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Preparem-se: vem ai o Dicionário do Palavrão




Sebastião Geraldo Breguêz

Estado de Minas - 05.SET.1979


Em sua casa em Olinda, o folclorista Mário Souto Maior está preparando o anunciado Dicionário do Palavrão e Termos Afins, que muita gente aguarda com impaciência, com a intenção de aumentar e enriquecer o seu repertório pessoal. Na verdade, Souto Maior tem elaborado, através de inúmeras publicações, um amplo painel sócio-cultural do que é o Nordeste Brasileiro. São de sua autoria dezenas de livros, aproximadamente, que tratam dos mais variados aspectos culturais do povo nordestino: medicina popular, folclore da cachaça, cantadores e vaqueiros, a morte na boca do povo, carnaval, nomes próprios pouco comuns e outros.
 

Para a organização do Dicionário do Palavrão, Mário Souto Maior dedicou quase 10 anos de pesquisa, trabalhando 25 horas por dia (digo 25, porque só quem conhece a devoção com que esse pernambucano se dá ao trabalho pode entender, com mais precisão, a sua produção intelectual), inclusive nos preciosos minutos e segundos dos fins de semana. Nesse trabalho, conseguiu reunir cerca de quatro mil verbetes, entre palavras e locuções sobre o sexo. Depois que o trabalho ficou pronto, em 1974, mesmo antes de ser publicado, já estava vetado pela Censura por ser atentatório "à moral e aos bons costumes".
 

Agora, depois que o projeto de abertura do Presidente João Figueiredo descontraiu a vigília dos censores, o Dicionário do Palavrão prepara-se para ser editado. Com 50 mil exemplares previstos, para a primeira edição, o volume já está com a vendagem garantida e entrará, decerto, para a lista dos mais vendidos no Brasil inteiro.

Conheci Mário Souto Maior, em Recife, no Instituto Joaquim Nabuco de Ciências Sociais, criado por Gilberto Freyre, há algumas décadas atrás, e onde ele dirige o Centro de Estudos Folclóricos – uma das mais produtivas instituições brasileiras na área de cultura popular. Desse conhecimento, começou a nossa conversa.
 

SEBASTIÃO GERALDO BREGUÊZ - Mário Souto Maior, diga como começou sua pesquisa sobre o uso do palavrão.
MÁRIO SOUTO MAIOR - Eu estava coletando material para um trabalho que se intitularia Vocabulário Popular do Sexo. Uma tarde, o escritor Gilberto Freyre mostrou-me uma notícia numa revista sobre a publicação de um dicionário do palavrão na Alemanha e me disse: "Souto: Você que tem uma paciência franciscana, por que não transforma seu Vocabulário Popular do Sexo num dicionário dos nossos palavrões?" Raciocinei rápido: "Mas acontece que os nossos palavrões não chegam a cem". E o sociólogo explicou: "Mas você pode juntar os palavrões, as locuções, os termos afins relativos ao sexo e dar o título do Dicionário do Palavrão e Termos Afins". Aceitei o conselho e toquei a trabalhar.
 

SGB - Você pesquisou durante quanto tempo?
MSM - Do Vocabulário Popular do Sexo até sua transformação no Dicionário do Palavrão e Termos Afins gastei 8 anos e quase todos os minutos livres de minha vida funcional, sem contar sábados, domingos e madrugadas.
 

SGB - Obteve financiamento ou foi iniciativa particular?
MSM - Bem que eu gostaria de haver obtido uma ajuda financeira. Gastei dinheiro que não podia na aquisição de 8.000 envelopes de papel madeira, 4.000 questionários de seis folhas cada, 8.000 selos do correio (para retorno dos questionários), aquisição de livros (muitos), discos, revistas, 'dicionários (uns vinte), de vez que o trabalho foi feito em casa, depois que regressava do trabalho. Mas nem cheguei a solicitar ajuda de nenhuma instituição, porque o assunto, a pesquisa e o livro se transformaram num tabu, pois, assim que comecei a distribuir os questionários, a Censura pediu os originais.
 

SGB - Encontrou resistência para a pesquisa ?
MSM - Talvez até alguém tenha pensado que, depois de publicar uma dezena de livros sérios, eu tivesse ficado doido. Graves senhoras, senhores moralistas não entenderam, a princípio, o alcance do nosso trabalho. E foram contra, nos programas de rádio e televisão, nos púlpitos das igrejas, como se eu fosse um anticristo. Mas um padre respondeu o questionário (Monsenhor Nogueira, do Recife) e, na sua opinião, quem fala mais palavrão é motorista de táxi.
 

SGB - Quantos palavrões foram catalogados?
MSM - Palavras e locuções, com ou sem abonações, foram catalogadas como verbetes, num total de mais de quatro mil.
 

SGB - Você catalogou por região, ou não? Obteve ajuda de colegas de outros Estados para o levantamento?
MSM - Os verbetes foram catalogados por ordem alfabética, mas em todos eles o leitor poderá encontrar o Estado ou região onde são usados. Todos os escritores, meus conhecidos, ajudaram, respondendo às perguntas dos questionários, coletando livros a serem consultados, fornecendo subsídios os mais diversos etc.
 

SGB - Desde quando o trabalho está pronto?
MSM - Desde julho de 1974.
 

SGB - Como começaram os problemas com a censura?
MSM - Nunca tive problemas com a Censura propriamente dita. Quando ainda estava distribuindo os questionários, a Censura me solicitou a remessa dos originais. E, quando o trabalho ficou pronto, mandei três vias do Dicionário do Palavrão no dia 1 de agosto de 1974. E no dia 28.08.74, a Censura encaminhou o processo à consideração do Ministro da justiça de então. Nesse ínterim, o Ministro da Educação, a pedido da Comissão de MORAL e Civismo, pediu vista dos autos e o livro ficou engavetado até hoje.
 

SGB - Como a Censura transmitiu a você a liberação do trabalho?
MSM - Até o presente momento, não recebi nenhuma comunicação da Censura. Os jornais afirmam que o Dicionário do Palavrão foi liberado. Só.
 

SGB - Conte alguns casos pitorescos que ocorreram quando você preparava o trabalho - da coleta à organização final do texto.
MSM - Ocorreram, realmente, muitos casos pitorescos. Uma polêmica entre um padre e um pastor protestante, no Ceará. Uma pessoa respondeu que os maiores palavrões eram as contas do colégio, da luz, do telefone, o aluguel da casa, a prestação do carro e da televisão colorida. Hermilo Borba Filho (o saudoso e querido Hermilo) respondeu que não conhecia nenhum palavrão; as palavras que falavam em sexo, em amor e em mulher eram palavras poéticas.
 

SGB - 0 Dicionário vai ser editado por qual editora? Quando sai no mercado? Quantos exemplares?
MSM - Algumas editoras queriam publicar o Dicionário do Palavrão, entre as quais a Cultura, de São Paulo. Mas, no Recife, alguns representantes de editoras se reuniram e fundaram à Editora Guararapes Limitada, que me solicitou, através de amigos, ceder os originais para ser o primeiro livro da Editora, que foi fundada com a finalidade de preencher uma lacuna, qual seja, dotar o Nordeste de uma editora para publicar os livros de escritores da região, tão longe que sempre estiveram dos grandes meios editoriais brasileiros, que são Rio, São Paulo e Porto Alegre. A Guararapes está preparando a primeira edição do livro, com tiragem de 50.000 exemplares.
 

SGB - Você acha que, pelo fato de ter sido proibido e pela originalidade de seu trabalho, o Dicionário estará ou entrará logo para a lista dos mais vendidos?
MSM - Tratando-se do trabalho sério e pioneiro entre nós, estou certo de que ele será uma contribuição válida para quem quiser estudar os problemas etnolinguísticos. Claro que algumas pessoas lerão o livro atraídas pelo pitoresco e pela onda provocada pela imprensa, durante mais de cinco anos. Acredito, de uma maneira ou de outra, que o livro seja bem vendido. 0 povo decidirá o seu destino.
 

SGB - Como você vê a liberação da imprensa proposta pelo governo atual?
MSM - Considero a Censura necessária somente em relação às faixas etárias Os menores até 18 anos não devem assistir a certos filmes, ler certos livros, assistir a certas peças de teatro. 0 artista, seja qual for sua modalidade, deverá ter a liberdade de criar para alguém apreciar, ver, ouvir, curtir.
 

SGB - Você calcula que, pelo fato de ter sido vetado pela Censura, o dicionário trouxe prejuízo a você?
MSM - A demora da liberação só trouxe vantagem: ele amadureceu, Tive tempo de fazê-lo melhor, mais rico, mais certo. Mas encaro o dicionário, corno todos os meus trabalhos publicados, como minha contribuição, como registro de dados folclóricos para que não se percam nas dobras do tempo.
 

SGB - Quais são seus projetos futuros?
MSM - Estou escrevendo os primeiros capítulos de Sogras: Prós e contras. Depois, outras formiguinhas andarão na minha cabeça e outros trabalhos surgirão.

 

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