- Carolina, Érica,
Marcelo, Bruno, Lucas, Eduardo! Venham sentar aqui, bem perto de mim, meus netos! Fiquem
quietinhos, em silêncio e prestem bem atenção. Eu vou contar pra vocês uma estória,
uma estória diferente. Uma estória diferente porque é uma estória sem reis nem
rainhas, sem princesas nem príncipes, sem fadas com suas varinhas de condão nem bruxas
com suas maldades, sem castelos misteriosos nem dragões botando fogo pelo nariz. E por
que? Porque a estória que vou contar é uma estória de verdade, de mesmo e que
aconteceu no começo deste século que está quase acabando. É a estória de um menino
chamado Gilberto de Mello Freyre. Um menino que virou gênio...
- Um gênio como aqueles que moram dentro de uma garrafa e que, quando
são libertados, realizam três desejos da pessoa que achou e destampou a garrafa, vô?
indagou Érica, muito curiosa.
- Não, Érica. Na estória que estou contando, gênio é uma pessoa
que sabe tudo, um sábio.
- Entendi, vô! Quer dizer que o menino Gilberto Freyre era um
menino que já sabia de tudo, que era um sábio? perguntou Érica.
- Não, Érica. O menino Gilberto Freyre não nasceu sábio, nem foi um
gênio, nem sábio desde que nasceu. Tornou-se um sábio depois que cresceu, ficou homem e
estudou muito. É que ele era muito curioso, como você, muito observador e gostava de
saber o porquê das coisas. Mas, deixem-me continuar minha estória.
O menino Gilberto Freyre nasceu no dia 15 de março de 1900, na cidade
do Recife, numa pequena casa (Hoje não existe mais. Em seu lugar foi construído um
palacete) que fazia esquina da Avenida Rosa e Silva com a Rua Amélia, nos Aflitos. Seu
pai, o Dr. Alfredo Alves da Silva Freyre, um professor da Faculdade de Direito do Recife,
um homem muito instruído e que falava diversas línguas. Sua mãe, chamava-se Francisca
de Mello Freyre, uma senhora também de uma tradicional família pernambucana, cumpridora
de seus deveres de devotada mãe de família.
O menino Gilberto foi um menino igualzinho aos meninos de seu tempo,
quando ainda não existia o rádio, a televisão, o video-game, o computador. Ouvia
estórias de Trancoso contadas pela velha cozinheira. Brincava com bolinhas de gude.
Empinava papagaios. Jogava futebol. Com seu irmão Ulysses fazia longos passeios de
bicicleta, enquanto suas irmãs Gasparina e Maria da Graça a caçula
brincavam com bonecas. Mas quando os primos apareciam em sua casa, brincavam de cabra-cega,
dono da calçada, de adivinhação. Por incrível que pareça, ele teve
dificuldades em aprender a ler. Preferia desenhar bichos, árvores e pessoas, recebendo
elogios da parte das pessoas que viam sua habilidade com o lápis. Mas quando aprendeu a
ler, lia tudo que lhe passava pelas mãos.
Seu pai cuidou cedo de sua educação. Teve professores particulares e
o Dr. Alfredo, mesmo, lhe ensinou português e latim, uma língua morta.
- Por que o latim era uma língua morta? quis saber Bruno. Quem
matou o latim?
- Nada disso, Bruno. O latim é chamado de língua morta porque nenhum
povo fala latim, como os franceses falam francês, os portugueses falam português, os
ingleses falam inglês. Língua muito antiga, o latim deu origem às línguas portuguesa,
francesa, italiana, espanhola e romena, chamadas de línguas neo-latinas. E querem saber
de uma coisa? O menino Gilberto, com apenas 14 anos de idade, já ensinava latim!
- Nossa, vô. O menino era mesmo muito inteligente!
- E tem mais: também aprendeu inglês. E o rapazinho, com muita garra,
muita força de vontade, se mandou para o estrangeiro e, com apenas vinte anos,
recebeu o grau de Bacharel na Universidade de Baylor.
- E onde fica a Universidade de Baylor, vô? quis saber
Érica.
- A Universidade de Baylor, Érica, fica nos Estados Unidos. E lá, o
agora Dr. Gilberto Freyre conheceu muita gente famosa, fez muitas amizades, aprendeu muito
e começou a escrever artigos para o Diario de Pernambuco, que depois foram
publicados no seu livro Artigos de Jornal. Vejam vocês como um menino inteligente,
com muita força de vontade e muita curiosidade se tornou um dos brasileiros mais ilustres
e uma glória para os pernambucanos.
E já estava dando a estória como encerrada quando Carolina, que me inaugurou
avô, falou:
- Agora, vô, queremos saber mais coisas sobre Dr. Gilberto
Freyre. Estamos com uma curiosidade enorme. Conta, vô!
- Terminado o curso na Universidade de Baylor, Dr. Gilberto Freyre foi
para a Universidade de Columbia onde obteve o grau de Mestre com a dissertação Vida
Social no Brasil nos meados do século XIX, depois do que voltou ao Recife e, por ser
um jovem muito talentoso e muito brilhante, foi nomeado secretário do Dr. Estácio
Coimbra, governador de Pernambuco. Como secretário, Dr. Gilberto cuidou de ajudar as
manifestações folclóricas, entre as quais, o carnaval. Naquela época, em 1930, a
situação política brasileira andava muito confusa e, por todo o país, alguns
políticos estavam planejando uma revolução para derrubar o presidente Washington Luís
e os governadores que lhes eram fiéis.
- Derrubar, voinho? E ele chorou quando caiu? Será que ele
quebrou o braço? indagou Lucas.
- Não, Lucas. Derrubar quer dizer sair do poder. Deixar de ser
presidente, entendeu?
- Entendi, voinho!
- E, no dia 4 de outubro, a revolução ganhou as ruas, os quartéis, e
o povo, com um lenço vermelho no pescoço, começou a depredar carros, incendiar casas e
outras coisas dessa natureza. O governador Estácio Coimbra e seus seguidores, entre os
quais o Dr. Gilberto Freyre, se viram obrigados a deixar o país com destino à Europa.
Na Europa, o Dr. Gilberto Freyre aproveitou o tempo para estudar,
visitar museus, pesquisar na Torre do Tombo, onde estão guardados os documentos mais
antigos de nossa História, recolhendo material para escrever Casa-Grande & Senzala,
sua obra prima, publicado em 1933, depois de regressar ao Brasil.
- Não entendi foi essa estória de obra-prima, vô! O que o
livro, escrito pelo Dr. Gilberto, tem a ver com a prima? quis saber Marcelo.
- Sua pergunta foi muito boa, Marcelo. Pois fique sabendo que, quem
escreveu livros, sempre tem um deles considerado como obra-prima. Prima, em
latim, quer dizer primeiro, principal, o melhor dos livros escritos pelo autor.
- E vô também fala latim? indagou Bruno.
- Não. Nunca consegui aprender latim, que é uma língua muito
difícil. Voltando ao assunto, eu fico pensando que se não houvesse existido a
Revolução da Aliança Liberal em 1930 e o Dr. Gilberto não tivesse se exilado na
Europa, talvez, o Dr. Gilberto Freyre não tivesse escrito seu Casa-Grande &
Sanzala.
- Eu estou voando, vô! Não estou entendendo essa
estória de casa grande e senzala ... Podia explicar essa estória direitinho, vô?
pediu Érica.
- Bem. Vocês sabem que Pernambuco sempre foi o estado brasileiro que
fabrica mais açúcar, não é? E o açúcar era fabricado onde e por quem?
- Eu sei, vô! - falou Carolina. O açúcar era fabricado nos
engenhos...
- Exatamente, Carolina. O açúcar no começo, antes das usinas, era
fabricado nos engenhos. E quem trabalhava nos engenhos? Os escravos, vindos da África.
Pois bem, a casa-grande era a maior e a melhor casa, onde moravam os donos de
engenhos, chamados Senhores-de-engenhos, e suas famílias. Já a senzala era o
lugar onde moravam os escravos.
- Entendido, vô!
- Vocês estão compreendendo esta parte da vida de Dr. Gilberto?
- Estamos, vô! - responderam todos, menos Lucas e Eduardo, os
dois últimos netos, dois pirralhos que já estavam cochilando no sofá.
-
No Recife e no Brasil inteiro, depois da publicação de Casa Grande & Senzala, Dr.
Gilberto Freyre ficou logo muito famoso e começou a ser convidado para fazer
conferências nas universidades brasileiras e estrangeiras. A verdade é que Casa
Grande & Senzala foi uma verdadeira bomba.
- Bum! Gritou Eduardo, que ainda não sabe falar direito.
- Uma bomba, porque contava coisas que ninguém nunca teve
coragem de contar. Não tardou que o livro fosse traduzido para o inglês, o alemão, o
francês, o espanhol e outras línguas.
Aconteceu uma coisa interessante com o Dr. Gilberto Freyre: Em 1942,
sempre defendendo a liberdade e o direito das pessoas, fazendo conferências e
participando de comícios etc, por questões políticas, foi preso e levado para a Casa de
Detenção. O difícil foi prender Dr. Gilberto! Foram necessários alguns homens para
domina-lo. Foi uma briga braba! Logo depois de preso ele foi solto, pois não havia
cometido nenhum crime.
Chegada a época das eleições, os estudantes pernambucanos lançaram
a candidatura do Dr. Gilberto à Câmara Federal. Apuradas as eleições, Dr. Gilberto
Freyre foi eleito.
Na Câmara Federal dos Deputados que é o lugar onde todos os
deputados se reúnem para apresentar, discutir, aprovar ou não as leis brasileiras
Dr. Gilberto Freyre apresentou um projeto criando o Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas
Sociais, com a finalidade de estudar o homem e seus problemas no Norte e Nordeste
brasileiros. O projeto foi aprovado e o Instituto passou a fazer pesquisas sobre os mais
diferentes problemas da região, como a seca, o trabalhador rural, os trabalhadores de
baixa renda, a mulher, o folclore e muitos outros.
Carolina levantou a mão e perguntou:
- Por que é que Dr. Gilberto Freyre batizou o Instituto de Pesquisas
Sociais com o nome de Joaquim Nabuco, vô?
- Por uma razão muito simples, Carolina. Joaquim Nabuco foi um homem
que muito honrou Pernambuco, principalmente na campanha que acabou com a escravidão no
Brasil. Não era justo que seres humanos, pelo simples fato de terem a pele negra, fossem
tratados como animais e tivessem donos como uma casa, uma cadeira, uma roupa. E Joaquim
Nabuco lutou muito para que a escravidão acabasse. E como Dr. Gilberto Freyre sempre foi
um homem que defendeu a liberdade, homenageou Joaquim Nabuco dando, por ocasião das
comemorações do centenário de seu nascimento, seu nome ao Instituto de Pesquisas
Sociais que fundou aqui, no Recife e que somente em 1980 se transformou em Fundação
Joaquim Nabuco.
O nome do Dr. Gilberto Freyre se espalhou pelo mundo todo. Seus livros
foram traduzidos em diversas línguas. Recebia muitos convites para pronunciar
conferências em universidades do mundo inteiro. Ganhou o Prêmio Aspen dos Estados
Unidos, o Prêmio Internazionale La Madonnina, Grã Cruz da Ordem de
Cristo, Santiago dEspada, Rio Branco, e muitas outras condecorações, medalhas
e diplomas, além de receber da Rainha da Inglaterra o título de Sir, só
concedido às pessoas mais ilustres do mundo que se distinguiram nas Ciências, nas Artes
e nas Letras.
Trabalhando
numa sala próxima a do Dr. Gilberto Freyre, um dia prestem atenção e vejam como
ele gostava de crianças apareceu, na minha sala, um menino com um gravador,
querendo fazer uma entrevista com ele. Fui falar com Dr. Gilberto que, apesar de estar,
como sempre, muito ocupado, recebeu o menino, deu a entrevista e o menino foi embora. Uma
meia hora depois o menino voltou e disse que havia esquecido de ligar o gravador. Voltei a
falar com Dr. Gilberto Freyre que, com um sorriso nos lábios, concordou em repetir a
entrevista, desta vez com o gravador ligado, por mim.
Outra coisa que vocês precisam saber: Dr. Gilberto Freyre recebeu
vários convites do Brasil e do estrangeiro não somente para exercer altos cargos como
para ensinar em famosas universidades. Vocês pensam que ele aceitou os convites? Não.
Seu amor ao Recife era tão grande que ele sempre preferiu viver aqui, rodeado pela
mulher, dona Magdalena e seus filhos Fernando e Sonia, na paz de seu sítio conhecido como
Vivenda Santo Antônio de Apipucos, com uma área de dez mil metros quadrados, toda
arborizada, com jaqueiras, mangueiras, sapotizeiros, goiabeiras e outras plantas de
variadas espécies, entre seus muitos pés de pitanga, fruta com a qual sabia fazer uma
bebida muito gostosa. A Vivenda Santo Antônio de Apipucos era um verdadeiro sítio
ecológico, com suas árvores, seus canários, beija-flores, sabiás, calangos, saguis,
cobras, timbus, borboletas.
No dia 18 de julho de 1987, com 87 anos de idade, na sua cidade do
Recife, da qual nunca quis se separar, morreu Gilberto Freyre, cobrindo o Brasil de luto.
Sua mulher e seus filhos, num gesto de muito amor à sua memória, abriram mão de seus
direitos de herança e, da saudade deles e de todos nós, nasceu a Fundação Gilberto
Freyre, para perpetuar sua memória e sua glória.
Na Fundação Gilberto
Freyre vocês poderão encontrar tudo que lhe pertenceu: a biblioteca, as medalhas, as
condecorações, seus quadros, móveis, sua correspondência com as pessoas mais ilustres
do mundo.
Qualquer dia destes, meus netos, vou levar vocês para conhecer a
Fundação Gilberto Freyre, em homenagem a um dos maiores brasileiros que se tem notícia
e que engrandeceu Pernambuco e, como sociólogo, antropólogo, professor, poeta,
jornalista, pintor, ficcionista, soube, mais do que ninguém, honrar a nossa pátria.
E todos os netos, de pé, bateram palmas numa homenagem ao grande
brasileiro.