Pesquisadores Pernambucanos
Se há pesquisadores que se destacam por uma produção gigantesca e sistemática, como
Pereira da Costa, cuja comemoração do sesquicentenário ocorre este ano, outros deixam
um legado de estudos isolados mas também de grande importância, de que é exemplo Mário
Souto Maior, falecido esta semana, no Recife. Este foi um brilhante divulgador dos modos
de ser, sentir e pensar do povo nordestino, e do pernambucano em particular.O primeiro deixou uma obra quase inconcebível, que culmina com os Anais
Pernambucanos, só publicados muito tempo depois de sua morte, em dez volumes,
registrando os fatos históricos do Estado, desde a chegada de Vicente Pinzon ao Cabo de
Santo Agostinho até o ano de 1850. Mas também nos legou livros como Galeria de
pernambucanos célebres, A Ilha de Fernando de Noronha, o Vocabulário
Pernambucano e o Folclore Pernambucano, que inspirou João Cabral para
escrever o poema Morte e Vida Severina. Exaltou o poeta haver Pereira da Costa
feito um esforço enorme por caçar o que há de particular e irrepetível no povo
pernambucano, "salvando tanto o perdido quanto o achado" .
Enquanto o escritor do século 19 (falecido em 1923) definiu-se certa
vez como um "rude mineiro" que extrai da terra uma gema bruta, para oferecê-la
à paciência de lapidação e classificação dos mais sapientes, Mário Souto Maior
declarou que seu trabalho predileto era "registrar tipos, aprisionar o que o povo
faz, o que o povo diz, o que o povo acredita". Nessas tarefas, trabalho humilde e
cansativo, os dois pesquisadores deram uma lição de tenacidade e amor à sua terra, seu
Estado, sua Região.
Souto Maior nasceu na cidade de Bom Jardim, no Agreste pernambucano,
sendo filho de comerciante e de mãe fazendeira. Na época de seu nascimento (1920), os
costumes do interior não variavam muito de uma para outra área. Suas observações sobre
o que ocorria em seu lugar poderiam ser estendidas a uma boa parte do Nordeste. Mais
tarde, acolhido como pesquisador da atual Fundação Joaquim Nabuco, criada por Gilberto
Freyre, preparou e publicou o livro Como nasce um cabra da peste, que não é uma
biografia, mas um ensaio retratando uma série de crendices, testemunhadas em fontes
primárias, que cercam a gestação, o parto, a divisão por sexo, os rituais dos
batizados e outras maneiras de o povo do interior receber uma criança. A partir daquele
título, estava aberta uma cachoeira de mais de cinqüenta livros ou opúsculos por ele
publicados. Os que conviveram com o autor em sua sala de trabalho registram sua forma
peculiar de escrever: colocava tudo o que chegava a suas mãos sobre as manifestações
populares em caixas, até que nela não coubesse mais nenhum material de pesquisa. A
partir daí, publicava um novo livro.
Entre as obras de Mário Souto Maior que tiveram maior destaque pela
mídia está o Dicionário do palavrão e termos afins, com prefácio de Gilberto
Freyre. Outros opúsculos como Nomes próprios pouco comuns e Dicionário
Folclórico da Cachaça são também muito citados.
Nos últimos anos de sua vida, esse pesquisador muito organizado
iniciou uma série de minibiografias de figuras importantes da Região, como Gilberto
Freyre, Dom Helder Câmara e Jorge Amado. Todos com ilustrações, e seu interesse era o
de que fossem adotados na rede escolar nordestina, para aproximar os pequenos estudantes
hoje de figuras marcantes de nossa vida literária recente. Teme-se que, com a sua morte,
a coleção fique interrompida, sabendo-se que ele já pensara em vários outros nomes,
para compor a coleção que Mário Souto Maior idealizara e vinha realizando com tanta
alegria.
Jornal do Commercio
29.11.2001