A última paixão de Souto
Maior
Schneider Carpeggiani
O catador de coisas e expressões populares Mário Souto Maior, falecido no
último domingo, aos 81 anos, até seu último momento foi fiel ao conselho que Luís da
Câmara Cascudo lhe deu na década de 70: "O essencial é armazenar a documentação
existente, para o século 50 e tantos." Antenado ao pensamento de uma nova geração
para a qual tecnologia virou bê-á-bá e o e-mail, principal fonte de divulgação para
lendas urbanas, anedotas e folclores, Mário deixou em andamento o projeto de um livro que
reunisse alguns dos melhores causos divulgados pela Internet. Para ele, o
ambiente da web era uma forma potente de divulgação de um novo folclore, que
transformava em anedota os fatos do cotidiano. Um trabalho bem coerente para um homem que
já catou elementos para um polêmico dicionário de palavrão, piadas de
portugueses e até histórias curiosas sobre as sempre incompreendidas sogras.
"Ela, a Internet, é uma faca de dois gumes, à medida que faz com que as pessoas
se comuniquem com o mundo inteiro através da telinha do computador, faz com que o
indivíduo fique boa parte da sua vida sozinho, sentado à frente da telinha. Muitos
adultos e jovens ficam presos à Internet, aumentando a solidão no mundo",
constatou, certa vez, o etnólogo sobre o complexo universo da web. E ainda completou:
"Com suas correntes, frases, aforismos anônimos que lembram tanto a filosofia grega
quanto os pára-choques de caminhão, a Internet já tem o seu folclore."
"Para quem não sabe, Mário Souto Maior era um completo deslumbrado por
tecnologia. Esse é um contraponto muito interessante a seu respeito para as pessoas
conhecerem", lembrou a antropóloga e pesquisadora da Fundaj Fátima Quintas, que
estava ajudando o etnólogo na realização de sua nova obra. "Ele pediu que eu
coletasse as piadas que recebia por e-mail e lhe enviasse. Ele tinha uma forma muito
peculiar de trabalhar: colocava tudo o que chegava às suas mãos em uma caixa. Quando
essa caixa se encontrava cheia, dizia que ela estava pronta para ser transformada em um
livro."
Lis Souto Maior, filha do etnólogo e folclorista, afirmou que o livro sobre Internet
não tem previsão de lançamento nem um título certo. "Ainda estamos trabalhando
nesse projeto e vamos finalizá-lo, assim como outros que papai estava realizando."
"No início, ele tinha uma certa relutância com computador, mas depois gostou.
Quando o micro dava algum problema, ele reclamava e dizia que não queria mais saber
disso. Depois, voltava a ficar interessado de novo. Ele utilizava a Internet como uma
forma de pesquisa para seus projetos sobre folclore", ressaltou Lis.
Diariamente, após seu trabalho na Fundaj, Mário Souto costumava chegar em casa e ir
direto para o computador. Nele, respondia diariamente a e-mails de pessoas de todo o País
(e do exterior, também) que acessam o seu site www.soutomaior.eti.br/mario procurando
mais informações à respeito de folclore.
PELA WEB Idealizado pelo seu filho, Jan Souto Maior, o site do etnólogo
é uma das melhores fontes de pesquisa sobre o trabalho do autor. Constantemente
atualizado, ele traz textos de livros seus, curiosidades, bibliografia, além de recursos
multimídia.
Vale ressaltar que no dia do falecimento do
folclorista, logo na página inicial do site havia um texto do enfermeiro Nailton, do
Hospital Unicords, onde Mário estava internado. Simples e direta, a mensagem se enquadra
bem naquele seu desejo de coletar as expressões do povo, para o qual o autor dedicou toda
sua vida: "Um gênio não é apenas um homem inteligente que absorve, compreende e
soluciona o mistério das coisas. Ele é um mago: um ser dotado de sensibilidade - o poder
de extrair de cada um sua essência, é a complexidade que se transmuta em simplicidade.
Você é um gênio."
Mais um projeto de uma vida cheia de idéias
O livro sobre causos da Internet era só um
entre os muitos projetos nos quais Souto Maior se debruçava. Homem de uma produção
intensa, que se estendia por uma bibliografia com mais de 60 títulos, ele havia acabado
de lançar mais dois, ambos pela editora Massangana, da Fundaj: A Menina-Avó e os seus
Almanaques e Algumas Pernas Curtas da Mentira.
Esse último, vale ressaltar, em colaboração com os
pesquisadores Getúlio Araújo, Renato Phaelante e Manuel Correia de Andrade, que trata
das mentiras que têm pernas curtas e que, no livro, são contadas de acordo com as
especialidades de cada autor. Mário, lógico, focava aquelas ligadas ao folclore popular.
Ao mesmo tempo, o autor aguardava o lançamento de Um
Menino Chamado Jorge Amado minibiografia do escritor baiano falecido
recentemente voltada para crianças, que fará parte da sua coleção Aprender
Brincando, patrocinada pela BCP, que está em seu oitavo volume.
O autor recentemente foi foco de uma biografia em
comemoração aos seus 80 anos, Mário Souto Maior Oitenta Anos, organizada
pelo seu filho Jan Souto Maior. Já pronta, a obra, de acordo com a Fundaj, deve ser
lançada em breve.
Nela, estão presentes textos de colegas de trabalho de
Mário, como a antropóloga Fátima Quintas, o pesquisador fonográfico, Renato Phaelante,
o geógrafo e historiador Manuel Correia de Andrade e o presidente da Fundação, Fernando
de Mello Freyre. A obra conta, ainda, com um resumo de reportagens e entrevistas na
imprensa nacional sobre o etnólogo, publicadas durante as comemorações da festa dos
seus 80 anos.
Em uma das entrevistas presente na obra, Souto Maior
define da seguinte forma o folclore: "Definir qualquer coisa é sempre um ato de
egoísmo. Egoísmo porque cada pessoa tem a sua maneira, o seu ângulo de ver e e sentir
as coisas; cada pessoa tem a sua ótica. E tem mais: não conheço nenhuma definição
completa, perfeita."
Apesar das recentes edições, muitos dos principais
títulos do autor estão fora de catálogo e só podem ser encontrados em sebos ou
bibliotecas, como Nomes Próprios Pouco Comuns, na 5ª edição e o notório O
Dicionário do Palavrão.
Jornal do Commercio
27.11.2001