COLEÇÃO APRENDER BRINCANDO
Um Menino Chamado Mário Souto Maior

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- Xiii, cadê vôinho? Será que não vai ter estorinha hoje, tio Jan! – gritou Lucas, contrariado.

- Vai, sim, Lucas. Seu avô teve que sair, mas o tio aqui vai contar pra vocês uma estorinha muito bacana que, com certeza, vocês vão gostar.

A meninada me olhou, desconfiada. É que eles já estavam acostumados a ouvir, aos domingos, o avô contando estórias dos grandes brasileiros e o que fizeram para merecer o respeito de todos. E fui sentando na cadeira do avô deles, meu pai. Mesmo assim, todos se sentaram perto de mim, meio insatisfeitos, mas, curiosos.

- Sobre quem vai ser a estória de hoje, tio Jan? – perguntou Carol.

- É sobre um pernambucano que vocês conhecem muito, um cabra da peste que já escreveu muitos livros sobre o povo nordestino, seus usos e costumes...

- E o que é cabra da peste? Será um bicho, uma cabra doente? – quis saber Érica.

- Não, Érica. Cabra da peste, é como são chamadas as pessoas que nascem no Nordeste, pessoas corajosas, valentes e boas e que, desde cedo, enfrentam os problemas causados pela seca, por exemplo...

- Ah! Entendi, tio Jan. Mas quem é esse cabra da peste? – perguntou Érica.

- Vocês o conhecem muito bem. O nome dele é Mário Souto Maior.

- O vôinho? – disseram todos.

- Ele mesmo.

- Ôba! – gritaram todos de uma vez.

- Conta, tio. Conta, vai.

- Prestem atenção. Mário Souto Maior, o Bálio (como chama Eduardo), filho de Manuel Gonçalves Souto Maior e de Marieta da Mota Souto Maior, nasceu no dia 14 de julho de 1920, na cidade de Bom Jardim, interior de Pernambuco. Cresceu como todo nordestino, tomando banho de açude, jogando pião e bola de gude, empinando papagaio, caçando lagartixa de bodoque, chupando pirulito, saboreando algodão doce e alfenim, andando pelo mato em busca de aventuras infantis, brincando de Lampião e Antônio Silvino armado de baladeira ou estilingue ou bodoque.

- E o que é bodoque, tio? – perguntou Marcelo.

- O bodoque é feito com um pequeno galho de árvore, geralmente da goiabeira, no formato da letra Y, no qual se prendem duas tiras de borracha de câmara de ar de automóvel, brinquedo muito usado pelos meninos do interior.

- E o bodoque ou atiradeira atira com quê? – perguntou Bruno, que estava muito atento.

- Os meninos atiravam com o fruto da carrapateira, uma bolinha verde ou até mesmo com bolinhas de barro secas ao sol.

- Aqui, em casa, tem uma goiabeira. Só falta a carrapateira... – falou Lucas.

- Mas vamos continuar a estória. O menino Mário começou a aprender a ler quando tinha dez anos, na escola da professora Santinha. Fez o curso primário e ginasial no Colégio Marista (Recife), o pré-jurídico no Colégio Carneiro Leão, para em seguida, formar-se em Direito pela Faculdade de Direito de Alagoas.

Antes de terminar o curso de Direito o avô de vocês casou com vovó Carmen e começaram a nascer os sete filhos: Fred, Gise, Jane, Lis, Jan e os gêmeos Glen e Ed.

- Puxa , tio, que nomes engraçados... – falou Marcelo.

- Ah! Foi o avô de vocês quem escolheu e cada um tem a sua estória.

- Conta, tio, conta, vai...

- Vou contar. O nome escolhido para o primeiro filho, seria Frederico. Mas o avô de vocês, separando as sílabas do jeito dele, encontrou FRED-É-RICO. Como não tinha ninguém rico na família, cortou o ERICO e deixou somente Fred, que é casado com Maria Helena e pai de Carolina, Érica e Marcelo. Em seguida, nasceu a primeira menina e seu nome seria Gisele. Mário cortou o LE e ficou somente Gise, que é a mãe de Bruno. Depois nasceu a segunda menina que seria Rejane que, sem o RE, ficou Jane. Nasceu a terceira menina que seria Flor-de-Lis que perdeu o FLOR-DE, ficando Lis. Depois nasci eu, Jan, nome de um personagem de um livro que ele estava lendo, Glen, em homenagem ao maestro Glen Miller e Ed, nome de um grande amigo seu, Edmund Molloy, americano.

- Bem criativo o , não é tio Jan! – disse Bruno.

- É. Mas, vamos continuar a nossa estória.

Advogado dos pobres, foi promotor público de Surubim e João Alfredo, Prefeito de Orobó, professor da Escola Normal, do Ginásio de Bom Jardim, PE, que ajudou a fundar para que os meninos pobres de sua terra tivessem instrução e Inspetor Federal de Ensino do Ministério da Educação.

Em 1967 veio, com toda a família, morar no Recife, para que nós, seus filhos, pudéssemos estudar já que em Bom Jardim não havia universidade. E foi trabalhar no Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, hoje Fundação Joaquim Nabuco, onde começou a fazer suas pesquisas de Folclore.

- O que é Folclore, tio? – perguntou Érica.

- Folclore, Érica, é a ciência que estuda os usos e costumes do povo, suas danças, suas comidas, suas adivinhações, sua maneira de falar, coisa assim.

- Difícil, não é, tio? – continuou , Érica, sempre muito curiosa.

- Apenas trabalhoso e exige muita paciência e dedicação.

E Mário começou a publicar seus livros. Publicou Como nasce um cabra da peste (que Altimar Pimentel, amigo dele, transformou numa peça de teatro), Cachaça, Nomes próprios pouco comuns, Comes e bebes do Nordeste, Dicionário do Palavrão, num total de mais de cinqüenta livros.

- Tantos assim, tio? Pra que quer tantos livros? – indagou Lucas.

- Para que as pessoas possam pesquisar e aprender neles.

Hoje, com seus oitenta anos de muito trabalho e de muita luta, é Chefe da Coordenadoria de Estudos Folclóricos da Fundação Joaquim Nabuco, onde trabalha desde 1967.

Mário Souto Maior – meu pai e avô de vocês – é poeta, contista, folclorista, escreve para revistas e jornais brasileiros e estrangeiros e já ganhou muitos prêmios.

- E tem taça? – quis saber Lucas.

- Tem, sim, Lucas.

- Goooal! – gritou Eduardo levantando as mãozinhas e pulando.

- Com o livro Alimentação e Folclore, ele ganhou o PRÊMIO SÍLVIO ROMERO (1979) – do Ministério da Educação e Cultura e o GRAN-PRÊMIO ÍBEROAMERICANO AUGUSTO CORTAZAR (1989), do Fondo do Ministério de la Educación y Justicia, da Argentina.

Este ano ele está completando oitenta anos e a gente vai fazer uma grande festa para ele.

- Com todos os presentes, não é, tio Jan? – falou Bruno.

É, sim, Bruno. Com tudo, guaraná, pipoca, bola de soprar, cocada, suspiro, algodão-doce, e tudo que ele merece.

E a garotada saiu da sala, no meio da maior algazarra, cada um fazendo seu plano para comemorar o aniversário do avô, contador de estórias.

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