NA-ÁGUA-E-NO-COURO. Diz-se quando a pessoa só tem uma roupa. Tira
quando vai lavar e veste depois de lavada.
NA-HORA-DA-PORCA-TORCER-O-RABO. No momento
difícil, preciso, de alguém mostrar seu valor, suas qualidades.
NAGÔ. Nome dado a todos os negros da
Costa dos Escravos que falavam o ioruba. Os franceses colonizadores do Daomé
chamavam os iorubanos de nagôs, que chegaram, em maior quantidade, na cidade de
Salvador e tiveram muita influência na formação social e religiosa dos mestiços
baianos. O candomblé, os babalaôs, os babas, as filhas de santo,
os instrumentos musicais (tambores, agogôs, arguês, adjás), os cantos da
tartaruga, a culinária (vatapá, acarajé, abará, etc), o santuário peji,
Exu, Ogum, Oxumaré, Oxóssi, chegaram ao Brasil por intermédio dos nagôs.
NAMORO-DE-CABOCLO. É como se diz, do
namoro, da paixão em segredo que o homem sente sem ter coragem de se declarar. Namoro a
distância, respeitoso, platônico.
NANAR. É o verbo que as crianças usam
quando querem dormir. E, para adormecer os filhos de colo as mães costumam entoar este
acalanto, esta cantiga de ninar muito conhecida em Portugal e no Brasil: - "Nanai,
meu menino,/ Nanai meu amor;/ A faca que corta/ Dá talho sem dor".
NÃO-DÁ-UM-CALDO. Diz-se de quem não é
de nada, incapaz de trabalhar, de resolver um problema, de sair de uma situação
difícil.
NÃO-É-FLOR-QUE-SE-CHEIRE. Diz-se de quem
não é boa pessoa, de quem tem más qualidades.
NÃO-ESTAR-PARA-BIU. O mesmo que não
estar pra mim.
NÃO-SABER-DA-MISSA-UM-TERÇO. Ignorar
toda a verdade sobre determinado fato ou assunto.
NÃO-ME-TOQUE. 1. É um doce feito com
goma de tapioca, leite de coco e açúcar e que se desmancha na boca; 2. É como são
designadas as pessoas cheias de melindres, de nó-pelas-costas, de nove-horas,
de fricotes.
NÃO-VALER-O-QUE-O-GATO-ENTERRA. Diz-se de
quem não tem nenhum valor, nenhuma qualidade.
NATAL. O Natal é uma festa universal.
Cada país comemora o Natal à sua maneira. No Brasil, durante o Natal, temos autos
tradicionais, bailes, alimentos típicos, reuniões, bumba-meu-boi, boi, boi-calemba,
cheganças, marujadas ou fandangos, pastoris, lapinhas, congadas, reisados e
missa-do-galo, peru assado, castanhas confeitadas, etc.
NAU-CATARINETA. É uma xácara (narrativa
popular em versos), de procedência portuguesa, que conta a estória de um barco que
atravessava o Atlântico em circunstâncias trágicas. No Brasil, a nau-catarineta,
convergiu para o auto (é um gênero teatral que vem da Idade-Média, período histórico
que começa no século V até a metade do século XV), do fandango onde aparece como a
jornada XVI.
NAZARÉ. No mês de setembro tem lugar, na
cidade de Belém-PA, a festa de Nossa Senhora de Nazaré que reúne milhares de devotos de
todo o Brasil. É a festa mais popular do Pará. Tem procissão, desfile de promessas,
conduzindo a imagem da santa que percorre as ruas da cidade, acompanhada do círio de
Nazaré, uma vela grande de cera, debaixo de uma chuva de flores. A festa dura quatorze
dias.
NEGO-BOM. É um doce popular nordestino
que se faz assim: Machucam-se vinte bananas-prata com um quilo de açúcar numa caçarola,
que é levada ao fogo brando, mexendo-se até soltar da vasilha, isto é, num ponto bem apurado.
Bota-se o suco de dois limões, retira-se do fogo e bate-se bem. Depois de bem batido,
pega-se a massa e fazem-se bolinhas que são enroladas em pedaços de papel e vendidas em
tabuleiros nas feiras ou nas pequenas mercearias dos bairros da cidade.
NEGRINHO-DO-PASTOREIO. O negrinho era
escravo de um estancieiro (fazendeiro) rico, mau e perverso. Quando o negrinho estava
pastorando os cavalos do patrão alguns deles se perderam, motivo pelo qual foi surrado
barbaramente, atirado dentro de um formigueiro, onde faleceu. Dizem que ele aparece
montado num cavalo baio, à frente de uma tropilha que ninguém vê mas o tropel de
cavalos é ouvido. O negrinho-do-pastoreio é afilhado de Nossa Senhora, a quem as
pessoas fazem promessas para encontrar as coisas perdidas. A lenda é muito conhecida do
Rio Grande do Sul até as fronteiras do Estado de São Paulo.
NEGRO. O mundo só tomou conhecimento da
existência da África a partir do século X, afirma Dela Fosse. E o Império de Ghana foi
a porta que se abriu aos olhos curiosos dos europeus aventureiros. Mas, somente a partir
do século XV é que a mobilidade dos portugueses começou a explorar o litoral africano,
"situação que perdurou até os meados do século XIX", na opinião de
Kretschmer. Nunca foram científicos nem somente políticos os motivos que
entusiasmaram os navegantes portugueses na exploração da costa africana. Claro que as
expedições, em sua maioria, eram custeadas pelos cofres da Coroa que tinha também
interesse em tomar posse das terras descobertas para fazê-las colônias. Com exceção
das missões religiosas a serviço da catequese, a motivação responsável, a motivação
responsável pelas incursões no mundo africano foi um misto de colonialismo oficial e de
comercialização particular, visando o aumento da área de dominação e o enriquecimento
do tesouro real e de particulares, com a venda de especiarias e demais produtos do
continente. E o escravo, durante mais de três séculos, foi a mercadoria mais
procurada e, conseqüentemente, de maior valor e que mais lucros proporcionou aos
mercadores de negros. Do século XVI até 1830, a escravidão humana foi, até
agora, o período mais negro da história desta nação. Capturado como se fosse um
animal qualquer, atravessando o Atlântico no porão infecto dos navios, misturados com
ratos e dejeções, sem luz e quase sem ar, mal alimentado, o negro africano chegou ao
Brasil contando apenas a seu favor com a igualdade de condições climáticas contra toda
uma enorme série de adversidades entre as quais se avultava a completa negação de sua
condição de ser humano. O escravo não era considerado gente, pessoa; era apenas uma
peça, como se dizia, na época. Do século XVI até 1830, 4.830.000 escravos africanos
entre congos, cambindas, angolas, angicos, e macuas chegaram ao
Brasil, período em que, mais do que o índio e do que o branco, ajudaram este país a
crescer. A participação do negro na vida brasileira é imensurável. A força de
seus braços nos deu a cana-de-açúcar, o cacau, o café, o milho, o algodão, os
minérios, o feijão. Todos os acontecimentos históricos contam com a participação do
negro: da marcha para o Oeste à invasão holandesa, da guerra do Paraguay à II Guerra
Mundial, Cruzando com o português, ele nos deu a mulata de dentes claros, faceira,
sensual, de corpo bem feito, andar bamboleante e olhos de amor. Deu-nos, também, a morena
jambo que, com o mesmo dengo e faceirice, constituem os mais representativos tipos de
beleza tropical brasileira. Na música, o samba descido dos morros cariocas e o maracatu
pernambucano nos falam de sua tristeza e das dores de amor, constituindo, assim, o que se
pode chamar de música brasileira. A própria língua portuguesa falada no Brasil foi
enriquecida com a contribuição do negro: acarajé e angu, bangüê e batuque,
cachaça e cafuné, dengoso e dunga, engabelar e Exu, fubá e fulo, guandu e gambá, iaiá
e inhame, jerebita e jiló, lundu, mandinga e maracatu, Oxum e Orixá, papagaio e patuá,
quiabo e quitute, samba e senzala, tanga e tuta, vatapá, xangô, zabumba, zebra e
mais 368 vocábulos que Renato Mendonça estudou, foram palavras, muitas delas gostosas,
trazidas pelo negro escravo. Que dizer da enorme contribuição do negro à
culinária brasileira do Nordeste? Inúmeros são os pratos encontrados na área de sua
maior freqüência: abará e acarajé, bambá e bobó, caruru e cuxá, dendê, efó,
fufu, humulucu, ipetê, lelê, mungunzá e muqueca, olubo, quibêbe, quizibiu, sabongo,
uado, vatapá, xinxin e uma porção de outras comidas gostosas, estudadas por Luís
da Câmara Cascudo. Até na própria religião católica professada no Nordeste o negro
tem dado uma colaboração especial. Nas artes, nas ciências e nas letras vamos encontrar
negros enriquecendo e abrindo novos horizontes às suas atividades. O folclore
brasileiro tem seu lastro maior na herança do português colonizador. Os índios, por sua
vez, mais filósofos do que os negros, sempre foram batuqueiros, e nos legaram muitas
lendas explicando a origem das coisas terrenas e sobrenaturais, feitiçarias e pratos
ligados à mandioca. Depois da contribuição portuguesa, a participação do negro no
folclore brasileiro é a mais importante, quantitativa e, mesmo qualitativamente.
Contribuição mais musical do que oral. E muito mais rítmica. O coco, o samba, o
maracatu, a capoeira, o bate-coxa, a batucada, o batucajé, o bumba-meu-boi, o
esquenta-mulher, o caiapós, o carimbó, as superstições, os tabus, os fetiches, são
do negro. Quando Deus acabou de fazer o mundo, ficou muito cansado. Ficou
muito cansado mas ficou também muito contente. Os pássaros, as flores, as árvores, o
mar, as borboletas, a brisa, o pôr-do-sol, tudo ficou muito bonito. Mas, quem é que ia
admirar as belezas do mundo? Precisava de alguém para ouvir os pássaros, sentir o cheiro
das flores, ver o vôo colorido das borboletas, sentir a brisa, viver o pôr-do-sol.
Pensou, pensou, pensou e, com um pouco de barro, fez o homem. Achando que o homem estava
muito só, fez, depois, a mulher. E assim foi se fazendo o povo. Só que tinha uma coisa:
todos os homens e mulheres eram pretos, da cor do barro, que era de massapê. Como não
gostassem de ser pretos, foram todos falar com Deus para que ele desse um jeito. Nosso
Senhor ouviu a reclamação e mandou que todos fossem se lavar num poço. Os que
encontraram a água limpa lavaram-se e ficaram brancos. Os que vieram depois já
encontraram a água meio toldada, e, quando tomaram banho, ficaram mulatos. Os que
chegaram por último, já encontraram pouca água e, assim mesmo, escura, e só fizeram
lavar as palmas das mãos e as solas dos pés que ficaram quase brancos. Assim, os homens
são brancos, mulatos e pretos desde o começo do mundo. É a estória que o povo conta,
explicando por que os homens têm cores diferentes. Apesar de sermos um povo sem
preconceito racial, qualidade que herdamos do português colonizador que se misturou com o
escravo africano e os índios, o que não aconteceu com o inglês na África, onde viveu
até hoje isolado dos nativos o negro, muito poucas vezes, sofre
restrições sociais da parte de alguns brancos. De alguns brancos que nem são brancos de
todo, é bom que se diga. Há, entretanto, uma rivalidade entre negros e brancos,
principalmente entre brancas e mulatas quando se trata de conquistar os homens. E essa
briga vem de muito longe, desde os tempos coloniais, quando os senhores de engenho com
ainda bom sangue lusitano correndo nas veias, amavam doces escravas, misturando seus
gemidos aos dos canaviais açoitados pelo vento. E esse problema sexual envolvendo
senhores do engenho preferindo ebúrneas mucamas em detrimento de pálidas sinhás já foi
magistralmente estudado por Gilberto Freyre em Casa-Grande & Senzala.
Mas, os brancos portugueses gostavam tanto do negro, de suas comidas, de seus
batuques, de suas crendices religiosas, que incluíram no seu vocabulário muitas palavras
ainda hoje correntes e vestiram sua linguagem com muito carinho e com muito dengo quando
usaram a palavra negro na sua corrutela mais popular, nego. Minha nega,
neguinha significam amor e carinho na boca dos brancos e até mesmo dos próprios
pretos quando dialogam com a mulher amada. Informa Luís da Câmara Cascudo que Dom Pedro
I, quando escrevia suas cartas e seus bilhetes à Marquesa de Santos, terminava sempre
assim: "Seu negrinho Pedro".
NEGRO-E-ONÇA. É voz corrente, no
interior, que a onça prefere a carne do negro à carne dos homens brancos, mulatos e
morenos. Daí dizer-se que "Negro é comida de onça".
NEGRO-PRETO. Como se chama o negro
retinto, da cor de ébano, luzidio, mais preto do que os negros comuns.
NELSON DE ARAÚJO nasceu no dia 4 de
setembro de 1926, na cidade de Capela, SE. Fez o curso médio no Colégio Salesiano de
Aracaju. Passando a residir em Salvador, militou durante longos anos como jornalista,
revisor, tradutor, fotógrafo documentarista e laboratorista, repórter, articulista e factotum
da Livraria Progresso. Em 1957 publicou seu primeiro livro Um acidente na estrada e
outras histórias, com o qual ganhou o Prêmio Gerhard Meyer. Em 1959 veio a lume A
companhia das Índias (teatro). Em 1960 foi convidado para ensinar História do Teatro
na Universidade Federal da Bahia. Como teatrólogo, também escreveu várias peças, entre
as quais Rosarosal, rosalrosa, Auto do tempo e da fé, Cinco autos do Recôncavo, e
os trabalhos Alguns aspectos do teatro no Brasil nos séculos XVIII e XIX, História do
Teatro, Duas formas de teatro popular do Recôncavo baiano, O baile pastoril da Bahia, La
percepcion de la realidad africana en el Brasil (publicado na Argentina e em
Portugal), Três novelas do povo baiano, Folclore e política. Em 1982, recebeu o Troféu
Martim Gonçalves, como prêmio pelo conjunto de suas obras sobre teatro e em 1985, o
título de Cidadão da Cidade de Salvador, Concedido pela Câmara Municipal de
Salvador. Autor de outras peças de teatro, muitas das quais tendo o popular como tema, e
de ensaios e artigos sobre o folclore do Recôncavo, Nelson de Araújo também se destacou
como fotógrafo (menção honrosa com a foto Carroussel, no II Salão Baiano de
Fotografia, 1969) e produtor de audio-visuais. Faleceu no dia 7 de abril de 1993, em
Salvador.
NEM-COM-AÇÚCAR. De modo nenhum, por
nenhum motivo.
NEM-QUE-CHOVA-CANIVETE. Veja
NEM-COM-AÇÚCAR.
NINA RODRIGUES nasceu no dia 4 de
dezembro de 1862, na cidade de Vargem Grande, MA. Fez o secundário no Seminário de N. S.
das Mercês e no Colégio São Paulo. Começou a estudar medicina na Faculdade de Medicina
da Bahia e concluiu o curso na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Regressou ao
Maranhão, onde pouco demorou, fixando residência em Salvador, ingressando no magistério
superior e dedicando-se às pesquisas de sua área de ação. Foi membro da Academia
Maranhense de Letras. Publicou Os mestiços brasileiros (1890), O problema negro
na América do Sul (1932), Os africanos no Brasil (1932), além de inúmeros
ensaios, estudos e artigos em revistas especializadas. Faleceu em Paris, no dia 17 de
julho de 1906.
NINAR. É botar o menino para dormir,
acalentando, entoando cantigas de ninar. Veja ACALANTO.
NÓ. Os feiticeiros e catimbozeiros
dão nós nos fios de algodão que simbolizam a vida humana. E os nós que
os catimbozeiros e feiticeiros dão atrasam os negócios, botam as pessoas
para trás.
NOITE. A noite tem muitos
mistérios. Durante a noite não se deve pronunciar nomes malditos nem praguejar
porque o Diabo ouve. É durante a noite que os fantasmas e as almas do outro mundo
aparecem. Gemidos são ouvidos, gritos, animais horríveis, assombrações que nascem das
sombras. Às altas horas da noite e pela madrugada acontecem os assaltos, os roubos.
NOITEIRO. No mês de maio cada
noite uma pessoa se encarrega de enfeitar a igreja com flores e velas, foguetes-do-ar,
pagar a banda de música, etc. Essa pessoa é o noiteiro, que deseja que sua noite
seja a mais bonita de todas as noites da novena do mês de maio.
NOMES. Os meninos quando nasciam,
antigamente, recebiam o nome do santo do dia, o nome do avô, ou do pai. As mães faziam
promessas na hora do parto, para que tudo corresse bem. Depois, os pais passaram a
registrar os filhos com o nome de homens ilustres, de pedras preciosas, de países.
Atualmente, muitos recém-nascidos são registrados com nomes de personagens de novela, de
filmes. Há, também, os pais que registram os filhos com nomes enormes, extravagantes,
como no caso do menino que foi batizado como Tchaikovsky Johannsen Adler Pryce
Jachmanfaier Ludwin Zollman Hunter Lins, nome que não vai caber em sua carteira de
identidade, no seu título de eleitor e que o menino, na escola, vai levar muito tempo
para aprender a escrever. O nome das pessoas é muito importante; a pessoa tem que
carregá-lo durante toda a vida.
NOVA-SEITA. É o nome que se dava aos
protestantes, evangélicos, batistas, presbiterianos e outros adeptos de seitas diversas,
quando começaram a aparecer no Nordeste.