| Fernando Antônio Gonçalves Mário Oitentão. Jornal do Commercio: Recife, 22.07.2000 Manuel Correia
de Andrade Getúlio Araújo Cid Augusto Barros Alves MÁRIO OITENTÃO
"Dia 14 passado, também aniversário de minha filha Carolina, Silvino e eu fomos às comemorações oitentonas do Mário Souto Maior, um autêntico construtor da nossa cultura-popular, o maior folclorista vivo do Brasil possuidor, segundo mestre Câmara Cascudo, "da segurança pesquisadora atestada numa bibliografia fielmente erguida em fundamentos reais,...impa de simpatias culturais e de intenções econômicas." Acompanhado da Melba, minha metade quase inteira de todos os momentos, ficamos curtindo as comemorações, recheadas de testemunhos, bolão de oitenta velas, peça de teatro e muita gente. Diferentemente dos pesquisadores embusteiros e dos vivaldinos, o Mário Souto Maior sempre divulgou o nosso brasileiríssimo dia-a-dia sem recorrer aos auxílios financeiros da pátria mãe gentil, ajudas que favoreceram, em inúmeros casos, alguns sabidões que se especializaram em papers e cases que a nada conduzem, salvo aos depósitos mensais feitos pelos executivos do Sanatório Geral, alguns deles também da corriola beneficiada. Mas o bonzão da festa além do que estava programado, foi a coletânea organizada pelo Jan Souto Maior, um dos seus filhos, o que é flórida em computação eletrônica. Intitulada Mário Souto Maior, um Cabra da Peste, ela contém quase duzentos prefácios testemunhais sobre a produção intelectual do Mário. Lá estão presentes personalidades internacionalmente aplaudidas como Gilberto Freyre, orge Amado, Mauro Mota, Carlos Drummond de Andrade e Câmara Cascudo, além do nosso muito estimado vice-presidente Marco Antônio Maciel. Uma iniciativa oportuna, numa hora em que tudo no Brasil parece se concentrar nas bandalheiras desenfreadas e nos rabos e peitos siliconados de artistas, porno-artistas e emergentes, endeusadas por uma geração de ananicados mentais, seqüela primeira da omissão de uma elite contempladora dos próprios umbigos, hoje bem à mostra, nos modelitos juvenis de cintura baixíssima, própria da era pentelhel adotada pelas mais afoitas do coletivo "mamãe eu quero ser quenga." Mário Souto Maior foi agente de estatística, corretor de seguros, criador de galinhas e professor de colégio, também promotor em Bom Jardim e Orobó, "terra onde peru dava coice, candeeiro dava choque e a poeira fazia curva," antes de explodir em Como nasce um cabra da peste, um texto delicioso, para o poeta Mauro Mota "um encanto de leitura, pela fluidez do estilo, pela categoria folclórica, pela graça dos informes." O Avô do Mário, o Prisciliano, com 97 anos "ainda fazia muitas proezas." Eu, se fosse Dona Carmen, inspiradora maior do Mário, seu apoio de todas as horas, ia me preparando para mais, no mínimo 17 anos de muitas façanhas a dois, posto que hereditariedade é assunto comprovadamente científico... Tenho um orgulho arretado de ser amigo do Mário Souto Maior e irmão quase de mesmo do Jan seu filho. E de poder visitar o "seu" Mário na mais erudita garagem olindense, um espaço da casa reservado para seus livros, seu computador, seu PY alguma coisa, suas lembranças escritas e seus sonhos de amanhã. Olinda tem orgulho de ter Mário Souto Maior como um dos seus mais ilustres moradores. E a Câmara Municipal de Olinda se prepara para fazê-lo Cidadão Olindense. O Homem da Meia Noite, a Mulher do Dia e o Menino da Tarde já principiam a ensaiar os primeiros passos da festança da entrega do diploma. Uma festa muito arretada de boa, podem crer pernambucanos e pernambucanizados que nem eu. MÁRIO, 80 ANOS Manuel Correia de Andrade "Há 60 anos que convivemos e somos amigos de Mário Souto Maior; nós nos conhecemos em 1940, quando nos inscrevemos no 2° ano do curso pré-jurídico, no então Instituto Carneiro Leão. Era um período ainda tranqüilo, com o governo de Getúlio Vargas ainda forte e cooptando demagogicamente os trabalhadores, mas já nos preocupavam os acontecimentos da Segunda Guerra Mundial, que fora desencadeada a 1° de setembro de 1939, com a invasão da Polônia pela Alemanha. E os alemães, ao que tudo indicava, eram os prováveis vencedores do conflito. Assim, em apenas 15 dias eles liquidaram militarmente a Polônia e, após alguns meses, em 1940, voltaram-se para a frente ocidental, ocuparam a Holanda, a Bélgica, o Luxemburgo, derrotaram o corpo expedicionário inglês e venceram a França. A opinião estudantil já começava a se dividir a favor dos aliados ou do eixo Roma-Berlim-Tóquio, e as embaixadas da Itália e da Alemanha faziam uma grande distribuição de material de propaganda. Ocorria, porém, que muitos jovens ainda estavam mais preocupados com literatura e artes do que com política, e nos meus primeiros contatos com Mário, calmo, tímido, sempre com um livro na mão, dava a entender uma maior vocação para a literatura do que para os estudos sociais. Lembro-me até que suas preocupações literárias levaram a fazer uma leitura paciente e continuada dos romances de M. Delly, romancista francês ou francesa, de grande aceitação entre as jovens de classe média daquele tempo. A sua preocupação, a nosso ver, era um tanto psicológica, visava analisar o porquê das jovens casadoiras terem tanto interesse por este tipo "flor de laranja da literatura". Ao lado desta preocupação, Mário Souto Maior tinha um grande interesse por poesias e pelos famosos romances brasileiros, nordestinos, sobretudo pelos que eram lidos e discutidos e que procuravam revolucionar o pensamento literário no Brasil. Lia-se, em geral, José Américo de Almeida, Armando Fontes e muitos outros, ao mesmo tempo em que se lia também os ensaios, sobretudo regionais. Foi na época em que Casa-Grande & Senzala, Sobrados e Mucambos, de Gilberto Freyre, levava os jovens estudantes a se entenderem com as paisagens que os cercava. Enquanto isto, tínhamos um curso pré-jurídico com matérias que nos conduziam aos estudos sociais, como a História da Literatura Universal, História da Civilização, Economia Política, Biologia, História da Filosofia, Geografia Humana, Sociologia. O curso dispunha de um corpo docente dedicado e renomado, que preparava os estudantes para o ingresso na Faculdade de Direito. Mário, metódico, com cautela, conciliava as suas preocupações literárias com as de formação acadêmica e profissional. Depois vieram os tempos de Faculdade e as atividades profissionais exercidas, sobretudo em sua terra Bom Jardim e nos municípios vizinhos, como Surubim e Orobó, de que foi prefeito, após a queda de Getúlio Vargas. Foi neste período que publicou um interessante livro, em colaboração com o seu irmão, Moacir Souto Maior, sobre a sua cidade, o Roteiro de Bom Jardim, que, a nosso ver, deveria ser republicado. A vocação do folclorista viria depois, na maturidade, quando passou a trabalhar na Fundação Joaquim Nabuco; estimulado por Gilberto Freyre e Mauro Mota escreveu seu Dicionário do Palavrão, livro que o projetou nacionalmente, foi um trabalho feito com muito cuidado e dedicação, a ponto de encontrar palavrões até em romances de autores profundamente conservadores e "bem comportados", como o de Madame Dupré. Daí em diante, vivendo e trabalhando na Fundação Joaquim Nabuco, ele passou a publicar uma série de livros em que analisa aspectos da cultura nordestina, como o "nascimento do cabra da peste", as opiniões populares a respeito de "galalaus e batorés", as relações bastante humorísticas entre portugueses e brasileiros, os hábitos alimentares, os hábitos religiosos, as relações sociais, dando ênfase a crendices populares profundamente arraigadas nos hábitos da população. Organizou também dicionários, como o dos folcloristas, discutiu o problema da cachaça, etc. Recentemente, vem se dedicando a livros infantis, voltado para minibiografias, analisando as crianças que se tornaram grandes homens, como Gilberto Freyre, Hélder Câmara, Mário Souto Maior, hoje, é o maior folclorista vivo do Nordeste, um continuador de Pereira da Costa, Sílvio Romero, Melo Moraes Júnior, Câmara Cascudo, Veríssimo de Mello, Valdemar Valente. O BRASIL DE
MÁRIO SOUTO MAIOR Getúlio Araújo "Por um capricho dos deuses, o crepúsculo desfazia-se rápido, em noite de céu estrelado. Na fria madrugada, os galos cantaram na pacata Bom Jardim, agreste de Pernambuco, anunciando o nascimento do varão Mário Souto Maior, em 14 de julho de 1920. Na França de Honoré de Balzac, festejava-se a Queda da Bastilha. Em depoimento, para o CD-livro Como nasce um cabra da peste, intitula-se como um homem bem-humorado. Muito buliçoso, gostava de caçar passarinho e lagartixa, com baladeira; jogava castanha na calçada, furtava goiabas e cajus; brincava de Lampião e Antônio Silvino, com frutas de jurubeba; comia nambu assado e tomava leite ao pé da vaca, na fazenda do seu avô materno - Prisciliano da Mota Silveira. Proseando pelo telefone, me disse: "Dou nó em pingo d'água, beliscão em nuvem e gosto de subir de tamancos em pé de bananeira." Esse é o verdadeiro Mário Souto Maior, personagem sui generis, de boa verve, espraia humor à flor da pele, brincalhão e culto. Na adolescência, foi residir no Recife, onde estudou no Colégio Marista e fez o pré-jurídico no Colégio Carneiro Leão. Bacharelou-se em Direito no Estado de Alagoas. Foi prefeito de Orobó, promotor público das comarcas de Surubim e Bom Jardim. Foi também Inspetor Federal de Ensino, do Ministério da Educação e Cultura. Fundou, com Nestor de Holanda, Guerra de Holanda e Pelópidas Soares, o jornal A Geração. Colaborou no Suplemento Cultural do Jornal do Commercio e Diario de Pernambuco. Convivendo diuturnamente com Lêdo Ivo e Breno Accioly, tornou-se poeta. Estreou em livro aos 18 anos, em 1938, com Meus poemas diferentes. QUINTAL SOLARENGO Vem desenvolvendo excelente trabalho na Fundação Joaquim Nabuco, onde exerce o cargo de diretor do Centro de Estudos Folclóricos. É sócio correspondente dos Institutos Históricos da Paraíba, Rio Grande do Norte, Espírito Santo, São Paulo, Santa Catarina e Goiás. Em Olinda, meca de inspiração do poeta folclorista, vive modestamente, ao lado da esposa, filhos e netos. Em meio a sobrados, igrejas, conventos e chafarizes está a sua Casa-Grande, abarrotada de livros, quadros, esculturas; com o seu quintal solarengo cheio de fruteiras: mangueiras, cajueiros, sapotizeiros, abacateiros e acerolas. Quando o assunto é folclore e religiosidade, Olinda também tem muito para mostrar. Não é à-toa que recebeu o título de Cidade do Carnaval, ancoradouro de inteligências privilegiadas, habitat de artistas plásticos, cantores e escritores: João Câmara, Gilvan Samico, Raul Córdula, Alceu Valença e o incansável escritor Mário Souto Maior. EMÉRITO PESQUISADOR Souto Maior tem biótipo de ermitão. É um escritor compulsivo, desenvolvendo meritório trabalho na Fundação Joaquim Nabuco, com pesquisas nas áreas do Folclore, Etnografia e História, que enriquecem a cultura brasileira. Homem simples, madrugador, fidalgo, extremamente comunicativo, Mário Souto Maior não é apenas o folclorista e escritor consagrado no Nordeste, mas o ensaísta de múltiplos méritos. Um escritor preocupado com a preservação das nossas tradições folclóricas e a qualidade do ensino nas escolas públicas. Ele sempre valorizou o homem nordestino ou suas diversas vertentes folclóricas, estudando as crendices, as superstições, os hábitos alimentares. Já publicou 50 livros, dos quais os mais destacados são: Como nasce um cabra da peste (1969), Cachaça (1971), Antônio Silvino Capitão de Trabuco (1971), Dicionário da cachaça (1973), A morte na boca do povo (1974), Nomes próprios pouco comuns (1974), Dicionário do Palavrão (1980), Antologia da poesia popular de Pernambuco (1989), Riqueza, alimentação e folclore do coco (1994), Geografia vocabular do pau através da língua portuguesa (1994), A mulher e o homem na sabedoria popular (1994), Os mistérios do faz-mal (1996), Orações que o povo reza (1998), A mulher que comeu uma cobra (1999) e o Dicionário de Folcloristas Brasileiros (1999), muito elogiado pela crítica. Assim, Souto Maior escreve compulsivamente, cada vez melhor, em estilo simples e construindo uma obra rara na folclorística brasileira, que valoriza os anais de qualquer país. O ABRAÇO DE GOIÁS A homenagem ao seu aniversário, 80 anos, bem vividos, de profícua produção folclórica, etnográfica e histórica, engrandece o seu Estado, Pernambuco, excelente abastecedor de seu gesto criativo. Como seu amigo e admirador, estarei presente para abraçá-lo e entregar-lhe o merecido diploma de sócio-honorário, outorgado pelo Instituto Histórico de Goiás. Na oportunidade, estarei representando o presidente deste Instituto, o historiador José Mendonça Teles. O PAPA DO
FOLCLORE Cid Augusto Sexta feira passada, viajamos ao Recife, eu e os escritores Gutenberg Costa, Kyldemir Dantas, Severino Vicente e Celso da Silveira. Fomos tomar a bênção ao folclorista Mário Souto Maior que, naquele dia 14, completou 80 anos, boa parte deles dedicada ao resgate da cultura popular. Meu primeiro contato com Mário aconteceu por meio do livro A língua na boca do povo, editado pela Fundação Joaquim Nabuco, contendo expressões populares pinçadas de obras da literatura brasileira. Não demorou muito, descobri Como nasce um cabra da peste, o Dicionário do palavrão e termos afins, Galalaus e batorés, Um menino chamado Gilberto Freyre, Um menino chamado Hélder Câmara, Um menino chamado Capiba e o Dicionário de folcloristas brasileiros. Neste último trabalho - a antologia está citado o mossoroense Tércio Rosado Maia, como autor da obra Dez temas do folclore. Em Nomes próprios pouco comuns, que li durante o retorno ao Rio Grande do Norte, há mais gente de Mossoró: Jeremias Jussieu da Escóssia, José Xaxá, Tupinambá Paiva Carvalho e os filhos numerados do farmacêutico Jerônimo Rosado. Quem conhece apenas a obra de Mário Souto Maior, precisa conhecer o homem. para verificar que, em dimensão humana, ele também é maior. Aos 80 anos, esbanjando vitalidade, parece um menino traquinas, pulando degraus de escadarias, subindo rampa na carreira e navegando na Internet. Com mais de 50 livros publicados, permanece livre da vaidade dos intelectuais de alma pequena, tem olhar meigo e abraço acolhedor. Que Deus conceda, pelo menos, mais oito décadas de vida a Mário Souto Maior, cabra da peste de Bom Jardim, sucessor legítimo de Luís da Câmara Cascudo no trono de papa do folclore brasileiro. FELIZ IDADE Barros Alves " Em meados do mês recém-findo Recife embandeirou-se para saudar os oitenta anos de existência de uma das personalidades mais queridas e respeitadas do vizinho Estado de Pernambuco, do Nordeste e, - porque não dizê-lo? -, de todo o Brasil, já como figura humana, já como pesquisador de mancheia; mas, sobretudo, como um nordestino que demonstra por seus atos pessoais e atuação intelectual um amor desvelado pela sua terra e pelo seu povo. Folclorista com obra rica, qualificada e por isto mesmo aplaudida não somente entre nós, Mário Souto Maior é nome gigantesco que assoma grandioso entre os grandes de sua contemporaneidade. Tudo o que se disser a respeito de sua figura de escritor e pesquisador impenitente, meticuloso e prolífico, é pouco. Suas obras são uma referência para quantos desejam adentrar no maravilhoso e extraordinário mundo do folclore e da cultura popular. É necessário consultá-lo sempre para entender as manifestações nascidas da alma da gente nordestina, como fazemos em relação a um Câmara Cascudo, o mestre inexcedível; Amadeu Amaral, Sílvio Romero e alguns outros (não muitos) que se dedicam beneditinamente a garimpar, caçar, vasculhar e estudar os mistérios da sabedoria popular daqui e d'alhures; porém, com desvelado amor, sobre a mundivivência do povo heróico do calcinado Nordeste. Saudar Mário Souto Maior nestes seus oitenta anos de profícua existência é mais que uma alegria, é um dever prazeroso. Pois sabemos que te-lo produzindo com sofreguidão de jovem é a certeza de que esta biblioteca humana da Fundação Joaquim Nabuco ainda vai dar muito o que falar, espargindo sabedoria e ciência por todos os lados, para gáudio da nação nordestina e da raça pernambucana, principalmente." |