Perda irreparável
- Manuel Correia de andradePernambuco e o Brasil perderam, em novembro,
um dos grandes folcloristas, Mário Souto Maior. Era um grande amigo cujo conhecimento vem
desde 1940, quando cursamos, juntos, o 2º ano pré-jurídico do Instituto Carneiro Leão;
sempre tivemos uma grande amizade e hoje sinto-me verdadeiramente traído por esta
adversidade, saber que não nos encontraremos mais nas rampas, nas salas e nos jardins da
Fundação Joaquim Nabuco, onde éramos companheiros de trabalho e onde trocávamos
idéias sobre acontecimentos os mais diversos.
Fazendo-se uma análise da evolução dos estudos folclóricos no
Brasil, sobretudo no Nordeste, somos levados a concluir que Mário Souto Maior era o elo
de una grande cadeia de intelectuais que mantém viva a chama da nossa cultura popular. No
passado, mais precisamente no século 19, tivemos duas grandes figuras de folcloristas, o
sergipano Silvio Romero e o pernambucano Pereira da Costa. O primeiro, muito irrequieto,
nascido em Sergipe estudou no Recife, tomando-se um dos fundadores, ao lado de Tobias
Barreto, da Escola do Recife. Transferiu-se para o Rio de Janeiro, então principal centro
cultural do país, destacou-se como sociólogo, historiador da literatura brasileira, como
crítico literário e como folclorista, talvez a parte mais importante de sua obra.
O historiador Pereira da Costa, ao contrário de Silvio Romero, passou
a sua vida praticamente no Recife, desbravando arquivos, colecionando catálogos e
escrevendo sobre os principais acontecimentos do Estado, tendo deixado numerosos livros,
dentre os quais se destacaram os Anais Pernambucanos, o Folk-Lore Pernambucano e o
Vocabulário Pernambucano. Sereno e trabalhador, limitou-se, na maior parte de sua obra, a
contar fatos da história de Pernambuco, embora, diante de determinados temas, ele se
entusiasmasse e escrevesse verdadeiras catilinárias, como o fez sobre as figuras de João
Fernandes Vieira e Tiradentes.
Mas, se como historiador foi sempre muito reverenciado, não menos ele
foi como folclorista. E quando iríamos prestar uma homenagem a Pereira da Costa pelo seu
sesquicentenário, o nosso folclorista Mário Souto Maior iria ser expositor de um painel,
ao lado de José Pereira da Costa Brito, bisneto do homenageado, e dos folcloristas
Roberto Câmara Benjamim e Olímpio Bonald da Cunha Pedrosa, se não tivesse morrido três
dias antes do evento.
A bandeira de Silvio Romero e de Pereira da Costa foi tomada por
vários estudiosos, dentre os quais podemos destacar Luís da Câmara Cascudo que, de
Natal, passou toda a vida recolhendo fatos e canções folclóricas, procurando explicar a
origem das manifestações populares nas variadas culturas que se integram à identidade
brasileira. Sobre Cascudo podemos dizer, sem qualquer dúvida, que teve uma influência
direta sobre Mário Souto Maior, de quem era amigo pessoal.
Mário Souto Maior, desde muito jovem, demonstrou fortes pendores
literários; despertou como folclorista na Fundação Joaquim Nabuco, então Instituto
Joaquim Nabuco. Estimulado por Mauro Mota e Gilberto Freyre, escreveu um Dicionário de
Palavrões, que teve a maior divulgação no país. A esse Dicionário seguiram-se outros
livros abordando temas diversos, como no Dicionário Folclórico da Cachaça, um texto
sobre o nascimento do "cabra da peste", os "preconceitos alimentares",
a "perna curta da mentira" no folclore e na história, as relações entre
portugueses e brasileiros e assuntos ligados à Literatura de Cordel.
Mário formava, ao lado de folcloristas como Roberto Câmara Benjamim,
Olímpio Bonald, Leonardo Dantas, uma equipe que vem dando continuidade ao estudo de
causos pitorescos, ora com infiltrações na história e ora na antropologia. Com a sua
morte, deixou o nosso convívio esse grande amigo, continuador e discípulo de Silvio
Romero, de Pereira da Costa, de Câmara Cascudo e de tantos outros; um homem simples,
inteligente e modesto, que sabia contar estórias como ninguém e que para nós, seus
amigos, continua bem vivo, através de sua obra. Obras que não devem ser lidas apenas
pelos intelectuais mas também pelos estudantes das escolas, a fim de que se continue
cultivando a mais sadia penambucanidade.
Manuel Correia de Andrade é historiador e geógrafo.
Jornal do Commercio
13.01.2002