COLEÇÃO APRENDER BRINCANDO
Um Menino Chamado Capiba
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Os netos queriam que eu contasse mais uma história logo depois do almoço. - Conta, vô! A gente aprende muita coisa dos grandes homens, ouvindo suas histórias falou Érica. Então eu me lembrei que não era muito bom contar histórias durante o dia. O povo diz que nasce um rabo na pessoa que conta história durante o dia. Imaginem eu, já avô, com um rabo feito gato ou feito cachorro... Expliquei prá eles que, depois do jantar, contaria uma história de outro grande homem. E eles foram brincar no terraço, no quintal. Depois do jantar reuni os netos no terraço e fui logo perguntando: - Quem é que gosta de música? E todos fizeram um barulho enorme para dizer que sim, que gostavam de música. - E quem é que já ouviu falar de Lourenço da Fonseca Barbosa, um compositor, autor de muitos frevos, valsas e maracatus que o povo canta? Todos ficaram calados porque nenhum deles sabia quem tinha sido Lourenço da Fonseca Barbosa... - Mas, Lourenço da Fonseca Barbosa este era o seu verdadeiro nome também era conhecido como Capiba Carolina, Érica, Marcelo e Bruno, que são os netos mais velhos, gritaram logo: - Ah!, vô! Capiba a gente conhece. Ele fez muitas músicas de carnaval, não foi, vô? perguntou Carolina. - Foi, Carolina. Além das músicas de carnaval, Capiba também fez muitas valsas, maracatus e peças de harmonia. E Marcelo, que é o mais calado de todos, perguntou: - E o que quer dizer a palavra Capiba, vô?
- Nossa! exclamou Lucas. Que homem mau! - É, Lucas, matar criancinhas é um crime muito grande. Mas, voltando a falar do jumento, é preciso que vocês saibam que, apesar de ser um animal muito bonzinho, ele tem um defeito: quando ele emperra, empaca, não obedece a ninguém, e só faz o que ele quer. O avô de Lourenço da Fonseca Barbosa era um homem inteligente, mas quando queria uma coisa, essa coisa tinha que ser feita de qualquer maneira. Quando ele emperrava, ninguém o fazia mudar de opinião. Daí o apelido de Capiba, apelido como ficaram conhecidos todos os seus filhos e netos, os capibas. Mas, vamos continuar a história de um menino chamado Capiba. Parei um instante para tomar um suco que vovó Carmen me trouxe e continuei: - Filho de Severino Atanázio de Souza Barbosa e de dona Maria Digna da Fonseca Barbosa, Capiba nasceu no dia 28 de outubro de 1904, na vila de Surubim, Município de Bom Jardim, no agreste pernambucano. - E o que é agreste, vô? indagou Bruno. - Agreste é a região que, em Pernambuco, fica entre o sertão e a zona da mata, na qual as chuvas começam a ficar escassas. E Lourenço da Fonseca Barbosa foi o nono filho e depois dele nasceram mais quatro, somando treze irmãos. O velho Severino tinha que trabalhar muito para manter a família, no que era ajudado pelos filhos mais velhos. Uma coisa interessante: tanto o velho Severino como seus treze filhos, menos os que morreram bem pequenininhos, todos eram músicos. O velho Severino era mestre da banda-de-música e tocava todos os instrumentos. Capiba foi batizado no dia 11 de dezembro de 1904, na Igreja da Vila de Surubim e foram seus padrinhos Manuel Souto Maior e Maria Amélia Souto Maior. Com tantos irmãos pequenos, Capiba foi criado empinando papagaio, caçando lagartixas e rolinhas, brincando de dono-da-calçada, de bolinhas-de-gude, assando castanhas de caju, pintando o sete. Com uma família tão grande, o pai de Capiba, para sustentar a família, trabalhou em Bezerros, Recife, Carpina, Gravatá, Nazaré da Mata, Queimadas (hoje Orobó), João Alfredo, onde sempre era o mestre das bandas-de-música, nas quais os irmãos mais velhos já tocavam também. Foi chamado para trabalhar em Taperoá e em Campina Grande, na Paraíba. Nessa época, Capiba só se interessava por duas coisas: a música (já tocava trompa, com dez anos de idade, na Banda Lira da Borborema) e o futebol, chegando, aos dezesseis anos, a jogar no Ámerica Futebol Clube da capital paraibana, time em que seu irmão Severino Capiba era o goleiro.
- Cinema mudo, vô? perguntou Bruno. - Sim, Bruno. É que o cinema, logo que apareceu, não tinha som, isto é, não tinha música e nem as pessoas falavam. Quando as pessoas diziam alguma coisa, abriam a boca, como se estivessem falando e o que elas queriam dizer aparecia escrito na tela, como nas revistas de quadrinhos de hoje. E, para quebrar o silêncio, uma pessoa tocava piano. Com o casamento da irmã Josefa, o pai de Capiba resolveu que ele fosse substituir a irmã, tocando piano no Cinema Fox. O pobre Capiba chega tomou um susto. Mas, ordem era ordem. E, para obedecer ao pai, Capiba teve poucos dias para aprender a tocar piano e, com dezesseis anos, já era o pianista do cinema Fox, muito embora preferisse jogar futebol como centroavante do Campinense Clube. - E ele se saiu bem, vô? - quis saber Érica. - Saiu-se muito bem, Érica. Passou quase um mês estudando com o pai e num instante aprendeu a tocar aquele instrumento preto, grande, cujo teclado parecia mais uma dentadura. Foi assim que Capiba começou a tocar piano nas festas, nas orquestras. Em 1924 foi morar em João Pessoa, na Paraíba, onde estudou no Liceu Paraibano, jogou futebol e tocou. Quando sua mãe morreu, Capiba e seu irmão Antônio fizeram uma valsa chamada Lágrima de Mãe, que foi sua primeira composição musical. Desde então Capiba nunca mais parou de fazer música que o povo cantava e gostava muito. Em 1930 Capiba mudou-se para o Recife, onde fez concurso e começou a trabalhar no Banco do Brasil. Casou no dia 24 de novembro de 1960, com Maria José da Silva sua Zezita, que foi o grande amor de sua vida. Foi um dos fundadores da Jazz Band Acadêmica que animava as festas nos clubes do Recife.
Assim viveu Capiba. Trabalhando no Banco do Brasil, tocando seu piano, compondo suas músicas, pintando seus quadros, até o dia 31 de dezembro de 1998, quando faleceu. Capiba foi um grande brasileiro, um pernambucano ilustre, que fez o povo ficar mais alegre cantando suas músicas. - Lá, lá, lá, lá! - cantarolou Eduardo, tocando seu violãozinho de brinquedo. |