COLEÇÃO APRENDER BRINCANDO
Um Menino Chamado Hélder Câmara

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Um Menino Chamado Hélder Câmara

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Todo domingo é dia de festa, aqui em casa. Os filhos, as noras e os netos fazem a nossa alegria. Os netos, então, pintam-o-sete, brincam, correm, riem, gritam, fazem um barulho enorme, um barulho que a gente sente falta quando eles vão embora.

No domingo passado a casa estava cheia. Era um dia de sol muito bonito e os netos brincavam no terraço, no quintal, subindo na goiabeira, colhendo jabuticabas e acerolas. De repente, o tempo mudou. O sol desapareceu e começou a chover bem forte. A chuva é uma benção de Deus. Ela faz com que as sementes, que os agricultores semearam, germinem, as árvores frutíferas floresçam, as flores enfeitem os jardins. Com a chuva, o mundo fica mais bonito, mais verde, mais enfeitado e a gente tem os alimentos de cada dia.

Chovendo tanto, os netos tiveram que deixar o quintal e o terraço, ficando todos na sala, onde a televisão não tinha nenhum programa que agradasse.

Aí, Lucas chegou perto de mim e falou:

- Por que não conta uma estória pra gente, como aquela daquele menino que era estudioso e gostava muito de ler e que se chamava Gilberto Freyre?

Os netos foram se aproximando e eu tive que interromper a leitura dos jornais, trocar os óculos, para atender ao pedido dos netos que são pessoinhas muito importantes para mim. Eu gosto de ser avô, porque ser avô é ser pai com açúcar. Os pais repreendem os filhos, passam carão e eu, como avô, fico quieto, no meu canto, torcendo para que nada aconteça aos netos.

- Está certo – concordei. Mas hoje eu vou contar outra estória, muito bonita, de um menino que também conseguiu ser, graças aos seus estudos, a sua força de vontade, um dos maiores brasileiros do nosso tempo. Vou contar prá vocês a estória de um menino que se chamava Hélder Câmara.

- Como é o nome dele, ? – quis saber Bruno.

- O nome dele foi escolhido por seu pai. Hélder é o nome de um lugarejo situado na Holanda.

- Tá bom, ...

O menino Hélder Câmara nasceu no dia 7 de fevereiro de 1909, na cidade de Fortaleza, Ceará. Seu pai, João Câmara Filho, era guarda-livros.

- Ele guardava os livros de quem, ? – indagou Érica, sempre muito curiosa.

- Não, Érica. Guarda-livro é a pessoa que faz a escrita comercial de uma loja, de uma empresa, de uma fábrica, anotando as mercadorias compradas e vendidas, os impostos e os salários pagos, para saber, no fim do ano, se houve lucro ou prejuízo.

- Entendi, ! – disse Érica.

A mãe de Hélder, dona Adelaide Pessoa Câmara, era professora primária...

- O que quer dizer professora primária, ? É a primeira vez que a pessoa é professora? – perguntou Marcelo.

- Não, Marcelo. Professora primária é a professora que ensina os meninos pequenos quando chegam na escola, sem saber de nada.

O menino Hélder era um menino diferente dos meninos de sua idade, que gostavam de empinar papagaio, de jogar pião, de brincar de chicote-queimado, de adivinhação, de dono-da-calçada.

Ele ficava pelos cantos, vendo os outros meninos brincar, pensando... Ele gostava mesmo era de assistir à missa aos domingos e dias santos. Um dia, resolveu que, quando crescesse, ia ser padre. E começou a brincar de padre, rezando suas missas com muito respeito, ajoelhado em frente a um altar que ele mesmo improvisava com uma cadeira, caixas de sapato e a cartilha da escola.

Fez sua primeira-comunhão no dia 29 de setembro de 1917 e, em 1923, matriculou-se no Seminário Diocesano de Fortaleza, onde foi um aluno exemplar.

Com vinte e dois anos, por não ter ainda a idade para ser padre, teve que conseguir uma autorização especial do Papa.

- Eu quero papa... – choramingou Eduardo, o menorzinho dos netos.

- Não, Eduardo. Não é papa de se comer. Papa também é o Chefe da Igreja Católica do mundo todo. É o chefe de todos os padres, que lhe devem obediência, expliquei.

No dia 16 de agosto de 1931, depois de conseguir a autorização do Papa, o padre Hélder Câmara celebrou sua primeira missa.

Assim como era um menino diferente dos outros, o padre Hélder Câmara também foi um padre diferente dos outros padres que se limitavam a rezar missa, fazer sermões, confessar os pecadores, fazer novenas do mês de maio, fazer festa da padroeira, fazer caridade e ficar preocupado apenas com os problemas de suas paróquias. O padre Hélder Câmara tinha outros planos. Queria resolver alguns problemas da pobreza, das crianças que não tinham o que comer, o que vestir e não freqüentavam a escola, tamanha era a miséria em que viviam.

- Ele foi um amigão dos pobres, não foi ? – disse Bruno.

- Sim, Bruno. Ele tratava todos, ricos e pobres, como se fossem seus irmãos.

Como padre, Hélder Câmara participou de muitos movimentos para melhorar a situação da pobreza. Foi Secretário de Educação do Ceará. Envolveu-se, depois, com a política, chegando a fazer parte da Ação Integralista Brasileira – um partido chefiado por Plínio Salgado e que tinha como lema "Deus, Pátria e Família" -, da qual foi Secretário de Estudos. Abandonando a Ação Integralista Brasileira, o padre Hélder Câmara continuou a lutar por suas mesmas preocupações: a pobreza, a miséria e a fome.

No dia 20 de abril de 1952, o padre Hélder Câmara foi eleito bispo...

- Ele virou bicho, ? – indagou Lucas, admirado, com os olhos bem arregalados.

- Não, Lucas. Ele não virou bicho. Ele foi eleito bispo, que é um padre que, por sua dedicação e por seus serviços prestados, é promovido para um posto mais importante e que ajuda o Papa a dirigir a Igreja.

- Logo vi, . Um homem tão bom não podia virar bicho... – concordou Lucas.

Eleito bispo, devido ao trabalho que estava fazendo, sua fama cresceu ainda mais, não somente no Brasil, como até em muitos países estrangeiros, principalmente depois que ele começou sua luta pelos Direitos Humanos, combatendo os ricos – não todos os ricos, é claro, e sim os maus ricos que querem escravizar os pobres, negando-lhes os direitos que têm todos os seres humanos.

O bispo Dom Hélder Câmara recebeu muitas honrarias não somente no Brasil como até no estrangeiro, como o título de Doutor pelas universidades da Bélgica, da Suíça, dos Estados Unidos, da Alemanha, da França, da Holanda, da Itália, do Canadá, bem como de Universidades de São Paulo, do Rio de Janeiro, de Pernambuco, de Goiás, de Santa Catarina, do Paraná e do Ceará.

E Carolina, que é a neta mais velha e que já lê jornal, deu seu pitaco:

- Por defender os direitos dos pobres, por combater a miséria e a fome é que Dom Hélder Câmara foi chamado de comunista, não é, vô?

- Tem razão, Carolina. Para algumas pessoas ricas – os maus ricos, é claro – comunista é todo aquele que se preocupa com a pobreza, com a miséria, com a fome. De barriga cheia, morando em boas casas, vestindo boas roupas, com os filhos nas melhores escolas e universidades, os maus ricos não se lembram dos que não têm um pão para comer, uma escola para frequentar, um trabalho para ganhar o sustento da família. As crianças que vivem nas ruas, viram trombadinhas e percorrem os caminhos da marginalização, terminando como os assassinos de amanhã.

Reconhecendo tudo quanto Dom Hélder fez como padre e como bispo, o menino cearense foi eleito Arcebispo do Recife e Olinda no dia 12 de abril de 1964, função que exerceu até 1985.

Este ano, Dom Hélder Câmara morreu. Morreu e, ao mesmo tempo, não morreu. Morreu, porque não está mais no mundo dos vivos. E não morreu porque nos deixou seu exemplo, seus ensinamentos, sua filosofia. Os grandes homens morrem, é verdade; mas seus exemplos ficam. Foi o que aconteceu com Dom Hélder Câmara. Ele não morreu. Ele se encantou.

A essa altura, Lucas e Eduardo dormiam a sono solto. Mas Carolina, Érica, Marcelo e Bruno bem que prestaram atenção até o fim da estória de um menino chamado Hélder Câmara, que se tornou um homem, um herói, um santo.

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