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Cantigas de Ninar: Origens Remotas




Da série FOLCLORE

Departamento de Antropologia da FJN - nº 217


A cantiga de ninar, o acalanto, a cantiga prá fazer menino pequeno dormir, é procedimento, sem nenhuma dúvida, universal. lula -na Suécia, kalebka - na Polônia, berceuse - na França, cantilena ou nane na Itália, wiegezang - na Alemanha, lulle - na Dinamarca, rurrupatas - no Chile, cancion de cuña - na Espanha e em outros países da América Latina, lullaby - nos Estados Unidos e na Inglaterra, lullen - na Holanda, cantigas de mucuru - entre os nossos nhengatus, cantigas de arrolar - em Portugal e nos países africanos quando colonizados pelos lusitanos, liulkova piesen - na Bulgária, kolybethnaia piecnh - na Rússia, cantec de legan - na Romênia, komoriuta -no Japão, e na boca de todas as mães do Mundo, as cantigas prá fazer azer menino pequeno dormir são um costume cuja idade é a mesma da primeira mãe quando pariu o primeiro filho. No começo, a cantiga de ninar não passava de simples melodia rudimentar, um rum-rum-rum gutural a meio tom para não acordar o marido cansado do trabalho diário e que as doces mães entoavam, vencidas pela fadiga, nas madrugadas sem fim, quando os filhos perdiam o sono. Mas ninguém sabe quem foi a primeira mãe que aconchegou seu filho de encontro ao seio, com a ternura própria das mães, e inventou essa cantilena que afugenta o bicho-papão, o boi da cara preta, o pavão que participam do mundo irreal de todas as crianças desde de ninguém sabe quando.

 

Muito embora não se tenha conhecimento de como, quando e onde surgiu a primeira cantiga de ninar, sabemos que o poeta romano Pérsio, no primeiro século da era em que vivemos, já falava de sua existência; , o mesmo acontecendo com outro poeta, Ausônio, também romano, que viveu no século IV depois de Cristo, que chegou a recomendar a Sexto Petrônio, que acostumasse seu filho a ouvir as estórias contadas por sua ama, bem como os acalantos.

 

Em seu Canções do Berço, J. Leite de Vasconcelos faz referência a Teócrito que viveu nos fins do século III e começos do século IV antes de Cristo, que ensinou a Alcmena uma canção de ninar para ela acalentar Herácles e Ificles, seus filhos gêmeos:

 

Dorme, meus meninos,
Um sono doce e brando.
Dorme, almas minhas,
Irmãos um do outro,
Filhos afortunados,
Repousai, felizes
E felizes chegai
Até amanhã, de manhã ...

 

Como acontece com todas as manifestações folclóricas correntes no Nordeste, a cantiga prá fazer menino pequeno dormir - menino chorão, manhoso, malcriado - também foi originária de Portugal, com exceção das cantigas de mucuru já entoadas pelos nossos nherigatus, antes de Pedro Álvares Cabral haver chegado por aqui. Mas, a maioria das cantigas de ninar mais conhecidas no Nordeste vieram no bojo das caravelas com as primeiras famílias portuguesas que chegaram na Terra de Santa Cruz.

 

A par de uma bagagem composta de baús, utensílios domésticos e agrários, cada português que aqui chegou trouxe, no seu coração, na sua lembrança, as cantigas de roda, os provérbios, os travalínguas, as superstições e todas as demais manifestações folclóricas próprias de seu mundo, manifestações que se eternizaram através de gerações que se sucederam durante séculos. Assim, os primeiros brasileiros foram embalados por suas mães portuguesas, sentadas em rústicas cadeiras de balanço, ao som de ternas e doces cantigas de arrolar.

 

Com a chegada do escravo africano e a consequente participação da mulher negra na vida familiar do colonizador português no Nordeste, as cantigas de ninar portuguesas foram, aos poucos, se adaptando aos costumes da região, permitindo tal adaptação que fossem feitas as mais variadas modificações não somente na letra como até mesmo na estrutura do verso, na construção da frase, na maneira de falar própria do linguajar de além mar. Podemos exemplificar o alegado neste acalanto de procedência portuguesa:

 

Vai-te, Côca, vai-te, Côca, Prá cima do telhado
Deixa dormir o menino Um soninho sossegado.

 

Foram feitas diversas modificações na cantiga de ninar mencionada. A Côca ou cuca - espécie de bicho imaginário criado e usado para fazer medo às crianças choronas que não querem dormir - só continua participando deste acalanto apenas no Sul do país, segundo Amadeu Amaral, o que não acontece com relação ao Nordeste, onde a côca, ou cuca foi substituída pelo pavão. E Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, no seu conhecido Novo dicionário da língua portuguesa, não registra o vocábulo côca mas cuca, significando bicho papão, coco, papagente, tutu, bitu, boitatá papa-figo.

 

E em lugar de "para cima do telhado", conforme consta do segundo verso do acalanto, a versão nordestina registra "sai de cima do telhado", de vez que, com a côca em cima do telhado fica mais difícil paro o menino poder dormir seu sono sossegado.

 

No que se refere à estrutura do terceiro verso, constatamos que a mesma foi alterada. Ao invés de "Deixa dormir o menino" usamos "Deixa o menino dormir".

 

Com as modificações constantes da adaptação à maneira nordestina de se falar, a cantiga de ninar tão portuguesa se nordestinou assim:

 

Chô, Chô, pavão
Sai de cima do telhado
Deixa o menino dormir
Seu sono sossegado ...

 

Assim, depois de nordestinado, o acalanto ficou mais doce.

 

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