| Filho de pai (Manuel Gonçalves Souto Maior) cornerciante e de
mãe (Maria da Mota Souto Maior) fazendeira, nasci no dia 14 de julho de 1920, na cidade
de Bom Jardim, Pernambuco, pelas mãos de sinhá Aninha, velha comadre muito
conhecida e respeitada em toda a região. Fui um menino como todo menino nordestino.
Chupei dedo, cacei passarinho e lagartixa com baladeira, joguei castanha na calçada,
furtei goiabas e cajus, brinquei de Lampião e de Antônio Silvino com frutos de jurubeba,
tomei leite ao pé da vaca e comi muito nambu assado na fazenda Taperinha do meu avô
materno Presciliano da Mota Silveira que, com os seus 97 anos, ainda faz muita proeza. Com
nove anos de idade aconteceram duas coisas na minha vida: ganhei um velocípede e me
botaram na escola da professora Santinha. Foi quando cometi uma falta muito grave: rasguei
a carta de ABC (Paulina mastigou pimenta. Delfina comera araçás. A preguiça é a chave
da pobreza. Que saudade ...) e atirei na cara da professora, rebeldia que paguei com juros
bem altos e por intermédio de uma tabica de jucá. Depois, o velocípede quebrou-se, fiz
as pazes com a professora, passei para o Primeiro Livro de Lietura de Felisberto de
Carvalho e para a Série Braga. Meu pai, que sempre foi um matuto muito inteligente,
resolveu fazer o maior sacrifício de sua vida, comprando uma casa na rua do Hospício, no
Recife e botando todos os filhos no Colégio Marista, onde passei oito anos, só saindo
para fazer o curso pré-jurídico no Instituto Carneiro Leão, do Dr. César. Quando
estudante no Recife fundei, com Guerra de Holanda, Nestor de Holanda, Pelópidas Soares,
Sousa Leão Neto, Isaac Schachnick e outros, o jornal Geração e andei colaborando no
suplemento literário do jornal do Commercio e do Diário de Pernambuco, em Fronteiras
de Manuel Lubambo, em Nordeste de Aderbal Jurema, em Esfera de Maria
Jacinta, em Vamos ler. Convivendo com Ledo Ivo e Breno Accioly virei poeta e
publiquei Meus poemas diferentes (1938), duzentos e cinqüenta exemplares por
duzentos e cinqüenta mil reis que meu pai pagou na tipografia do Sr. Maurício Ferreira,
na rua do Rangel. Por essa época, quando fazia o Tiro de Guerra 303 da Associação
Comercial, na rua da Imperatriz, a baioneta de um colega bateu no meu olho esquerdo com
tanta força que ele nunca mais prestou, ficando, sem querer, colega de Camões, mesmo sem
andar por mares nunca dantes navegados... Com a pancada do olho, fui passar uma temporada
em Bom jardim onde meu pai era o prefeito. Aconteceu que houve um eclipse do sol e o poeta
Gomes de Moura que era o secretário da Prefeitura, em homenagem ao fenômeno, tomou um
pifão tão grande que passou três dias sem aparecer no trabalho. Fui nomeado
secretário, ganhando quatrocentos mil réis. Desde os quinze anos eu tinha uma namorada
(que é hoje a companheira de todos os momentos) que era minha prima e como o meu pai era
inimigo político do pai dela, o namoro era tipo jacaré, à distância, às escondidas,
nas missas de domingo, nas novenas de maio, no circo, no cinema mudo de Antônio Lulu,
carta vai e carta vem. Com o dinheiro do meu primeiro emprego comprei uma roupa de caroá
e outra de carrapicho, umas camisas, um par de sapatos e guardava a sobra. Casei quando
estava no terceiro ano de Direito e foi quando perdi o emprego. Fui nomeado
promotor público de Surubim e, logo depois, exerci as mesmas funções na comarca de
João Alfredo, onde passei oito anos. Com a família sempre aumentando fui obrigado a
deixar a literatura, uma vez que a luta pelo feijão era muito mais importante do que a
luta pelo sonho. Meti o pau a trabalhar. Fui prefeito de Orobó. (Naquele tempo o povo
ficava com raiva quando se dizia que Orobó era a terra onde peru dava coice, candeeiro
dava choque e onde o cisco fazia a curva), agente do Censo, vendi cestas de Natal e
apólices de seguro, criei galinhas, advoguei, ensinei ciências e geografia no colégio
das freiras e fundei o Ginásio de Bom Jardim destinado à rapaziada pobre de minha terra
completamente entregue às atividades agropecuárias. É que eu tinha sete filhos, sete
pares de queixos batendo três vezes por dia, além da roupa, calçado, remédio e
instrução. Como em Bom Jardim existiam cinco chefes políticos e todos eles eram
advogados, eu só pegava questão de pobre, de pouco ganho. Cheguei a ser advogado dos
presos pobres ganhando uma ninharia por mês. Com meu irmão Moacir Souto Maior publiquei Roteiro
de Bom Jardim (1954), uma monografia sobre a terra natal. Até que um dia a
vida teve que mudar com minha nomeação para inspetor federal de ensino, quando me
vi obrigado a deixar tudo para rnorar na cidade grande. Voltei a escrever porque Mauro
Mota, diretor do Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, me pediu um artigo sobre
folclore. Descobri, então, o mundo maravilhoso do folclore, o meu mundo de menino. E,
como numa tentativa de voltar ao passado e também para matar a saudade, comecei a
trabalhar no Cachaça no Presença do Alfenim no Nordeste Brasileiro, no
Como Nasce um Cabra da Peste e nos que ainda estão sem título. Aí está a minha
vida. |