer Jan Souto Maior, enquanto as ilustrações foram concebidas pelo cartunista Marcel Glaidson de Melo. Em forma de narrativa infantil Mário Souto Maior traça o perfil do Mestre de Apipucos, desde a sua infância até a sua morte, em julho de 1987, passando por momentos expressivos da vida do sociólogo, com referências a sua obra e personalidade. Permeia a história com observações curiosas e citações a acontecimentos históricos dos quais Gilberto Freyre participou. Aos olhos do autor, situar Gilberto nos fatos sociais e políticos brasileiros é tão importante quanto apresentá-lo como pensador e cientista social. Tudo numa linguagem acessível às crianças . Um Menino Chamado Gilberto Freyre é o primeiro volume de uma série, por meio da qual Souto Maior pretende, em ritmo de história infantil delinear a trajetória de nordestinos ilustres. Encontra-se no prelo e "à espera de patrocinadores ", alerta Souto Maior Um Menino Chamado Dom Helder Câmara e Um Menino Chamado Joaquim Nabuco. Em parceria com a pesquisadora Rúbia Lóssio, Souto está organizando, ainda, o Dicionário do Folclore para Estudantes. "É preciso apresentar às novas gerações os valores maiores da nossa cultura popular e as nossas personalidades mais significativas," assegura o autor. Quem for ao lançamento terá oportunidade de penetrar no mundo de uma dessas personalidades a que se refere Souto Maior. A Casa-Museu Madalena e Gilberto Freyre estará aberta à visitação pública mostrando o seu mobiliário secular, objetos pessoais, vestuário, pinacoteca, além de uma biblioteca de cerca 40 mil volumes. Em torno da chamada Vivenda de Santo Antônio de Apipucos, o sítio Ecológico é uma atração à parte, constituído por exemplares da flora e da fauna tropicais. CALHEIROS, Celso. Gilberto
Freyre para crianças. Não conheço bem a geografia pernambucana, onde estão suas cidades em relação ao Recife, exceto Caruaru e Garanhuns, além de Goiana e nada sei do seu hinterland. Lembro, vagamente, que já estive em Lagoa dos Gatos, que meu amigo Everaldo Porciúncula transformou, com seu amor/humor de filho da terra, em Cat lake city, e Olinda, bem como outras cidades, de passagem, pelas estradas. Creio porém, que quem nasce num lugar com o nome de Bom Jardim e chega a ser prefeito de outra com o topônimo de Orobó, só pode ser uma pessoa predestinada à pesquisa e ao estudo do folclore, ciência que não vem pela erudição, senão pela cultura popular - essa sim, é que nos leva aos conhecimentos eruditos sobre os fenômenos antropo-sociológicos, registros e análise dos mesmos. Creio que é pelo popular que se chega ao erudito, porque observo que toda cultura emana do povo. O que a cultura de gabinete registra e desenvolve, é comparável a um menino criado em apartamento, sem comprovação tátil, gustativa, olfativa, experimental da natureza. A sedimentação cultural nutre-se de energia oriunda das raízes da terra. Não se obtém sabor das coisas, sem transitar pela sua vivenciação. Partindo desta premissa, refiro-me ao pesquisador e mestre Mário Souto Maior, 80 anos de idade, porém ainda um menino, contando e ouvindo histórias infantis como no copiar das fazendas coloniais se ouvia das mucamas contadoras de estórias de então. No ano passado - 1999 - completou-se 30 anos de uma laboriosa atividade intelectual, na pesquisa dos costumes, dizeres, fazeres e comportamentos virtuais, do nosso povo através de obras como seus Dicionários da Cachaça, do Palavrão, dos Folcloristas Brasileiros, e de registros das crendices, rezas, faz mal e mais outros tantos assuntos, com a sabedoria que justifica a agilidade que levou ao "podium" de uma carreira de estudioso e fixador de costumes populares de primeiro time. O jovem Mário Souto Maior merece o nicho em que sua obra tem sido colocoda no Brasil. Sua majestade cultural, pois o conheço bem, corará de tão humilde e franciscana simplicidade, ao ler estas mal traçadas linhas. SILVEIRA, Celso. Mário Souto Maior - 30 anos de pesquisa. Comentário feito em sessão de Assembléia Geral do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, por ocasião da aprovação, por humanidade, de seu nome como sócio-correspondente. Natal, 24/3/2000. Mário Souto Maior e Waldemar Valente organizaram uma Antologia da Poesia Popular de Pernambuco. Trabalho de pesquisadores profissionais, a seleção é altamente representativa de nossa poesia de cordel. Há que distinguir entre o "cordel" e a poesia "oral", como ensina o grande Ramón Menendez y Pidal, assim como entre poesia "popular" e poesia "tradicional". A poesia "tradicional" se confunde com a poesia "oral", cujos autores são quase sempre desconhecidos. Já a poesia "popular" é um gênero mais recente e seus autores registram em folhetos suas criações literárias. Na Espanha, entre os poetas famosos que escreveram romances populares, se encontram o Marquês de Santillana e Góngora. Na Antologia de Mário Souto Maior e Waldemar Valente, foram incluídos 25 autores, distribuídos pelas 245 páginas do livro editado pela Massangana, a editora da Fundação Joaquim Nabuco. A obra começa com uma narrativa de Antonio Batista Guedes (1880-1918), natural de Bezerros. O poema critica, em termos nitidamente moralistas, os costumes da época. Falecido aos 38 anos, deixou-nos um testemunho daquilo que era mais criticado pela sociedade de seu tempo. Chama de "apreciação", termo aliás bem moderno, a crítica que faz aos costumes e apela para que não se fatiguem, com tal crítica, os leitores de seus versos em redondilho maior. A estrofe usada por ele é a de sete versos. Isso já representa uma dificuldade, pois o nosso romanceiro parece demonstrar maior preferência pela sextilha, a oitava e a décima. O mesmo não ocorre no romanceiro espanhol, cuja forma de expressão preferida é o quarteto assonantado, de acentuada influência na poesia de João Cabral de Melo Neto. No caso de Antônio Batista Guedes, o verso quebrado não é freqüente. Mas há muitos versos quebrados em outros participantes da Antologia. Tal falha também se observa na melhor tradição do verso popular espanhol, especialmente nos romances "antigos" da classificação de Pidal, o que fez o Marquês de Santillana dizer que "los ramances non contaban las silabas con buen orden". Em Antônio Batista Guedes, o primeiro verso é solteiro, rimando entre si os versos segundo, quarto e sétimo. O terceiro é como o primeiro: não rima com nenhum outro. Logo no segundo poeta da Antologia, Antônio Marinho do Nascimento, a décima faz sua aparição para glosar o mote: "A Natureza tomou/ tudo quanto tinha dado". O autor é de São José do Egito, terra que produziu dois terços dos poetas populares do sertão pernambucano. Antônio Marinho do Nascimento, que dedicou 32 anos à cantoria, dos 53 que viveu. Ë tão admirado em sua terra que há na cidade um bairro com o seu nome além de um busto na praça pública. Como cantador profissional, deixou poucos textos. Acredito que, em tais casos, uma pesquisa na poesia "oral" do sertão poderia revelar outros trabalhos desse poeta, conservados e transmitidos às novas gerações pela memória de seus contemporâneos. Entre os vivos , lembro aqui João José da Silva, hoje com 67 anos e residindo em Recife. É natural de Vitória de Santo Antão. Sua bibliografia é imensa, como lembram Mário Souto Maior e Waldemar Valente. Dele, foi incluído na Antologia o romance A Condessa Rosa Negra, que assim começa: Pra meus admiradores Como se vê: a métrica falhou aqui sem nenhuma necessidade. Geralmente, os romances de autores recentes não sofrem alterações quando perdem o seu registro escrito. Mesmo conservados pela tradição oral, as variantes são raríssimas, fato já observado pelo grande Menendez y Pidal. A razão é simples: ninguém se atreve a criar variantes para uma composição contemporânea. No caso dos romances mais antigos, sem registro gráfico, a introdução de variantes é plenamente justificada: um verso esquecido tem de ser substituído por outro. É o que ocorre no Brasil com o Romance do Conde Carlos. Esse Romance chegou ao Brasil vindo da Espanha. Como era conhecido de memória, foi muito alterado em toda a extensão de seu texto. O estudo desse romance se enquadra numa das acepções da literatura comparada. Por isso, não é de interesse apenas dos folcloristas mas também dos professores de literatura de nossas Universidades. Reunindo em livro esses textos, Mário Souto Maior e Waldemar Valente preservam não só a fidelidade dos textos citados mas também o interesse de todos os que se dedicam ao estudo de nosso romanceiro popular. A partir dessas fontes, outras poderão ser reconhecidas. E isso é de importância para os estudos literários em geral, especialmente no âmbito da literatura comparada, sempre demonstrando o maior interesse pela relação dialética entre o popular e o erudito, como mostrou, na "Revista de Pernambuco", o prof. Ruy dos Santos Pereira, no vigoroso ensaio de abertura do periódico. Um bom exemplo de combinação desses valores é o romance A Pedra do reino, de Ariano Suassuna, onde o erudito e o popular são conceitos indissociáveis de uma mesma estrutura. LEAL, César. Antologia da poesia popular de Pernambuco. Diario de Pernambuco, Recife, 29/9/1989 Tropicalmente colorido, remonta à fase da colonização as raízes da farta e tão apreciada cozinha nordestina, variadíssima no seu cardápio diário de fim de semana. Os seus pratos típicos - vinculados aos hábitos de cada região - deixam no linguajar do próprio povo, o freguês de água na boca ... Existem, certamente, alguns desses pratos, que se tornaram mais disputados e até internacionalmente famosos, como é o caso particular da nossa feijoada. Há nos diferentes Estados do Nordeste e também no Norte chamados carros-chefes. Lá nas paragens de Pernambuco, por exemplo, destaca-se o cozido de carnes e verduras, a rara mais suculenta e saborosa panelada dormida, a galinha-de-cabidela, o feijão de coco, para mencionar os principais sem esquecermos a feijoada feita com o feijão-mulatinho ou a carne seca e a de sol, acompanhada uma e outra do angu de milho denominado de xerém. Justificando ainda como destaques o sarapatel (de miúdos de porco), a buchada de carneiro e a rabada. Já na história da Bahia, em Salvador e arredores despontam o vatapá, caruru, abará e a moqueca de peixe. No Amazonas, em Manaus, o sarapatel de tartaruga. Em Alagoas, Maceió, o sururu, além também do conhecido sarapatel, o mesmo ocorrendo em Sergipe. Em todos esses Estados, porém têm enorme aceitação as comidas preparadas com o milho seco ou verde tais como o cuscuz, a pamonha, a canjica, o angu (ou xerém). Além dos pratos típicos por nós citados, as populações nordestinas apreciam algumas bebidas, notadamente as chamadas batidas de abacaxi, caju, coco, limão, pitanga, que servem de aperitivos antes do almoço familiar ou mesmo nos restaurantes. Por outro lado, farta é a quantidade de bolos existentes na culinária nordestina, exemplos do bolo cabano, bolo de bacia à moda de Pernambuco, os bolinhos de goma, bolo de milho, de batata-doce, bolo de caroço de jaca, bolo de mandioca, bolo de macaxeira, etc. São essas as maravilhosas iguarias da cozinha nordestina que o folclorista e escritor pernambucano Mário Souto Maior nos apresenta no seu mais recente e completo estudo sobre a culinária daquela região brasileira, sob o sugestivo título de Comes e Bebes do Nordeste, edição 1984, Fundação Joaquim Nabuco/Editora Massangana, mês de setembro. Trata-se de um trabalho de cunho sociológico dos pesquisadores. Vale, aqui, transcrevermos do livro mencionado estes versos do poeta popular pernambucano, Sinésio Pereira, como fecho deste nosso comentário: Nossas comidas ainda Carne assada com farofa PASSOS, Claribalte. Comes e bebes do Nordeste, Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 7/11/1984 Pernambuco precisa prestar a devida homenagem aos seus valores, reconhecendo a inestimável contribuição de pessoas que engrandecem o nosso Estado e que com seus trabalhos e vidas edificaram elementos valiosos na História pernambucana. Nascido no Município de Bom Jardim, Agreste de Pernambuco, em 14 de julho de 1920, Mário Souto Maior veio para o Recife em 1930, tendo como finalidade fazer o curso secundário nos colégios Marista e Carneiro Leão. Formou-se em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade de Direito, de Alagoas, no ano de 1945, dedicando-se a esta atividade até 1967. Ademais, entre 1940 e 1944, foi secretário da prefeitura de sua terra natal, promotor público nos municípios de Surubim (44-47) e João Alfredo (48-54) e prefeito de Orobó, 1945. Transferiu-se para a capital de seu Estado, Recife, ingressando, definitivamente, na Fundação Joaquim Nabuco (FJN), em 1967, na qualidade de assessor da Diretoria Executiva. Fato que marcaria a sua vida e a do estudo da cultura popular do País. Dois anos mais tarde (1969), começa a dedicar-se ao estudo do folclore quando produz um dos mais belos textos na área: Como Nasce um Cabra da Peste. A partir daí, passa a construir um catálogo constante e rico de valorização do universo das tradições populares, caminhando sempre no sentido de nos revelar a importância da sabedoria, dos valores e crenças do povo pernambucano. Hoje, no Brasil, ninguém melhor do que Mário Souto Maior para compreender e dimensionar, com extraordinária exatidão e plenitude, as mais variadas expressões culturais de nossa população. Basta, tão somente, lermos alguns de seus vastos escritos: Cachaça (1970), A Morte na Boca do Povo (1974), Dicionário do Palavrão e Termos Afins (1980), Folclorerotismo, (1981), Remédios Populares do Nordeste (1986), Antologia do Carnaval do Recife (escrito em parceria com Leonardo Dantas 1991), Sogras: Prós & Contras e outras Conversas (1992), Folclore Etc. & Tal (1995) e Os Mistérios do Faz-Mal (1996). Suas obras, que somam mais de 40, versam sobre inúmeros temas e clarificam a profunda contribuição do maior, na atualidade, folclorista brasileiro. Sucessor direto do grande Câmara Cascudo, soube criar seu próprio caminho, tornando-se uma referência indiscutível para quem busca conhecer e desvendar o rico universo cultural das camadas populares sofridas do Nordeste, especialmente Pernambuco. Como se não bastasse, Mário Souto Maior ainda oferta seu espírito humano e humilde como exemplo de vigor criativo e uma grande capacidade de lutar pela cultura popular. Por isso tudo, é significativo afirmar que reconhecer o valor de Mário Souto Maior é, acima de tudo, reconhecer a importância da História e da relevância cultural de Pernambuco e de seu povo. São pessoas assim que nos orgulham de sermos pernambucanos e de sermos mais um Cabra-da-Peste. Parabéns e obrigado, Mestre do Folclore. RAMALHO, Cristiano. Mestre do Folclore. Folha de Pernambuco, Recife, 25/9/1999 O livro de Mário Souto Maior Nomes próprios pouco comuns contém uma onomástica cuidadosamente organizada de nomes os mais estapafúrdios possíveis. Tem prefácio de Carlos Drummond de Andrade, orelha de Gladstone Vieira Belo, além de sugestiva capa do jovem pintor Luís Pessoa. A obra, embora não analise o porquê dos nomes, (e isto seria motivo de outro estudo), traz uma séria advertência: as criaturas devem escolher seus próprios nomes ... E as citações justificativas: "Por que não imitar a sabedoria milenar dos cora tribo mexicana que vive na Serra Madre Ocidental que só permite batizar os descendentes após os quinze anos de idade, numa solenidade que é iniciada pelo sacerdote com a pergunta: - Como você quer se chamar, filho?" A seguir vem a do psicólogo francês Jean Claude: "milhões e milhões de pessoas carregam pela vida afora o peso de um prenome que absolutamente não condiz com sua formação física e espiritual e isto é capaz de afetar seriamente todo o mecanismo psíquico. Vem nossa indagação (indagação feita anos atrás, quando publicamos trabalho de Salomão Jaufim, na Revista Equipe, contendo uma lista de nomes incomuns e que fora aproveitada por M.S.M.), que dramas sofrem pessoas que ao responderem o nome diz: Abrilina Décima Nona Caçapavana Piratininga de Almeida, ou Adegesto Pataca, Antônio Veado Prematuro, Barrigudinha Seleida, Carlos Himmen, Celeste Batata, Colapso Cardíaco da Silva, Cólica de Jesus, Dinossauro Carlos da Silva Rios, Dourado Peitudo, Eter Sulfúrico Amazonino Rios, Eustácio Ponta Fina Amolador da Ponta Grossa, Eva Gina Melo, Gilete Queiroga de Castro, Horácio Treme Terra, Gueythysymayny Silva Brasileiro, Hegível Inelegível da Silva, Inocêncio Coitadinho Sossegado de Oliveira, Jacinto Filho, Maria Nazaré Gordura de Baixo ou Newton Maribondo Vinagre? Seguem-se temperos mais picantes do que estes, fazendo rir, quando lemos e não pensamos, ou fazendo chorar se raciocinamos que não se trata de brincadeira, mas de nomes de pessoas, de crianças que têm de responder à folha de presença nas escolas, homens e mulheres que são forçados a dizer o nome para documentos, nos quais não vale dizer o apelido. É muito sério, seríssimo mesmo, o trabalho de Mário Souto Maior, digno da capacidade científica e seriedade que o autor emprega nos seus empreendimentos, como foi por exemplo o Dicionário Folclórico da Cachaça. Somente numa coisa não concordamos com M.S.M., é quando ele diz: "Não só as pessoas são mal denominadas: temos, como exemplo, algumas ruas do Recife batizadas pelo povo ou pela municipalidade de maneira tal que logradouros e seus nomes não se casam. Qual o prazer que se tem em morar na Rua dos Prazeres? Por que Rua do Príncipe, Rua do Cupim? As primeiras, não sabemos se provêm de fatos históricos, de santos ou simplesmente da sabedoria popular, mas a Rua do Cupim, pode parecer uma advertência para que lá não se atreva a residir nenhum cara de pau, porém não o é, trata-se de homenagem feita ao famoso Clube do Cupim, fundado, a exemplo da Sociedade Brasileira Contra a Escravidão para conceder Liberdade aos nossos irmãos de cor. Depois, Mestre Mário Souto Maior, é bom lembrar que as ruas não sofrem de complexo, por esta razão, preferimos ficar ao lado da Evocação do Recife de Manuel Bandeira, sem que isto diminua o extraordinário valor de seu livro. GALLINDO, Cyl. Nomes Próprios (impróprios). Jornal de Letras, Rio de Janeiro, outubro, 1974 |