COLEÇÃO APRENDER BRINCANDO
Um Menino Chamado Joaquim Nabuco
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- Uma briga? quis saber Marcelo. - Uma briga , sim continuou Bruno uma briga que começou quando Júlio, um menino já meio grande e forte, agrediu Pedrinho. Pedrinho é negro e todo mundo gosta dele. E Júlio chamou Pedrinho de negro, dizendo, ainda, que negro não era gente. Pedrinho disse que se orgulhava de ser negro e que tinha muito negro que era melhor do que certos brancos. Júlio partiu prá cima de Pedrinho, dando-lhe socos e pontapés. Aí Jacinto se meteu na briga, levando um soco na boca chega saiu sangue. - Ele morreu, vô? perguntou Lucas. - Não, Lucas. Mas ficou doendo muito. - Nossa! falou Érica. Como é que um menino maior e mais forte agride um colega menor e mais fraco, somente porque ele é negro. O que é que você acha, vô? - Antes de tudo eu acho que ninguém deve agredir as pessoas. A força muitas vezes é usada pelos que não têm razão. Se Deus botou as palavras na inteligência e na boca das pessoas foi para se entenderem. Na minha opinião Júlio errou duas vezes. Primeiro porque insultou Pedrinho, chamando-o de negro e segundo porque agrediu seu colega, menor e mais fraco, usando a violência, socos e pontapés. E Júlio não usou a inteligência. Esqueceu que brancos e negros são criaturas humanas completamente iguais. Todos têm corpo e espírito. A única diferença que existe entre negros e brancos é a cor da pele. Se um de vocês for ao mercadinho e comprar duas porções de queijo o mais gostoso e mais caro que encontrar e mandar embrulhar uma das porções com papel preto e a outra com papel branco, em casa, quando desembrulhar as duas porções, o papel branco e o papel preto vão para o lixo, enquanto que o queijo é o mesmo, ambas as porções têm o mesmo sabor. É bom lembrar que quando o negro africano chegou, em Pernambuco, ajudou muito a fazer do nosso Estado um dos maiores produtores de açúcar do Brasil. Trabalhou na agricultura, plantando milho, feijão, arroz, frutas, verduras e nas fazendas, ajudando na criação de bois e na produção de leite destinados à alimentação de todos nós. - E escravo e negro é a mesma coisa, vô? perguntou Marcelo. - O escravo, antigamente, vinha da África e era negro. Era comprado pelos senhores de engenho, pelos fazendeiros e pessoas ricas para trabalhar nos engenhos, nas fazendas, nas casas de família. O escravo não tinha vontade. Devia obediência ao seu dono. Era dado, trocado, vendido como qualquer coisa. Trouxe seus instrumentos musicais, sua música, sua dança que tanto enriqueceram a música popular brasileira. Acrescentou à língua que falamos muitas palavras novas como angu, batuque, banguê, inhame, iaiá, quiabo, quitute, samba, tanga, zabumba, zebra e mais de trezentas outras palavras que nós falamos. Tornou a nossa culinária mais gostosa. E, por falar em negros, em escravos africanos, eu vou aproveitar a ocasião para contar a vocês a história de um pernambucano chamado Joaquim Nabuco, que muito se preocupou com a situação dos escravos. Filho de José Tomás Nabuco de Araújo e de dona Ana Benigna de Sá Barreto, Joaquim Nabuco nasceu às 8:30 da manhã, no dia 19 de agosto de 1849, na antiga rua do Aterro da Boa Vista, hoje rua da Imperatriz, na cidade do Recife.
Foi no Engenho Massangana que Joaquim Nabuco passou grande parte de sua infância, andando montado em carneirinhos, brincando sob as vistas de sua madrinha, com os filhos dos escravos que tinham a mesma idade. Lá, desde cedo, o menino Joaquim Nabuco começou a compreender que não havia diferença nenhuma entre brancos e negros, todos filhos de Deus, com o mesmo corpo, com a mesma alma. Em 1857, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde foi viver em companhia de seus pais. - Eu acho que ele não gostou muito, vô. Acostumado a viver no engenho, a brincar com os filhos dos escravos, a chupar cana, a comer torrões de açúcar dourado e ir viver numa cidade grande como o Rio de Janeiro, não é vô? comentou Carolina. - É, Carolina. Mas, no Rio de Janeiro, o menino Joaquim Nabuco conheceu um mundo diferente, com coisas novas para ver, porque o Rio de Janeiro é uma cidade muito bonita, tão bonita que é chamada de Cidade Maravilhosa. Ele começou, então, a estudar na cidade de Nova Friburgo, no Colégio do Barão de Tauthpholus, um professor alemão, onde estudavam os filhos das famílias nobres. - Famílias nobres eram famílias ricas, vô? perguntou Bruno. - Eram. Quando o Brasil era uma monarquia, governado por um rei e uma rainha, seus filhos eram príncipes e princesas. As pessoas que faziam coisas importantes ganhavam títulos de barão, conde, duque, marquês e outros. Na sua maioria eram pessoas ricas, donas de muitas terras, de muitos escravos. Quando terminou o Curso de Humanidades, já um rapaz, Joaquim Nabuco matriculou-se na Faculdade de Direto de São Paulo, onde, por sua inteligência e simpatia era, já, um líder estudantil. - E o que era Curso de Humanidades? perguntou Érica. - Antigamente, quando os alunos terminavam os cinco anos do curso ginasial, que hoje é o 1° grau, recebiam um certificado do Curso de Humanidades, de bacharéis em Ciências e Letras. Em 1869, transferiu-se para a Faculdade de Direito do Recife e começou a participar do movimento que queria acabar com a escravidão no Brasil. Como estudante de Direito, fez a defesa de um escravo acusado de haver assassinado seu dono, defesa que livrou o escravo da forca. Também escreveu o livro A Escravidão, que só foi publicado muitos anos depois, em 1888. Quando terminou o curso de Direito, Joaquim Nabuco voltou a morar no Rio de Janeiro, onde começou a advogar. Fez uma viagem por quase todos os países da Europa e, quando regressou, conseguiu seu primeiro trabalho, o de adido da Embaixada do Brasil nos Estados Unidos. - Que quer dizer adido da Embaixada, vô? perguntou Marcelo. - Adido quer dizer auxiliar, Marcelo. É um funcionário que ajuda nos trabalhos da Embaixada, que é a representação de um país feita por pessoas em outro país. De volta ao Brasil, foi eleito deputado geral por Pernambuco, após ter feito muitos comícios e conferências. Na Câmara, Joaquim Nabuco desenvolveu suas idéias, apoiando a lei dos sexagenários, pela qual os escravos, depois de completar sessenta anos, ganhariam a liberdade.
- Vovô, dodói, gemeu Eduardo sonolento mostrando a perninha. Em 1896 participou da fundação da Academia Brasileira de Letras, da qual foi seu secretário perpétuo. Em 1900, Joaquim Nabuco aceitou o convite que lhe foi feito pelo governo republicano, tornando-se chefe da delegação brasileira em Londres e, em 1905 foi designado embaixador do Brasil em Washington, nos Estados Unidos. No dia 17 de janeiro de 1910, após longa enfermidade, Joaquim Nabuco faleceu na cidade de Washington, seu corpo foi trazido para o Brasil e sepultado no Cemitério de Santo Amaro, no Recife, onde é visitado e venerado pelos pernambucanos como um de seus filhos mais ilustres. Com exceção de Lucas e Eduardo, que são muito pequenos para compreender certas coisas, os outros netos bateram palmas quando terminei de contar a história de um menino chamado Joaquim Nabuco. |